O Farroupilha
MARIO ROMANO MAGGIONI
Há uns dois mil anos ...

A distância entre o que se pensa, o que se diz e o que se vive é longa. O embuste e a mentira, muitas vezes, calçam as botas. Muita linguiça tem sido usada para amarrar cachorro.
Um certo homem, chamado Jesus, há uns dois mil anos, passou por aqui. Muitos dizem segui-lo até hoje. Ele viveu e pregou, segundo o relato dos Evangelhos, o amor, a paz, o perdão, o respeito e a igualdade.
Diversas religiões pretenderam apropriar a sua vida e o seu ensinamento. Reportaram e reportam-se a ele com letra maiúscula (Ele), mas aprenderam pouco do que ele falou e viveu.
Em seu nome, ao largo dos séculos, dizimaram 'hereges' e índios, escravizaram negros e arquitetaram guerras. Vergonha!
A saga continua. Até hoje, a maioria das religiões fundadas em Jesus não aceita a igualdade entre homens e mulheres. Só homens são pastores, padres, bispos e papas. Mulheres não ocupam a liderança destas religiões e não consagram. São relegadas a um segundo plano. Definitivamente, parte considerável da humanidade fugiu das aulas de interpretação da fala e da vida de Jesus.
Muitos juram de mãos e pés juntos que o seguem. Oram incessantemente. Mas, sem nenhum constrangimento, dizem que: “Bandido bom é bandido morto”. Olvidam que Jesus foi levado à cruz com dois criminosos. A um deles, falou: “Hoje você estará comigo no paraíso” (Lucas 23:43). Ele próprio foi condenado por ser criminoso e blasfemar.
- Ele é culpado e deve morrer! Crucifica!
Buscam nas entrelinhas o que lhes interessa. Sem remorsos, julgam o que é moral ou imoral. A maioria destas religiões, até hoje, vê a homossexualidade como pecado. Alguns jogarão pedras neste escrito pelos simples fato de dizer que a homossexualidade é uma condição de vida igual à heterossexualidade. Dirão que não são preconceituosos. Dizem respeitar, mas acham nojento dois homens andarem de mãos dadas ou duas mulheres se beijando em público.
Não sei o que Jesus diria da economia, da justiça, da previdência, do trabalho, da proteção ambiental e da posse de armas.
 

Unicórnios

Na última semana, estive no ENAPA em Blumenau. Pessoas de todo o Brasil se reuniram para conversar a adoção.
Almoçamos na Vila Germânica. À minha frente, um homem de Londrina. Ele adotou uma menina. A adoção, após ter a guarda, demorou mais de quatro anos. Ao final, tudo deu certo. Pastorear os filhos tem a eternidade ao fundo.
A comida germânica era um substantivo de adjetivos e advérbios. Muito boa! Sem igual! Excelente!
Ao lado do homem, havia uma psicóloga de Curitiba e uma moça de Brasília. Ao meu lado, uma assistente social do interior de Santa Catarina e uma mulher de não sei onde. Todos tinham em conta a adoção. A psicóloga disse que era adotada.

Perguntei:
- Como é ser adotada?
Ela respondeu:
- Meus pais são os melhores pais do mundo.
O homem, à minha frente, quase chorou. O serviço à toa que se faz derruba as folhas do outono. Palavras simples enchem o mundo de estações.
- Você já falou isso para os seus pais?
A psicóloga riu. Deu comida para cachorros. Ajeitou a lata vazia. Trançou os cabelos da boneca. Colocou seu unicórnio para dormir. Essas coisas de criança desnecessitam as palavras e encurtam o tempo. São passarinhos à toa e grilos cantantes.
Quatro anos é muito?
A Mariana (4), minha filha, não queria que eu fosse ao ENAPA. Embaixo da mesa, ela se encolheu, na noite anterior à viagem, e disse chorando:
- Pai, eu vou sentir saudade!
Expliquei que seria só uma noite. (Menti, seriam duas noites).
Na noite seguinte, ela ligou:
- Pai você mentiu. São três dias.

