O Farroupilha
LUIZ CARLOS RUSCHEL GOMES
Crimes contra a humanidade

Parece ser irremediável. O coronavírus, se aloja no corpo da criatura, invasor cruel, dominando indefesos humanos. Muquirana que nos perturba de forma perigosa. Não tem jeito. Trata-se de um conflito de desigualdade trágica, entre o homem e o vírus e, enquanto não houver a descoberta de uma vacina nada se pode fazer, a não ser proteger-se com toda cautela, ter os cuidados indispensáveis, recomendados por infectologistas. Dessa forma, o homem, de modo periclitante, mas inabalável, sobrevive. Inevitáveis consequências ocorrem com milhares de vítimas e assim será até o encontro de uma proteção imunológica.
O ser humano deseja tão somente, obstinado e esperançoso, que o coronavírus desapareça para acabar com esse crime humanitário.

Há 25 anos um genocídio abalou o mundo, cometido contra a população civil na Bósnia. A Iugoslávia foi outrora um país da região dos Balcãs, Europa. Inicialmente regido pela monarquia, mais tarde, uma república com domínio comunista. A crise política e econômica do país provocou a dissolução da Iugoslávia em sete repúblicas independentes: Bósnia Herzegovina, Croácia, Macedônia, Eslovênia, Montenegro, Sérvia e Kosovo. Problemas surgiram envolvendo grupos étnicos e religiosos da região: sérvios cristão ortodoxos, croatas católicos romanos e bósnios muçulmanos. Essa heterogenia religiosa provocou um conflito, que teve a duração de mais de três anos e que matou, aproximadamente 200 mil vítimas, civis e militares, - principalmente bósnios em grande maioria, e quase 2 milhões de refugiados. Na guerra da Bósnia mulheres e crianças escaparam da morte, os homens todos mortos. A diversidade étnica teve maior destaque envolvendo principalmente a Bósnia, com a população maior de bósnios- muçulmanos, depois sérvios e croatas. Essa divisão étnica provocava diferentes interesses. Nesse clima de tensão obviamente a guerra começa, com os sérvios atacando a Bósnia. Forças paramilitares da Servia se impuseram diante das desorganizadas forças da Bósnia e assim dominaram quase totalmente o território bósnio. Um dos mais trágicos casos ocorrido na guerra, aconteceu com um evento na cidade de Srebrnica, quando as forças servias invadiram um campo de refugiados matando mais oito mil bósnios. Os crimes contra a humanidade, massacres, foragidos de ditadores homicidas, morticínios entre grupos étnicos rivais, podem ter solução na ONU. O que não tem solução, ao menos por enquanto, é o criminoso de seres humano: coronavírus .

*** ***

O jornal inglês The Observer escolheu seis escritores ao redor do mundo para relatar a experiência do isolamento social e a vida na pandemia. A revista Carta Capital publicou o texto londrino com a seguinte manchete: “Planeta Vírus”. Participaram os escritores Tayari Jones (Estados Unidos), Maxim Leo (Alemanha), Emily Perkins (Nova Zelândia), Domenico Starnone, (Itália) Sjón (Islândia), e a escritora brasileira, natural de Bento Gonçalves, Natalia Borges Polesso.

Passageiros da agonia

Vida sofrida, existência dolorida, vivência lastimável. Não deveria ser assim, mas uma infinita parte da humanidade, comunidades vulneráveis, sobrevivem em derradeira indigência. Na passagem pela vida milhões de seres humanos são verdadeiros passageiros da agonia. Resignados, não tem direito a qualquer coisa, algo que possa oferecer uma breve satisfação, um pequeno limite de contentamento, um exíguo momento de felicidade. Acreditam ainda numa pequena parcela de esperança, no âmago de cada um, o diminuto sentimento de coisa melhor. Buscam estoicamente uma saída onde somente encontraram a entrada da penúria, da deplorável mendicidade. Desiludidos e desconsolados, não têm mais a expectativa de dias melhores. Enfrentam periculosidades, expõem-se as ameaças de agressões, correm riscos quanto a integridade física. Não há medo do medo. Indigentes da espécie humana e o que lhes sobram para sobreviverem é a compaixão e a piedade, queiram ou não, de seus outros irmãos em situação mais confortável. 

