O Farroupilha
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Intermitências de um vírus

Não sei ao certo o que pensar do Covid-19, do câncer e de outras tantas vicissitudes que andam por aí.

Por uma destas intermitências, a Neiva se foi, em 2000, aos 31 anos. Eu era casado com ela. Era alegre e jovial. Merecia viver eternamente neste plano da existência, mas ela foi embora. Partiu numa véspera de feriado, 19 de setembro, e me deixou com a primavera por vir.

Sou um pouco cético quanto à morte. Duvido dela. Não sei se ela existe. As partidas são inevitáveis, mas sabemos tão pouco das idas e das chegadas. Muitas certezas se esvaem quando ela bate à porta. Ninguém a quer por perto. Por isso, lavamos as mãos; enxugamos os pés; trocamos os sapatos na entrada das casas; nos isolamos e ficamos torcendo para que um novo sol surja logo no horizonte.

O outono chegou e, por um triz, nem percebemos. As folhas mal começaram a cair. As cigarras estão cantantes. Há tempo, não as ouvia tanto. Disseram para ficar em casa, minha casa, minha vida. Muitos nem casa têm.
Não é verdade que o mineiro só é solidário no câncer. Os mineiros e todos nós somos solidários por natureza. Basta abrir a janela e bater palmas. Sempre haverá alguém a fazer o bem, não importa onde, quando e como. Minha saudação vai a muitos profissionais da saúde, aos que colhem o lixo, aos caminhoneiros, aos agricultores, aos policiais, a mim e a ti que arregaçamos as mangas e acreditamos.

Às vezes, porém, o egoísmo toma conta. Compramos muito papel higiênico e álcool gel. Construímos uma arca de Noé só para nós. Pensamos chegar ao céu edificando uma torre de Babel. Vaidade das vaidades! De repente, aparece um vírus e bumba, zás, já era …

O coronavírus é insuficiente para ditar rumos diferenciados. Já passaram por aqui Jesus, Milena, Buda, Joana, Francisco de Assis, Teresinha, Martin, Neiva, Manoel, Josefina, Loreno, Melissa, Wendy, Maria Luiza, Oswaldo e tantos outros que nos engrandecem. Os novos e os velhos caminhos transcendem as doenças. Não é a pandemia que diminui o mundo.