Expliquei a relatividade do tempo. Às vezes, um dia é um dia. Às vezes, um dia é muito tempo. Outras vezes, um dia passa tão depressa. Não sei se ela entendeu. Prometi um unicórnio para compensar a relatividade temporal. Ao voltar da viagem, a Mariana me abraçou. ('O pai esqueceu!', ela pensou).
- Não esqueci não.
Ela abriu o presente. O sorriso da Mariana arrumou o tempo. Repetiu, em poucos dias, dezenas de vezes:
- Pai, ele é tão fofo!!!
Isso vale todo o tempo do antes, do agora e do depois.
 

A porca da Nona e o boi de Nova Bassano

Na casa da Nona havia uma porca gigante, muito grande. Era uma velha conhecida da minha filha Mariana (4). Aos domingos, ela adorava vê-la deitada no chiqueiro. Quando havia porquinhos por perto, as visitas eram ainda mais prazerosas. Duas fileiras de tetas se esparramavam de leite. Os porquinhos, aos montes, disputavam seu espaço leitoso.

- Tão fofinhos!!!
Na semana passada, a porca foi assassinada. Enfiaram uma faca. Tiraram seu pelo. Virou banha, salame e churrasco.
Comentamos com a Mariana o assunto. Ela, vestindo uma tiara de unicórnio, fez cara de choro. Foi ficando triste. Fez-se soluço. Começou a chorar:
- Mmmm!
O choro se fez lamento:
- Aaaammmhhhhaaaammmmmhhhhhh ...
- Por que você está chorando, Mariana?
- Eu não queria que eles matassem o porco.
As lágrimas rolaram pelo rosto.
- Mas é que daí tinha que comer o salame, a carne.
- Mas por que que eles mataram?
- Pra comer.
- É mas era lá da Nona. Por que que eles mataram o bicho assim? Eu ainda queria ver ele. Aaaammhhaaaammhhh …
Seguiram os soluços desconsolados.
Francisco de Assis viu isto com seus olhos e passou a chamar tudo de irmão e irmã:
- Irmão Sol! Irmã Lua! Irmã Porca!

Maria Montessori viu e repercutiu nas crianças:
- A inteligência da criança observa amando e não com indiferença, isso é o que faz ver o invisível.
Para uns um boi é apenas um boi. Houve um, pelas bandas de Nova Bassano, tão grande … Até hoje ocupa o espaço e a mente de muitos que o conheceram.

Manoel de Barros viu, lá longe, em cima da peúva, o ninho do tuiuiú, ensopado:
- Aquele ninho fotogênico cheio de filhotes com frio!
Aí se pôs a chover. Manoel viu a pelagem do gado limpa. A alma do fazendeiro limpou. Sua planta estava salva:
- E a primavera imatura das araras sobrevoa nossas cabeças com sua voz rachada de verde. - Disse Manoel.
Quando uma porca e um boi se vão, para eles é óbvia a inutilidade das crônicas. Transformam-se na própria crônica de pratos defumados, regados a vinhos, que já foram uvas.
É isso.
 

Àquela que partiu tão cedo

Por vezes, as palavras não fazem falta. O que dizer quando uma menina parte para inaugurar um outro universo?
Os filhos são para sempre. Neste solo secreto florescem novas borboletas. Cada adoção tem o seu tempo. Adota-se uma menina que anda muito; parte tão cedo, afável e abençoada, para outro jardim e não nos leva.
Chega o Dia das Mães. Ah!!! O dia que todos adoram. Os filhos que estão longe voltam para casa. As mães esperam ansiosas pelo abraço dos filhos que alçaram voos. Chega o dia ...
Acorda-se esperando o almoço da família mais uma vez reunida em encontro fraterno. Acorda-se com saudades. Na verdade, dorme-se com saudades. Hora após hora, mês após mês, a estação da dor parece não ter fim.
- Durmo há sete meses com saudades da filha número um. - Escreveu a mãe da menina. - Era assim que ela se intitulava. Ela não era a filha mais velha, mas, desde que chegou, passou a ser a número um. Ela e a mana assim se acertaram. Aquela que nasceu primeiro aceitou de bom grado passar a ser a número dois. Assim foi por 9 anos.
A borboleta foi alçar voos mais altos. Por aqui restou a saudade e a certeza de que um dia o reencontro será lindo. Chorar, sorrir, ser amada e acalentada é da natureza dos alicerces muito fortes.
Só as mães de anjo sabem a dor que trazem no peito. A dor de um amor maior que não está aqui, mas que está presente em todos os momentos do dia. Cada detalhe soa pela casa e traz de volta tantos risos.
Na reunião, cada pessoa chegou com uma rosa branca. Naquele momento, a menina que partiu tinha muitas mães, pais e irmãos:
- O que posso dizer é que a dor é insuportável. Tem sido difícil aceitar que a minha bebê foi morar com Deus. Aceito, mas não entendo. Sou mãe e como todas as mães meus planos para ela eram muitos. O dia de ontem foi para mostrar que família independe da consanguinidade. Minha família amada que se adota todos os dias.
Não há palavras certas. O cultivo é de cada um. No sonho, a menina vem correndo com uma rosa branca na mão e dá para a mãe.