Miséria, pobreza extrema em que as vítimas são cadáveres da desigualdade social, a abismal distância existente entre as classes sociais, párias, excluídos do convívio social, à margem da sociedade. Pelo mundo, por todo planeta Terra é assim: famintos na África, famélicos na Índia, na periferia das cidades brasileiras, nas recônditas regiões do país, em muitos lugares, gente que morre de fome, desumanidade em forma de atrocidade, crueldade, barbaridade, selvageria, enfim, qualquer adjetivo que classifique a malevolência. 

Para quem tem condições de alimentar-se, a produção de alimentos pode abastecer a população mundial, porém essa situação caracterizada pelo bem-estar pode ser discutida pela aguda insegurança alimentar: no mundo a cada quatro segundos uma pessoa morre de fome. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) alerta: 1,4 milhão de crianças correm o risco de morrer com “o surto da fome”, em países africanos e, que padecem muito mais pela desnutrição, que pela doença proporcionada pelo coronavírus. 

No Brasil, no último boletim, dado disponível do Ministério da Saúde (2017), uma média de mais de 15 pessoas morreram por dia, 6 mil em todo ano pela desnutrição. O grande alerta da ONU é de que o catastrófica pandemia poderá colocar quase 270 milhões de pessoas no mundo, por falta de alimentos no severo roteiro da fome. Covid-19 não tem parâmetros para a escolha de suas vítimas: idosos, jovens, crianças, bebês de até dois anos de idade.  O Brasil já ultrapassou 60.000 mortes. Somente, entre quarta e quinta-feira, ou seja em 24 horas, foram quase 1.300 vítimas fatais. No R.G. Sul até quarta-feira notificação de 636 óbitos, 22 em 24 horas e quase 1.300 casos. Necessário lembrar que Minas Gerais e Paraná, tinham baixos índices de óbitos, repentinamente surge um surto da doença, quando tudo parecia normalizado. Outrossim, segundo cientistas o Covid-19, terá sua maior ascendência no RS neste mês de julho. Cuidado: muitos sobrevivem, passageiros da agonia

*** ***

Para reflexão; entre a cruz e a espada, dilema: certamente, em determinado momento, a economia irá se recuperar. A mesma oportunidade de recuperação não existirá para a vida que foi ceifada pelo coronavírus.

Idas e vindas

Os primeiros casos de contaminação no Rio de Janeiro aconteceram em meados do mês de março, na zonal sul da cidade carioca. Casos de fácil explicação, isso porque nos bairros de Ipanema, Leblon, Arpoador e Copacabana, a maioria que por ali reside é abastada, com uma posição financeira e social de prestígio invejável, pessoas consumidoras em lojas de grife e que viajam constantemente pela Europa, mundo afora. Um caso explicito: a madame viajou à Itália, voltou infectada pelo Govid-19, não informando à empregada doméstica que estava com a doença contagiante e assim infectou-a.

Ela, a empregada, como muitos outros trabalhadores, moradores da pequena cidade de Miguel Pereira (RJ), distante aproximadamente 100 quilômetros da capital fluminense, dali saem para prestar serviços na metrópole. A empregada doméstica citada, trabalhando no Leblon, passava a semana no emprego e, nos fins de semana, retornava à sua cidade para visitar a família. Numa dessas idas e vindas o inesperado trágico ocorreu: a patroa retornou, como se sabe, com o seu organismo portador de agentes infecciosos do coronavírus e, o que era óbvio aconteceu: a transmissão da doença ocorreu facilmente no contato direto. Vida que segue. Fim de semana, a doméstica visita parentes e, inapelavelmente, pela sequência funesta e execrável de transmissão do parasita hospedeiro, deixa vítimas e estigmas, na pequena cidade fluminense. Naquela semana sobreveio somente para a doméstica a vinda, a ida jamais: ficou em sua cidade eternamente sepultada. 

