DIA INTERNACIONAL DA MULHER – Presença
Rosana Marina
Escritora, professora, designer gráfica.
Filha de professora.

Era final de tarde, nesse intervalo em que o dia começa a se despedir da luz e tudo ganha magia. As cores, poderia jurar, roubavam os últimos instantes de brilho do sol, deixando tudo mais expressivo e revestindo uma casa que era só aura.
Uma escada lateral levava a um jardim de muitos anos. As flores eram plantadas conforme a predileção de quem as escolheu. Sem regras, sem pretensão. O jardim seguia memórias afetivas, talvez, desabrochadas de sementes guardadas em envelopes feitos com o primeiro papel à mão.
Entregue ao prazer de apreciá-la, deixei que se revelasse.
Era dessas casas de nona, em diálogo com o tempo.
E foi assim, envolvida pela atmosfera desse ambiente, que ela apareceu. Silenciosa, leve, com um sorriso acolhedor e uma voz etérea.
Era a professora Thereza. Não lembro o que disse. Eu não me escutava. Sua ternura absorvia minhas percepções.
Uma pergunta me trouxe de volta:
“Tu deve ser professora.”
Sim, respondi surpresa. E a curiosidade me fez indagar como ela soube.
“O teu jeito”, respondeu carinhosamente.
Enquanto escrevo, ainda sinto suas colocações, sempre acompanhadas de um olhar doce, quase uma carícia. Há pessoas que não cabem em relato. Pedem verso.
Existe um poema guardado
que perfuma gavetas,
feito sol pintando as primeiras horas do dia,
flor que se abre em cor,
brisa soprando borboletas.
Presença
que excede o tempo.
É Thereza.
Havia ali um silêncio reflexivo. Não era vazio, mas espera. Como se soubesse o que estava prestes a acontecer e se mantivesse suspenso. E, quando o som rompeu o ar, o agora já não me cabia. Veio antes da imagem: clac… clac… clac…, depois o apito longo, fuuuuuu—, e o vapor soltando um último suspiro, pshhhh
A história foi surgindo enquanto os passos nos guiavam até a escolinha da ferrovia. Ali, a professora Thereza ensinou a ler, escrever, somar, dividir e construir sentenças para descrever o mundo. E os filhos, depois, ensinaram aos pais, que aprenderam a reconhecer o nome das coisas.
Entrar na escolinha foi como visitar histórias que me eram familiares. Ali ela estava inteira. Havia, na profissão, uma paixão à semelhança do sentimento da minha mãe. Sem que ela relatasse, eu imaginava as horas de preparo das aulas, a atenção a um aluno específico, o esforço silencioso para que alcançasse a progressão da turma.
À medida que ela descrevia o espaço, eu o reorganizava mentalmente. Reposicionava o mobiliário, reencontrava o silêncio atento das crianças, cativas pela explicação da professora.
A edificação se assemelhava mais a uma casa do que a uma escola. E talvez por isso carregasse tamanha força simbólica. Não apenas parecia: era uma casa, com tudo o que ela oferece. Acolhimento. Afeto. Ideias que giravam, giravam, giravam junto às brincadeiras de roda.
É por isso que a materialidade precisa existir. De outra forma, pessoas memoráveis ficariam esquecidas, e as lembranças seriam subtraídas pela poeira do tempo, sem que tivéssemos a oportunidade de vivê-las.
Uma escola não é feita apenas de paredes, mas são elas que guardam a vida que permanece nos objetos, criando pertencimento.