Loreno

Domingo, 12 de Maio, Dia das Mães. A família do Loreno (83), meu pai, se reuniu para o almoço de domingo na casa velha de pedra. O Dorvalino, assador de sempre, serviu o churrasco.
Depois do almoço, comemos pinhões. O Loreno levantou. Sentou um pouco no sofá. Falou para o neto Lucas:
- Vou dormir.
Ficamos a tomar chimarrão. A Vera estava na porta e disse:
- Mãe, o pai está chamando!
A nona largou a cuia e foi atender ao seu 'véio'. Ao entrar no quarto, o nono falou:
- Vou morrer.
- Ma que, não vai morrer nada! - Disse a nona, dando um tapa no seu bumbum, e foi ao banheiro buscar um pano umedecido. Ele sempre dizia que ia morrer.
Ao voltar, o seu Loreno tinha partido. Os filhos e os netos foram correndo ao quarto: massagem no peito, respiração boca a boca, nada … Foi sestear debaixo das árvores do além. Assim meu pai partiu.
À noite, no velório, a Mariana (04), a mais nova dos 12 netos, vendo o povo chorar, reclamou:
- Estou cansada de tanta tlisteza! - E se foi, atrás de seus afazeres. Desenhou, numa folha em branco, o nono rodeado de flores. Aos pés dele, rabiscou uma grama para ficar mais fofo. A Mariana o fez feliz. O nono, agora, está pendurado na porta da minha geladeira.
No próximo domingo, o canto da grande mesa de madeira rústica da casa velha de pedra estará vazio por fora. Haverá apenas a cadeira. Sentarei ao lado, como fazia em todos os domingos. O Giovanni sentará à frente e o Gilmar (Pedrinho) ao seu lado. O Dorva fará de novo o churrasco. Não faltará ninguém: a Suzana, o Moacir, o Marcos, a Claudia, a Jucélia e a Jussemara. Os doze netos estarão numa balburdia de dar gosto. A nona não terá chance de falar. Haverá visitas. Sempre coube, cabe e caberá mais um na mesa do Loreno. Este é meu pai:
- Dai de comer a quem tem fome! Dai de beber a quem tem sede!
O canto da grande mesa estará cheio por dentro, sempre estará. O nono apenas mudou de dimensão. Não vamos dar moleza não: o vinho e o almoço do próximo domingo serão por sua conta … Sempre foram …
Te amamos, marido, pai, nono, pessoa encantadora que nos brindou com sua existência!
 