** ***

Country Club do Rio de Janeiro, a centenária sociedade, situa-se em Ipanema, uma quadra perto da praia. Clube de elite social, sofisticado, ostentoso, frequentado pela grã-finagem, pessoas de condição social elevada. Pertinho da famosa praia de Ipanema, mas para aquela gente requintada pouco importa, afinal quem tem uma sociedade que tudo oferece (quadras de esportes, piscinas, bela área paisagística), não necessita daquela praia frequentada pela aquela menina cheia de graça. Além do mais, aquelas pessoas socialmente de classe elevada, jamais iriam se misturar com aquela massa ignara, a desprezível classe pobre, com ninguém que seja um Zé Ninguém. Festas suntuosas ali realizam-se, jantares com chef francês, casamentos e etcetera. Uma estrutura enorme necessita de dezenas de empregados. Noite dessas um jantar concorrido, todos convidados sem máscaras, sentem-se incólumes ao vírus. Fim de festa, pessoal da limpeza em ação. Uma faxineira, moradora no subúrbio da zona norte, adquiriu o coronavírus e assim infectou parentes e vizinhos.

De outra feita, festa de casamento. Garçons atendendo aos convidados. Um deles em sua função é contaminado por alguém sem máscara. Dessa forma contraí o maligno coronavírus, ser inerte, parasita hospedeiro, dependente de outra células para se reproduzir. O citado garçom serviu para reprodução do vírus, colocando na estatística mais um óbito. Como o corona vírus tem princípios democráticos reconheça-se, atingindo vítimas de qualquer raça, gente pobre, gente rica. Uma grã-fina participante do lauto ágape, foi também vítima fatal da festa. Entre idas e vindas a vida segue, sobreviventes enfrentando a maldita moléstia.  

Mirtes e Miguel

O local é denominado Cais da Alfandega, zona nobre, na capital de Recife, onde está construído um condomínio de três torres, empreendimento de alto padrão, planificado com luxuoso e faustoso projeto arquitetônico, conhecido como torres gêmeas.  Além da beleza, o residencial está adjacente ao mar, com um aprazível panorama do horizonte. O domínio predial, por toda sua estrutura, por sua magnificência e ostentação, com todos os requintes de conforto de quem deseja como moradia, certamente deve ser habitado por gente que faz parte da sociedade endinheirada, local propício para a vida burguesa. Numa daquelas torres, exatamente no nono andar, mora uma família afortunada, que desfruta de todos os bens materiais possíveis. Naquele endereço trabalhava a empregada doméstica de nome Mirtes, ela que em plena pandemia continuava trabalhando. Enquanto isso, a creche onde ficava o menino Miguel (cinco anos), filho de Mirtes, estava inativa. A solução para o imprevisto foi solicitar à patroa que “desse uma olhadinha em Miguel”. A solicitação foi feita, em razão de que Mirtes iria passear com o cachorrinho de raça, na parte externa e térrea do prédio, assim Mirtes cumpria sua obrigação passeadora canina. Miguel ficou aos cuidados da patroa. Repentinamente disse que estava com saudade da mãe, queria encontrá-la, determinado queria ver a mãe. A patroa o atendeu. Um vídeo gravou o drama, a caminhada de Miguel para a morte. Porta do elevador aberta, elevador de serviço (Miguel é um negrinho), a patroa lhe diz alguma coisa, aperta determinado botão, a porta do ascensor fecha-se, assim o menino é catapultado para a desgraça, tragédia consumada. A patroa volta para o apartamento para que a manicure termine seu serviço.  A porta do elevador abre-se e o garoto se enreda por caminho desconhecido, chegando até uma abertura. Por ali pretende encontrar a mãe, não a encontra, encontrou a morte. Cai de uma altura de 35 metros, no chão um corpo estatelado mortalmente. Foi dessa trágica maneira que Mirtes pela última vez viu seu filho. A patroa que deveria proteger Miguel, não o fez. Uma verdadeira mãe jamais teria o descuido com os filhos de outra mãe. 

