O Farroupilha
MARIO ROMANO MAGGIONI
Um arco-íris visitou a Segunda Vara

Numa manhã, iminente de processos, o sol brilhou sobre as gotas de chuva. Não sei ao certo se chovia ou se fazia sol ou se ambos ou se nenhum. Uma estudante do ensino médio, naquela manhã, acompanhava o meu ofício de juiz da Segunda Vara de Farroupilha. Era a minha ‘sombra’.
O casal, por volta das 10 h, veio conversar comigo. Estavam em aproximação com uma menina. Confesso que eu estava apreensivo.
- Viemos buscar ela!
Fez-se o arco-íris, avermelhado por fora e violeta por dentro. É um fenômeno conhecido desde a chuva e o sol. Um deles resumiu o fato:
- O pessoal da Casa Lar disse que só falta a assinatura do juiz.
Fui conversar com a Elisângela, minha assessora:
- Recebemos algum relatório da Casa Lar?
- Não. - Respondeu ela.
Liguei para a Casa Lar. Perguntei se estava tudo ‘ok’ com a preparação para a adoção.
- Ela está preparando as malas. O doutor quer conversar com ela?
Trouxeram, de imediato, a menina. Conversei com ela. Não pude medir se a faceirice era maior dela ou deles. Os fenômenos ópticos e meteorológicos se conjugam para o querer bem. Ampliaram o arco-íris. Esta é a metáfora de uma mão a mais na fotografia dos dois.
Vindos de tão longe ou de tão perto para morar aqui. Almas  criadas para viverem juntas. Criaram vínculos. Se encontraram antes, para  preparar a chegada. A menina os encontrou.
Explicaram que, no termo de guarda para fins de adoção, deveria constar que um iria ter direito à licença paternidade e o outro, à licença maternidade. Assim foi feito antes do meio-dia.
Espero que tudo esteja ao gosto de todos. Deus acima de tudo. O afeto acima de todos. Espero que o amor, assim gerado, traga felicidade. Uma nova telha foi encaixada no telhado. O arco-íris está tão gigante e agitado que causa dor no peito e grita ao mundo. A chegada de uma filha é um sol que brilha sobre as gotas da chuva. São as azaleias que estão a florescer em cima dos barrancos e à margem das estradas. É uma crônica a ser compartilhada.

A menina que me deu uma flor

Fui até a Casa Lar. Ganhei de presente da menina de 03 anos uma flor amarela, dessas que nascem e vivem no meio da grama, sem que ninguém se preocupe com elas. A menina fez um buquê de quatro flores amarelas. Ela estava de saída da Casa. Disse que fará quatro anos em breve. Vai morar aos cuidados de sua família com seu irmão e outros mais.
O buquê era para o irmão, mas eu pedi uma flor para mim. Ganhei a flor. O irmão dela ficou com uma flor a menos.
Ela falou que, ao se despedir dos colegas, um menino começou a chorar:
- Vou sentir saudades!
Ela se despediu rápido para não chorar também.
Eu disse:
- Você pode voltar para visitar. (Tomara que, ao voltar, já não encontre o menino! Lugar de criança e de adolescente é dentro de sua família.)
Além da flor, ganhei um abraço, desses que começam a dormir pelos lados, e a lembrança de dois grandes olhos acolhidos de gramíneas que não cabem dentro das crônicas.
Levei a flor ao fórum.
- Ganhei uma flor. - Disse ao chegar na Segunda Vara Cível que, de restolho, acumula a infância e a juventude, com minúscula, mas que devia ser maiúscula. A prioridade absoluta nem sempre é tão prioritária aos olhos do Judiciário e de outros mais.
Levei, ao término do expediente, a flor para casa. Coloquei ela no meio do Manoel de Barros, foi na folha 150:
“Rios e mariposas
Emprenhados de sol
Eis um dia de pássaro ganho”.
A flor secará os poemas. Ganhei um dia de pássaro emprenhado de rios e mariposas ensolarados. O Manoel, lá de dentro, ajeitará suas letras num céu sem prateleiras. Não conheci o poeta e não é necessário. Ele deixou sua poesia que atrai borboletas, sapos e formigas. Se eu pudesse, mandaria, pelo correio, a flor para o Manoel de Barros. Ele, de maneira séria e verdadeira, não diria nada. Colocaria ela no seu vaso de inutilidades à toa e em vão de colecionador de cacos, vidros, fitas e outros utensílios de valia nenhuma.
Ele brindaria um dos versos do livro de pré-coisas:
- Flores engordadas nos detritos até falam!
 