De tudo...um pouco

Domingo desses pela manhã dirijo-me a Porto Alegre pela ERS-122. Ando devagar com redobrada atenção, desviando de buraquinhos, buracos, buracões, esses conhecidos também como crateras. Passando pela conhecida curva da morte, acreditando que após aquele local a estrada esteja em melhores condições. Alívio, menos preocupação, busco a tranquilidade. Ledo engano. Ao aproximar-me do viaduto da estrada para Carlos Barbosa, aconteceu. Encoberto pela água da chuva lá estava uma proeminente abertura no asfalto. Foi ali o ocorrido. Senti o baque na direção, pneu estourado. Encosto na lateral e mais um drama. Não há acostamento, local tem mato, situado num declive, chuvisca, um transtorno a mudança do pneu. 
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Adiante um borracheiro. Indaga se eu estava descendo a serra. Digo que sim. Ele afirma que o fato é costumeiro, e que não pode se queixar; o faturamento aumentou sensivelmente.
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A ERS-122 é uma verdadeira calamidade pública. A antiga praça de pedágio foi demolida, em parte. Sobrou muito entulho, serviço que começou e não terminou, ocasionando mais um contratempo. Bem defronte ao posto da Polícia Rodoviária, sentido Caxias do Sul à Farroupilha, a pista dupla se transforma numa única passagem, resultado: em hora de pique uma intensa fila de veículos estendendo-se até o trevo em Forqueta. 
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Quem assiste o futebol europeu com jogos da Liga dos Campeões da UEFA (os quatro jogos recentes foi um show de técnica, tática e emoção) e da Premier League (campeonato inglês), fica completamente decepcionado com os jogos do campeonato brasileiro. Pode se comparar ao futebol varzeano, ou aquelas peladas entre amigos em final de semana ou um rachão entre casados e solteiros.
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No primeiro jogo na Catalunha: Barcelona 3x0 Liverpool, classificação assegurada, acreditava-se. O futebol tem surpresas, coisas surreais. Segundo jogo na terra dos Beatles, Liverpool 4xO. Dois times ingleses farão a final da champions. Liverpool x Tottenham Grêmio ganha do Fluminense ao 21 minutos 3x0. Comentarista da Sportv: Parece que estou vendo o Barcelona jogar
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Cenas de terror, perigosas, ameaçadoras. Na cerimônia da assinatura do decreto um bando de puxa-sacos, com o dedo indicador, ao lado do polegar, claramente representação de um revolver demonstravam satisfação. 
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Perguntar não ofende. Afinal o governo está estabelecido no estado de Virginia (terra yankee) ou em Brasília 
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Do notável escritor e filosofo italiano Umberto Eco, mordaz  Redes sociais dão voz a uma legião de imbecis
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A família envolvida com a literatura. O irmão Antônio Carlos Ruschel Gomes recentemente lançou o livro Ruas de Farroupilha. Mais recente, o primo João Carlos Rossler, autografou História da Medicina.
Quanto ao meu necessito de patrocínio. Alô, Alô Alexandre.

Para as melhores mães

Farroupilha amanhece. Os ônibus esvaziam as paradas. A luz amarela da lombada da rótula de Nossa Senhora de Caravaggio pisca. Os caminhões aproximam o que está distante. O Sol finge ainda estar adormecido. Domingo será Dia das Mães. Escrevo para mães especiais.
A minha mãe se chama Maria. Eu nasci no dia em que nasceu Maria, mãe de Jesus, 08 de setembro. Nesta junção de Marias, resultei Mario. Os melhores vestígios de mim seguem brindados na retina dos olhos da minha Maria. As crônicas que escrevo nascem dos gorjeios dos pássaros que a minha mãe ensinou a distinguir: os gritos da saracura e do quero-quero, o canto do sabiá, o trinado do nhambu. Os seus cantos de ninar se encontram perdidos em alguma playlist interior. As histórias que me contou eu reconto. Somos uma continuação de nossas mães.
Os pais não precisam ficar enciumados. Os filhos são feitos a quatro, seis, oito mãos. Adoro sentar ao lado do Loreno e da Maria para jantar ou almoçar. O som da voz deles é imperdível. O seu cheiro é banhado de terra, de água e de sol. Eles enfrutam o Outono e fazem a Primavera chegar antes.
Eles me levam à nona Maria, mãe do meu pai, e ao nono João. Ela era uma eterna trabalhadora, comandava a família com seus dedos tortos. O nono sentava na ponta da mesa, com seu garrafãozinho de vinho, e fingia ser o dono.
Conduzem à nona Pina (Josefina), mãe da minha mãe. Pequena e de cabelo compridos, ficou a sós, com seus dez filhos, aos trinta e poucos anos. O nono Augusto faleceu quando minha mãe tinha três ou quatro anos. Cuidou de todos com um afeto de pedir benção, inclusive do Antoninho que, ainda bebezinho, foi 'adotado' pela nona PINA. Sempre cabe mais um. As raízes adotivas nascem perto. O útero dos pais é bem mais amplo que as estreitas fendas de onde viemos.
A minha mãe viveu e vive carregada de poemas: recolher as vacas, espantar as galinhas da horta, colocar lenha no fogão, fazer o pão de forno, costurar nossas roupas, fazer a polenta que eu nem gostava tanto assim, trabalhar na roça ...
Até a mim ela carregou e carrega até hoje. Te amo, mamãe! Você é a melhor Maria Anna do mundo!
 