Todo esse funesto fato mostra, dolorosamente, a desigualdade social, as diferentes condições de maternidade envolvendo a mãe rica, a mãe pobre.  Mirtes, a empregada, a mãe, de condições financeiras precárias, como tem que trabalhar, lhe é negado o direito legítimo da maternidade, cuidar e criar dignamente o filho Miguel, é obrigada a terceirizar o filho, por força de seu trabalho cotidiano, de ida e volta, da favela para o trabalho. Entrevistada, Mirtes fala numa dor muito forte no peito. Sente que algo está engasgado em sua garganta, quase sufocando-a, sente a aspereza no ar. Tristeza e angústia, unem-se em profundo sentimento de amargura. Tudo acontece no inesperado e precoce velório de Miguel. Desesperada, afligida e soluçante chora, verte lágrimas, diante do corpo inerte, sem vida, do filho, marcado pelos desígnios da vida. O desígnio de Miguel, foi marcado pela negligência, pelo modo relapso, pela irresponsabilidade daquela patroa. 

Como tudo começou

Norte da Itália, foi por ali que tudo começou, a praga do coronavírus, no país itálico, cientificamente denominado como Covid-19. O início foi na rica cidade de Milão, epicentro da trágica infecção viral, estendendo-se por toda região nortista, atingindo várias cidades, inclusive Bergamo, 1,1 milhão de habitantes. A cidade foi contaminada de forma inusitada, origem de um resultado de uma partida de futebol.  Atalanta, o clube da cidade de Bergamo, participante do campeonato italiano de futebol da Série A, deslocou-se até Milão (60 quilômetros) para jogar diante do Valência (Espanha) pela Liga dos Campeões, meados do mês de fevereiro. Vitória sensacional e histórica, uma epopeia do time de Bergamo pelo placar de 4x1. Aproximadamente 45 mil torcedores deslocaram-se para acompanhar a equipe. Eufórica goleada, beijos e abraços, alegria contagiante, como também é contagiante coronavírus. Dezenas de milhares de fanáticos retornaram e tornaram-se o meio condutivo do vírus para a região da Lombardia com mais de 10 milhões de habitantes. Uma vitória que causou imensa derrota, do sublime ao trágico. Foi na Itália, que o mundo estarrecido, pela primeira vez, viu aquelas cenas chocantes que antecederam e se repetiriam em muitas outras regiões, em todo o mundo: aquela procissão lúgubre, com caminhões do exército, carregados de cadáveres, em direção ao crematório. Para evitar mais contaminações ficou proibida a liturgia cristã de um velório e a despedida final. No começo, lamentável foi a ausência do poder governamental em não tomar providências para conter a pandemia. Reconhecendo o erro tomaram medidas radicais, pois perceberam não se tratar de um resfriadinho. Foram milhares de vítimas. Na Espanha tudo começou no final do mês de janeiro e por lá também as autoridades demoraram a decidir por implacáveis e radicais atitudes. Quando surgiu o primeiro caso do médico italiano infectado, de férias em Tenerife, iniciou-se o surto em território espanhol. Autoridades espanholas acreditavam tratar-se de uma gripezinha, não era. Demoraram em tomar decisões, quando mais de 100 mil pessoas já estavam contaminadas mundo afora. Nem todas as autoridades e pessoas deram a devida importância e tiveram a consciência do que ocorria, já prognosticando Essa situação dramática não impediu que em Madri acontecessem manifestações, em vias públicas, comemorando o Dia Internacional da Mulher, que reuniu 120 mil pessoas para protestar, paradoxalmente, contra a letalidade da doença. No Chile, quando todos estavam apreensivos com o coronavírus, mais de 2 milhões de chilenos alienados, reuniram-se para exigir o fim da violência de gênero. Na cidade do México passeatas aconteciam, reivindicando alguma coisa, sem problemas, pois naquele momento a capital mexicana tinha registrado somente duas mortes entre os sete casos de coronavírus. As aglomerações proporcionaram aos milhões de organismos hospedeiros a fácil contaminação da moléstia. Ao que parece a fase pior na Europa foi superada. Presidentes, primeiros ministros, prefeitos, dos países europeus, resignadamente pediram desculpas as suas populações pelos erros cometidos, principalmente por não terem tomado as necessárias providências ao começo da pandemia. 