“Iluminare”

Na sexta-feira à noite, o Murilo (16), meu filho, colou grau no Programa Miniempresa. Foi no teatro da UCS em Caxias do Sul. Cerca de 300 alunos de diversas escolas de Caxias do Sul, Farroupilha e Flores da Cunha se formaram. O programa é chefiado pela CIC Jovem e se direciona aos estudantes do segundo ano do ensino médio. Os alunos vivenciam, na prática, o processo de criação de uma empresa. O grupo do Murilo criou a 'Iluminare'. Produziram e venderam luminárias. Foram os vencedores da categoria “produção”. Isto é aprender fazendo. Muito bom!

Após a formatura, às 21 h, fomos (eu - 54 -, o Murilo e a Mariana - 4) jantar no centro de Caxias, na rua Júlio de Castilhos.

Dois homens e uma mulher na calçada cuidavam do estacionamento. Eram pobres. Acho que fugiram da aula de 'aprender fazendo'. Um deles arranjou, próximo à esquina, uma vaga de estacionamento para nós. Ele fez sinal. Estacionamos.

Ao retornar da janta, damos a ele uma cédula de R$ 50,00. Os três se reuniram rapidamente com cara de quem não acredita.

Fomos até a esquina. Entramos no carro. Demorei um pouco para partir. A Mariana não conseguia pôr o cinto de segurança. A mulher veio caminhando na nossa direção. Esticou a mão para nós:

- Vocês não existem! Estou chorando! Agora vou comer! Que Deus abençoe vocês!

O Murilo respondeu:

- Que Deus abençoe vocês também!

Acrescentei:

- Amém!

Cumprimentamos a mulher. Partimos. Os dois homens, no meio da quadra, acenaram para nós.

Este é o cenário. Esta foi a formatura. A irrelevância da filosofia está no saber tão pouco. A importância, quiçá, esteja numa outra dimensão. No restaurante, ao lado da nossa mesa, havia uma estátua do Buda, uma pequena fonte com moedas e três Budinhas.

Para completar a noite, faltou um vaga-lume - daqueles gigantes -  driblando as trevas de fora para dentro e tentando desvirar o torto.

Nas calçadas estacionadas de frios poemas, esta é a crônica. As letras arejam a terra. As minhocas cultivam as cédulas para capim:

- Que Deus nos abençoe!

“Iluminare”

Na sexta-feira à noite, o Murilo (16), meu filho, colou grau no Programa Miniempresa. Foi no teatro da UCS em Caxias do Sul. Cerca de 300 alunos de diversas escolas de Caxias do Sul, Farroupilha e Flores da Cunha se formaram. O programa é chefiado pela CIC Jovem e se direciona aos estudantes do segundo ano do ensino médio. Os alunos vivenciam, na prática, o processo de criação de uma empresa. O grupo do Murilo criou a 'Iluminare'. Produziram e venderam luminárias. Foram os vencedores da categoria “produção”. Isto é aprender fazendo. Muito bom!

Após a formatura, às 21 h, fomos (eu - 54 -, o Murilo e a Mariana - 4) jantar no centro de Caxias, na rua Júlio de Castilhos.

Dois homens e uma mulher na calçada cuidavam do estacionamento. Eram pobres. Acho que fugiram da aula de 'aprender fazendo'. Um deles arranjou, próximo à esquina, uma vaga de estacionamento para nós. Ele fez sinal. Estacionamos.

Ao retornar da janta, damos a ele uma cédula de R$ 50,00. Os três se reuniram rapidamente com cara de quem não acredita.

Fomos até a esquina. Entramos no carro. Demorei um pouco para partir. A Mariana não conseguia pôr o cinto de segurança. A mulher veio caminhando na nossa direção. Esticou a mão para nós:

- Vocês não existem! Estou chorando! Agora vou comer! Que Deus abençoe vocês!

O Murilo respondeu:

- Que Deus abençoe vocês também!

Acrescentei:

- Amém!

Cumprimentamos a mulher. Partimos. Os dois homens, no meio da quadra, acenaram para nós.