Arranjos para uma gravidez

Vem aí o Dia das Mães!
Escrevo esta crônica rodeado da aurora de orvalho. O silêncio salta escuro ao meu redor. Cato entre as linhas as sementes adormecidas.
Encanta ver uma mãe grávida. A palavra gravidez tem a mesma raiz de gravidade. Tem a ver com o peso. Foram necessários milhares de anos para descobrir que cair é lei da natureza: massa atrai massa. É isso que faz da gravidez um momento único: carregar um peso dentro de si para que ele não caia. A mãe Terra sempre esteve grávida de nós todos. O dentro, em alguma ocasião, é por fora.
Perguntaram-me:
- Por quanto tempo os filhos dependem dos pais? Até os 18 anos?
- Até os 100. - Respondi.
Maria Anna (81), minha mãe, até hoje, linda como uma flor que é, se preocupa com seus seis filhos. Seus cabelos continuam embranquecendo ao andar dos filhos, do Sol e da Lua. A gravidez dos filhos é para a vida toda. É a melhor coisa que aconteceu. Junto com o Loreno (83), nosso pai, ela ensinou respeitar e amar. Ensinou a importância de colocar telha por telha, sem deixar faltar: uma telha a menos não é bom. A chuva também cai e alaga.
O casal (dois homens) sentou à minha frente. Estavam grávidos de um filho ou de uma filha. Faltava a barriga da gravidez, mas não faltava a gravidade da situação. Nessa junção é possível que nasça um filho ou uma filha, ou dois filhos, ou duas filhas, sem que falte telha alguma.
Ao vê-los partir da minha sala de juiz, fiquei imaginando a Maria Anna e o Loreno em sua sexta gestação. Nasceu a Suzana (39), minha mana caçula: a telha faltante da família.
Não acredito em coisas pré-fabricadas. O amor vem de dentro e se expande para todas as direções. Saber a gravidez é conhecer a sua origem, a sua massa e o seu peso. As dimensões da atração, às vezes, levam milhares de anos para adquirir o conceito certo.
É dessa gravidez e dessas mães e pais pertencidos a filhos que eu escrevo. Tomara que, para este casal, despertem logo as sementes adormecidas! Estou na torcida.
 

William, Jorge e Miguel

Dia 23: William é um nome comum especialmente no Reino Unido e nos Estados Unidos. Nome de imperadores, reis, e outras tantas personalidades famosas, inclusive o mais celebre, príncipe do reino inglês William. No Brasil, também é um nome corriqueiro. Um dos mais famosos é o William do Jornal Nacional. Na verdade há muitos williams mundo afora. William significa protetor corajoso. O nome é muito mais significativo quando vem à lembrança um afamado sobrenome: Shakespeare. Possuído de uma criação esplendorosa, qualificado como o melhor escritor da língua inglesa, o mais influente dramaturgo de todos os tempos, autor de peças teatrais inauditas, inesquecíveis, populares, encenadas durante séculos.  Além disso suas obras literárias foram adaptadas inúmeras vezes para o cinema e televisão. Comprovam-se esses dados quando afirma-se que as peças de Shakespeare foram representadas mais do que qualquer outro dramaturgo. Sua volumosa criação compreende autoria de comédias, tragédias, dramas históricos. É dele a mais famosa e eterna frase: Ser ou não ser, eis a questão. Shakespeare faleceu, 23 de abril 1616, aos 52 anos.
 