Por aqui...bem todos sabem

Como tudo começou

Norte da Itália, foi por ali que tudo começou, a praga do coronavírus, no país itálico, cientificamente denominado como Covid-19. O início foi na rica cidade de Milão, epicentro da trágica infecção viral, estendendo-se por toda região nortista, atingindo várias cidades, inclusive Bergamo, 1,1 milhão de habitantes. A cidade foi contaminada de forma inusitada, origem de um resultado de uma partida de futebol.  Atalanta, o clube da cidade de Bergamo, participante do campeonato italiano de futebol da Série A, deslocou-se até Milão (60 quilômetros) para jogar diante do Valência (Espanha) pela Liga dos Campeões, meados do mês de fevereiro. Vitória sensacional e histórica, uma epopeia do time de Bergamo pelo placar de 4x1. Aproximadamente 45 mil torcedores deslocaram-se para acompanhar a equipe. Eufórica goleada, beijos e abraços, alegria contagiante, como também é contagiante coronavírus. Dezenas de milhares de fanáticos retornaram e tornaram-se o meio condutivo do vírus para a região da Lombardia com mais de 10 milhões de habitantes. Uma vitória que causou imensa derrota, do sublime ao trágico. Foi na Itália, que o mundo estarrecido, pela primeira vez, viu aquelas cenas chocantes que antecederam e se repetiriam em muitas outras regiões, em todo o mundo: aquela procissão lúgubre, com caminhões do exército, carregados de cadáveres, em direção ao crematório. Para evitar mais contaminações ficou proibida a liturgia cristã de um velório e a despedida final. No começo, lamentável foi a ausência do poder governamental em não tomar providências para conter a pandemia. Reconhecendo o erro tomaram medidas radicais, pois perceberam não se tratar de um resfriadinho. Foram milhares de vítimas. Na Espanha tudo começou no final do mês de janeiro e por lá também as autoridades demoraram a decidir por implacáveis e radicais atitudes. Quando surgiu o primeiro caso do médico italiano infectado, de férias em Tenerife, iniciou-se o surto em território espanhol. Autoridades espanholas acreditavam tratar-se de uma gripezinha, não era. Demoraram em tomar decisões, quando mais de 100 mil pessoas já estavam contaminadas mundo afora. Nem todas as autoridades e pessoas deram a devida importância e tiveram a consciência do que ocorria, já prognosticando Essa situação dramática não impediu que em Madri acontecessem manifestações, em vias públicas, comemorando o Dia Internacional da Mulher, que reuniu 120 mil pessoas para protestar, paradoxalmente, contra a letalidade da doença. No Chile, quando todos estavam apreensivos com o coronavírus, mais de 2 milhões de chilenos alienados, reuniram-se para exigir o fim da violência de gênero. Na cidade do México passeatas aconteciam, reivindicando alguma coisa, sem problemas, pois naquele momento a capital mexicana tinha registrado somente duas mortes entre os sete casos de coronavírus. As aglomerações proporcionaram aos milhões de organismos hospedeiros a fácil contaminação da moléstia. Ao que parece a fase pior na Europa foi superada. Presidentes, primeiros ministros, prefeitos, dos países europeus, resignadamente pediram desculpas as suas populações pelos erros cometidos, principalmente por não terem tomado as necessárias providências ao começo da pandemia. 

Por aqui...bem todos sabem

Tempo de tortura

O tempo passa e a pestilência prossegue já algum tempo, em sua trajetória fatídica e tortuosa, ao que parece por   indeterminado tempo. Torturante, está fazendo a devastação na humanidade. Será o fim dos tempos? O apocalipse está chegando? Em livros escritos para cristões, contém revelações e mistérios quanto ao fim do mundo. O mistério será o abominável infectocontagioso coronavírus? Não se sabe. O caminho aflitivo e cruciante é percorrido com a angústia de ver tudo terminado. Até quando? Num dia desses, minha netinha Cecilia (4 anos) dialogava com a mãe Carolina: “Mãe, amanhã o coronavírus vai embora. Não... depois da amanhã. Sabe mãe não sei quando”. É Cecilia, não se sabe até quando vamos conviver com essa incerteza que gera medos e preocupações para crianças e adultos.  

