O Farroupilha
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Por ora, apenas

Toda profissão tem seus desafios ou para expandir ainda mais as possibilidades, toda ação com um propósito oferece suas dificuldades. Uma das minhas é inspirar-me. A escrita requer uma fonte, seja ela qual for, e a mais rica de todas para mim são as pessoas. Mais fechada que na rua no último mês, tenho experimentado uma espécie de escassez. Ainda bem que apenas de inspiração.

Como a limonada tem que sair, acabo substituindo o contato visual pela audição e neste campo não faltam elementos, que vêm de qualquer lugar: pelas ondas do rádio, pela TV, daqui, de longe, de Brasília.  

Compra, não compra; compra, não compra, opa, quis dizer: guerreiros com guerreiros fazem zigue-zigue-zá. De novo a brincadeira. Brincadeira que acontece em tempos nos quais é melhor não descer para o parquinho, hora de ficar quietinho. Mas os argumentos chegam à audição e fazem de tudo para convencer o juízo. Claro, palavras bem ditas têm este poder. Bom para quem as usa, melhor atentar quem escuta.

Nesta brincadeira, do zigue-zigue-zá, há guerreiros de todos os tipos. Tem aquele que de tanto usar a lança agora precisa usar mais o escudo, tem o outro que sumiu e tantos que apenas acompanham o ritmo. Ah, esqueci daqueles que querem mudar a brincadeira: tentam, tentam, mas continuam no zigue-zigue-zá.
Tudo pode ser justificado pela pandemia do novo coronavírus, que tomou o espaço de todo resto. Infelizmente ela tem a proporção necessária para servir de bandeira que justifique ações. É pano imenso. É também uma nuvem preta que ameaça desabar sobre as cabeças de todos nós. Em outros lugares ela já desabou.

Faço de tudo para escapar do assunto, mas a audição está inundada por ele, o que impreterivelmente acaba afetando minha mente. Enquanto este vírus estiver em mim pela audição, tá tudo certo. Tenho tomado todos os cuidados para que seja somente assim.

Uma hora ele vai passar, assim como a brincadeira vai mudar, assim como eu vou voltar a beber direto da fonte inspiradora do contato com as pessoas.
A única certeza é a mudança... e nem precisávamos de um vírus para isso.