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Dia 23: dia do santo guerreiro São Jorge, proeminente santo militar. Sua história é confusa, cheia de controvérsia, cercada por lendas.  Esse destemido guerreiro, além de padre foi também um soldado romano, venerado como mártir cristão. Há muita polêmica envolvida com a sua existência. Em razão disso o papa Paulo VI nos anos 1960, com reforma do calendário da celebração dos santos, retirou São Jorge  do panteão dos santos oficiais da Igreja Católica. Por esta razão a memória do guerreiro passou a ser facultativa. Para essa peremptória atitude, os argumentos do Vaticano estavam nas origens difusas e na precariedade de registros. Essa drástica atitude, não teve importância alguma aos devotos de São Jorge que continuaram a fieis a devoção. A popularidade do santo guerreiro é imensa no Rio de Janeiro. Em sua homenagem há um feriado estadual, dia em que realiza-se monumental procissão, com São Jorge no andor, com sua armadura militar, montado em cavalo branco, cravando a espada no dragão.
Santo da Igreja Católica, São Jorge tem também devoção dos umbandistas. Para eles São Jorge corresponde a Ogum, orixá da guerra, muitas vezes invocado para abrir caminhos.
Desse modo é possível encontrar fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, fato entendido como sincretismo. 
São Jorge morreu em 23 de abril de 303 d.C.

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Dia 22: um dia antes da morte Shakespeare, em 22 de abril de 1616, faleceu outro majestoso e venerável protagonista da literatura mundial, poeta, dramaturgo, novelista, o espanhol Miguel de Cervantes, considerado um dos maiores escritores da literatura espanhola, autor da obra-prima, o livro Dom Quixote de La Mancha, clássico da literatura ocidental, sendo considerado o primeiro romance moderno.  Em sua ficção realista, satiriza o estilo literário da época, através do personagem Dom Quixote de La Mancha, montado em seu cavalo Rocinante, acompanhado de seu fiel companheiro Sancho Pança e a dama Dulcineia, sua amada. Episódio marcante é o dos Moinhos de Vento, metáfora da loucura de Dom Quixote. 

A foto que não existe

Vem aí o Dia das Mães!
Em meus exercícios de relaxamento, vagando entre os quadros das redes sociais, deparei com a mensagem:
Trabalho para o Dia das Mães do meu filho de 3 anos: a bendita foto minha grávida que não existe.
O que fazer? Xingar a escola pela tarefa inapropriada? Tachar os outros de insensíveis?
O que destelha a adoção não é a falta da foto.
Uma mãe recortou, na altura da barriga, um círculo da sua camiseta. A filha vestiu a camiseta com a mãe. A cara da filha ocupou o buraco recortado. Pronto!, feita a foto da mãe grávida.
A adoção é criativa. Futuros pais adotivos, se querem fotos da gravidez, fotografem-se esperando os filhos! A espera gravídica, com ou sem barriga, é cheia de encantamentos fotografáveis.
Se no Dia dos Pais a escola pedisse uma foto dos pais grávidos, alguém acharia inoportuna a tarefa? Será que os pais engravidam também? É possível fotografar um pai grávido? A barriga estará mais para barril de chopp do que para feto, mas a gravidez estará ali.
A boa gravidez se confunde com a paternidade e a maternidade. A embriologia não dura nove meses. Dura a vida toda e vai além, se propaga no sol, não faz as mesmas coisas todos os dias. Dá vontade de encostar. Participa do silêncio dos outros.
Fotografem-se, futuras mamães, ao lado do telefone esperando uma ligação! Fotografem-se no curso preparatório! Fotografem-se mães! Há que se preparar os caminhos da chegada! Só assim haverá fotos para testemunhar uma gravidez diferenciada. Toda a gravidez é única e inesquecível. A bendita foto grávida existe se for feita a tempo. Mas se alguém esqueceu, não tem problema. O que importa não são as fotos. O que importa é o filho, o pai, a mãe, são os avós: este telhado é resistente. A foto importante é aquela estampada por dentro. As demais são supríveis, embora sejam bonitas.
Vem aí o Dia das Mães! Fotografem as mães por dentro. É como se fosse um poema encartado num círculo da camiseta. É tudo o que se necessita.