A gripe espanhola perdurou por dois anos. A influenza H1N1, durou também dois anos. Contra a gripe espanhola o remédio era limão com açúcar, dizem, surgindo daí, a caipirinha. Para a influenza foi criada uma vacina. O escritor Rui Castro em seu livro “Metrópole à Beira Mar”, obra que aborda o Rio de Janeiro em 1920, época em que a gripe espanhola dominava o mundo, no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, em razão de uma crise   sanitária e econômica. O que causou momentos pavorosos: infectados não eram enterrados devidamente. Hospitais, com leitos insuficientes não tinham espaços para acomodar doentes, Ficaram pelos corredores em cadavéricas exposições. Muitos por ali mesmo morriam. Prossegue Rui Castro: remédios faltavam, assim como madeira para fazer caixões. Chegava ao ponto das pessoas condenadas, em fim de vida, serem enterradas vivas para não haver mais contaminação. A população foi aconselhada a evitar aglomerações em trens, bondes e ônibus. Na época ninguém acreditava na espanhola, tratava-se de um resfriado e não foi. Isso há 100 anos, hoje... A gripe espanhola alastrou-se em todo o mundo, acreditando-se que matou muito mais de 50 milhões de seres humanos. Na primeira grande guerra morreram nove milhões de soldados. No Brasil acredita-se em 35 mil óbitos, entre eles o de figuras ilustres como o presidente da República, Rodrigues Alves e o poeta Olavo Bilac. 

A terrível pandemia deixará cicatrizes na humanidade: no ano passado a ONU informou que a desnutrição no mundo (2019) tinha a estimativa de que 130 milhões de pessoas estavam em crise alimentar aguda, famintos. Com a praga do Covid-19 é previsto que se some mais 135 milhões de pessoas que entrarão na contundente estatística dos famélicos. Uma desgraça para mais de 260 milhões de pessoas numa penúria piedosa, perdidos no caminho miserável dos indigentes. Mais estigma: com a peste gripal, em torno 25 milhões (estatística em março desse ano), de empregados no mundo, passarão a ser desempregados. No Brasil, a crise da moléstia, calculam especialistas da OMS, deve ocorrer agora nos meses de junho e julho e numa conta provável, 80 mil brasileiros estarão mortos em agosto. A crise doentia pode ter seu fim somente em setembro. Nos Estados Unidos já chegaram a óbito mais de 100 mil pessoas, soma superior aos mortos americanos em duas guerras: Coreia e Vietnam. 

Pandemia: ontem e hoje

Faz 102 anos. Tempos desafortunados. Guerra em 1918 e o início da propagação de uma gripe mortal que ganhou o nome de espanhola. Os terráqueos viviam em plena angústia, amedrontados, com duas periclitantes situações: luta armada entre nações e uma doença infectocontagiosa. A guerra começou ao início daquele ano e a peste logo depois. O conflito na Europa ceifou 17 milhões de guerreiros e a pandemia gripal, mais de 50 milhões de vítimas civis. A vasta e mortal enfermidade começou nos Estados Unidos, mais exatamente no estado do Kansas, num campo de treinamento de soldados, que se preparavam para ir à Europa lutar na 1ª Guerra Mundial, quando surgiram os primeiros sintomas da gripe espanhola. Aliás, nada a ver com a Espanha.