Este é o cenário. Esta foi a formatura. A irrelevância da filosofia está no saber tão pouco. A importância, quiçá, esteja numa outra dimensão. No restaurante, ao lado da nossa mesa, havia uma estátua do Buda, uma pequena fonte com moedas e três Budinhas.

Para completar a noite, faltou um vaga-lume - daqueles gigantes -  driblando as trevas de fora para dentro e tentando desvirar o torto.

Nas calçadas estacionadas de frios poemas, esta é a crônica. As letras arejam a terra. As minhocas cultivam as cédulas para capim:

- Que Deus nos abençoe!

Estou com vergonha!

Loreno (83), meu pai, faleceu no Dia das Mães de 2019. Já se vão dois meses sem o meu querido 'velho'!
Num amanhecer desses, sonhei. Eu arrumava a minha cama. Puxa cobertor aqui. Atravessa lençol ali. Estava difícil. Quando consegui ajeitar a indumentária da cama, lá estava um corpo barrigudinho esticado embaixo dos lençóis e dos cobertores, todo tapado. Pensei:
- Quem é o danado que invadiu a minha cama?
Ergui o cobertor. Era o meu pai. Deduzi, 'é uma miragem! Uma alucinação da visão matinal!'. Sacudi os pensamentos. Coloquei uma mão de cada lado da cabeça do meu pai. Era ele, real, em carne e osso, com esqueleto e tudo. Ao toque das minhas mãos, ele abriu os olhos. O sorriso misterioso da partida estava com ele.
- Aí, nono, tá tudo bem?!!!
- Aahhh!!! … Mais ou menos! - Disse o Loreno.
- Como assim 'mais ou menos'?!
Fez-se um silêncio de neblina e frio.
- … estou com vergonha! - Respondeu o meu pai.
Acordei suado, com a sensação de que alguém fez xixi no mundo.
Foi este o sonho.
Recontando os fatos, surge, ao amanhecer, o dito do meu pai:
- Dai de comer a quem tem fome! Dai de beber a quem tem sede!
Lição tão sábia e tão simples. É esta a vergonha que devia mover o mundo. Vergonha de que pessoas, gatos, jaguatiricas, quatis, árvores, carvão, ferro, petróleo, terra, ar e água tenham fome e sede. Vergonha de cortar direitos trabalhistas e previdenciários de quem ganha menos. Eles movem a essência da economia. Vergonha de não repensar as grandes fortunas, os ganhos desmedidos, que espalham fome e sede. De concentrar tanto e dividir tão pouco. De não enxergar o óbvio, dos 20 aos 60. De não ver que lugar de criança é dentro de um abraço dos pais, ao lado dos seus brinquedos. Lugar de velho é a dignidade de comer e beber na amplidão das palavras. Eu tenho 54 e a vista já não alcança as letras de ontem. Jogo futebol e percebo que o alto rendimento é um momento especial para depois do jogo.
- … estou com vergonha!
É esta a lição que o Loreno traz do além ou do aqui. Sabe-se tão pouco da real existência, em carne e osso, com esqueleto e tudo.
 

Há uns dois mil anos ...

A distância entre o que se pensa, o que se diz e o que se vive é longa. O embuste e a mentira, muitas vezes, calçam as botas. Muita linguiça tem sido usada para amarrar cachorro.
Um certo homem, chamado Jesus, há uns dois mil anos, passou por aqui. Muitos dizem segui-lo até hoje. Ele viveu e pregou, segundo o relato dos Evangelhos, o amor, a paz, o perdão, o respeito e a igualdade.
Diversas religiões pretenderam apropriar a sua vida e o seu ensinamento. Reportaram e reportam-se a ele com letra maiúscula (Ele), mas aprenderam pouco do que ele falou e viveu.
Em seu nome, ao largo dos séculos, dizimaram 'hereges' e índios, escravizaram negros e arquitetaram guerras. Vergonha!
A saga continua. Até hoje, a maioria das religiões fundadas em Jesus não aceita a igualdade entre homens e mulheres. Só homens são pastores, padres, bispos e papas. Mulheres não ocupam a liderança destas religiões e não consagram. São relegadas a um segundo plano. Definitivamente, parte considerável da humanidade fugiu das aulas de interpretação da fala e da vida de Jesus.
Muitos juram de mãos e pés juntos que o seguem. Oram incessantemente. Mas, sem nenhum constrangimento, dizem que: “Bandido bom é bandido morto”. Olvidam que Jesus foi levado à cruz com dois criminosos. A um deles, falou: “Hoje você estará comigo no paraíso” (Lucas 23:43). Ele próprio foi condenado por ser criminoso e blasfemar.
- Ele é culpado e deve morrer! Crucifica!
Buscam nas entrelinhas o que lhes interessa. Sem remorsos, julgam o que é moral ou imoral. A maioria destas religiões, até hoje, vê a homossexualidade como pecado. Alguns jogarão pedras neste escrito pelos simples fato de dizer que a homossexualidade é uma condição de vida igual à heterossexualidade. Dirão que não são preconceituosos. Dizem respeitar, mas acham nojento dois homens andarem de mãos dadas ou duas mulheres se beijando em público.
Não sei o que Jesus diria da economia, da justiça, da previdência, do trabalho, da proteção ambiental e da posse de armas.
 