Recebeu esse nome pela razão da Espanha não participar da guerra e por isso informar verdadeiramente o que ocorria com a hedionda guerra e a repulsiva gripe. Outros países boicotavam as reais notícias para não causar pânico na população. No início, lá no campo de treinamento americano, a gripe começou pouca intensa. Tempos depois a peste atingiu a Europa de modo impactante, inapelavelmente letal, matando soldados entrincheirados. Mais adiante, pelo contágio iminente, a pandemia atingiu a população civil em quase todos os continentes. O surto foi devastador, a virulência assoladora. A guerra, com soldados dentro de trincheiras, agrupados, sujeitos a intempéries, frio, todo o tipo de fenômeno natural, facilitava a disseminação da moléstia. Em hospitais uma pior situação: doentes aglomerados, debilitados e desnutridos, a pestilência matando. Naquele ano, como sempre acontecia, navios europeus atracavam em portos brasileiros. Um deles, um inglês, trouxe uma passageira fatídica e amaldiçoada, um tipo da gripe influenza. Do porto onde atracou, a moléstia contagiosa espraiou-se pelo país inteiro, colocando em óbito 35 mil brasileiros. Chegou a afetar a política. O presidente eleito Rodrigues Alves faleceu antes de assumir seu segundo mandato. O vice Delfim Moreira tornou-se presidente, desfecho político natural. As pandemias envolvem discussões, controvérsias na busca de lideranças, do poder político e daí advém erros desastrosos. Em São Paulo, o governo acreditou tratar-se de um resfriadinho. Geograficamente a Europa ficava muito longe e dificilmente, mesmo que fosse uma forte gripe, jamais abalaria os paulistas. Porém, mesmo assim se caso aportasse, o governo estava plenamente capacitado para enfrentar a “espanhola”. Ledo engano. Não estava. A espanhola chegou em setembro de 1918 e foi aquele desastre. Para o combate à moléstia o governo, pelo Serviço Sanitário, propagandeou uma série de cuidados para a população se prevenir. Além disso o poder político teve o direito a excepcionais verbas para dizimar a gripe. Não adiantou. Ao final do ano de 1918, quase 6.000 paulistas tinham morrido. São Paulo foi o exemplo do que aconteceu no plano nacional de histórica lentidão e incompetência, institucionalização errônea dos governos, a inépcia dos serviços de saúde. 

Ano de 1918, ano de 2020, gripe espanhola, covid 19, parece que as coisas se repetem, existe uma analogia nas tomadas de decisões, incertezas no governo federal, a segurança plena em tomar atitudes dos governos estaduais. É bem assim.

E daí?

É interessante, ao menos curioso, a representação numérica para os cuidados de proteção contra a moléstia covid 19.

O isolamento de 14 dias, se diz suficiente para garantir que aquele que foi infectado, não contamine pessoas próximas. Desperta atenção, provoca a vontade de saber, a referência ao período de isolamento, 14 dias, correspondendo a denominação de quarentena, derivada do número 40. Números 14 e 40, no período de isolamento ou de quarentena estão envolvidos. Pergunta: eles tem ou não algo em comum? Pela simbolização e numerologia:

Número 14 por sua simbologia compreende harmonia e equilíbrio, também justiça, independência e unidade. Representa determinação, otimismo. O número 14 compreende o período entre a lua crescente e minguante ou entre a lua cheia e a nova. Tem o aspecto trágico: Osíris, divindade venerada no antigo Egito, foi esquartejado pelo seu irmão Seth, o deus do caos, em 14 pedaços. O número 14 é muito utilizado por grupos extremistas. Nas tatuagens a expressão neonazista de 14 palavras: “Nós devemos assegurar a existência do nosso povo e o futuro das crianças brancas”.

Quarentena relaciona-se ao número 40, que tem significado secreto e muito simbolismo. Esse número é também poderoso, representando mudanças e transformações, desafios e decisões, situações enigmáticas, mas oferece tempo e paciência, necessários para que todas as coisas se desenvolvam ou resolvam. O número 40, há milhares de anos, foi utilizado para indicar um tempo de expectativa ou tempo de Deus. Portanto, podemos afirmar que a maioria dos relatos, se não todos, não duraram exatamente 40 dias, noites ou anos.

O número 40 tem forte simbolismo bíblico.

- Aos 40 anos Moises feriu um homem egípcio e teve que fugir. Mais tarde, 40 anos depois, foi conduzido a libertar seu povo da escravidão egípcia. Recolheu-se ao Monte Sinai por 40 dias e 40 noites. Peregrinou com o povo israelita pelo deserto por 40 anos. Levou 40 anos para escrever os 10 mandamentos.

- Elias, o profeta esteve por 40 dias na montanha.

- Jesus, antes de iniciar seu ministério, jejuou por 40 dias e 40 noites. Após sua ressurreição ele ficou 40 dias com seus discípulos.

- A Arca de Noé tinha 40 metros de altura

- Deus fez chover 40 dias e 40 noites, tempo   que durou o dilúvio.

O povo de Israel passou 40 anos em êxodo pelo deserto rumo Terra Prometida.

E daí? A quarentena é uma medida de saúde pública utilizada para impedir a disseminação de doenças com grande contágio. Quando as pessoas saudáveis, submetidas a uma quarentena, tiverem contato com doentes ou estiverem em regiões de surto epidêmico, tem sua liberdade restrita, para evitar assim o contágio e a disseminação da doença.  

Na verdade quarentena são 14 dias de isolamento. Daí ...

Folhas de Outono

O grande sucesso musical da década dos anos 50, foi Autumn Leaves (Folhas de Outono) cantada por Nat King Cole. Dezenas de outras gravações ocorreram desde aquele tempo, destacando-se Frank Sinatra e recentemente Bob Dylan. Autumn Leaves, trata-se de uma composição musical talentosa, de inspiração romântica e sentimental. A poesia é de amorosa sensibilidade.  Na tradução, o primeiro verso:

“As folhas que caem no chão em direção a minha janela/As folhas de outono de vermelho e ouro”.

Folhas de outono, secas ou mortas. Outono estação espremida na transição entre o calorento verão e o friolento inverno, duas estações contrapostas evidentemente. O agora outono austral, iniciado em março, modifica o mundo natural, fenômeno físico que se caracteriza com a diminuição da luz solar. O escurecer da noite chega cedo, diminuindo o espaço da tarde e consequentemente o dia. O crepúsculo vespertino, tempo macambuzio, oportuniza para refletir, meditar, analisar, as circunstâncias entre tantas, comportamentos, fatos e conceitos. Outono, a estação que causa melancolia, observando-se as folhas dos arvoredos, que já foram verdes, cheias de vida, agora tristonhamente empalecidas, amareladas, folhas secas. O tempo de outono determina que elas abandonem os galhos das árvores. São folhas de outono, impelidas inexoravelmente a cair. Tentam evitar esse malogrado destino para não serem estupidamente pisoteadas e inclementemente varridas, causando o pungente som da folhas secas pisadas. Assim esvoaçam demoradamente ao sabor do vento frio, na tentativa de não chegar ao indefectível destino. Folhas ao léu, que deveriam proteger árvores as deixam indefesas, desnudas, pelo castigo da intempérie. Folhas no chão. Nenhum empecilho ocorreu para aquilo que estava fadado. Mesmo assim, são predestinadas a promover outra beleza natural. No chão, espalhadas colorem com diversos matizes, do amarelo ao vermelho, tons indefinidos de beleza. Parecem ainda cheias de vida.  Passantes comuns não observam aquele encanto disperso. Já as pessoas, amantes da natureza, caminhando em parques, ficam deslumbradas, têm a simples, cativante e agradável sensação de ouvir aquele som, quase silencioso, do vento movendo as folhas secas. O vento pode levá-las a lugares incertos e desconhecidos. Atiradas no chão uma varredura acontece para deixar o local limpo. Varridas, algumas ainda têm utilidade, tornando-se lixo orgânico. Outras não têm serventia alguma por ignorância das pessoas, são atiradas em lugar fétido num lixão, misturando-se com toda espécie de excrementos. Folhas que viram lixão atiradas em covas simples, preparadas para as folhas mortas, ou cadáveres, sem qualquer respeito, piedade, consolação, ali enterrados como se fossem indigentes. 
O texto pode ser interpretado como metáfora, pode ser interpretado como mera coincidência.
Enfim, folhas de outono, folhas secas, folhas mortas.

‹ página anterior