Unicórnios

Na última semana, estive no ENAPA em Blumenau. Pessoas de todo o Brasil se reuniram para conversar a adoção.
Almoçamos na Vila Germânica. À minha frente, um homem de Londrina. Ele adotou uma menina. A adoção, após ter a guarda, demorou mais de quatro anos. Ao final, tudo deu certo. Pastorear os filhos tem a eternidade ao fundo.
A comida germânica era um substantivo de adjetivos e advérbios. Muito boa! Sem igual! Excelente!
Ao lado do homem, havia uma psicóloga de Curitiba e uma moça de Brasília. Ao meu lado, uma assistente social do interior de Santa Catarina e uma mulher de não sei onde. Todos tinham em conta a adoção. A psicóloga disse que era adotada.

Perguntei:
- Como é ser adotada?
Ela respondeu:
- Meus pais são os melhores pais do mundo.
O homem, à minha frente, quase chorou. O serviço à toa que se faz derruba as folhas do outono. Palavras simples enchem o mundo de estações.
- Você já falou isso para os seus pais?
A psicóloga riu. Deu comida para cachorros. Ajeitou a lata vazia. Trançou os cabelos da boneca. Colocou seu unicórnio para dormir. Essas coisas de criança desnecessitam as palavras e encurtam o tempo. São passarinhos à toa e grilos cantantes.
Quatro anos é muito?
A Mariana (4), minha filha, não queria que eu fosse ao ENAPA. Embaixo da mesa, ela se encolheu, na noite anterior à viagem, e disse chorando:
- Pai, eu vou sentir saudade!
Expliquei que seria só uma noite. (Menti, seriam duas noites).
Na noite seguinte, ela ligou:
- Pai você mentiu. São três dias.

Expliquei a relatividade do tempo. Às vezes, um dia é um dia. Às vezes, um dia é muito tempo. Outras vezes, um dia passa tão depressa. Não sei se ela entendeu. Prometi um unicórnio para compensar a relatividade temporal. Ao voltar da viagem, a Mariana me abraçou. ('O pai esqueceu!', ela pensou).
- Não esqueci não.
Ela abriu o presente. O sorriso da Mariana arrumou o tempo. Repetiu, em poucos dias, dezenas de vezes:
- Pai, ele é tão fofo!!!
Isso vale todo o tempo do antes, do agora e do depois.
 

A porca da Nona e o boi de Nova Bassano

Na casa da Nona havia uma porca gigante, muito grande. Era uma velha conhecida da minha filha Mariana (4). Aos domingos, ela adorava vê-la deitada no chiqueiro. Quando havia porquinhos por perto, as visitas eram ainda mais prazerosas. Duas fileiras de tetas se esparramavam de leite. Os porquinhos, aos montes, disputavam seu espaço leitoso.

- Tão fofinhos!!!
Na semana passada, a porca foi assassinada. Enfiaram uma faca. Tiraram seu pelo. Virou banha, salame e churrasco.
Comentamos com a Mariana o assunto. Ela, vestindo uma tiara de unicórnio, fez cara de choro. Foi ficando triste. Fez-se soluço. Começou a chorar:
- Mmmm!
O choro se fez lamento:
- Aaaammmhhhhaaaammmmmhhhhhh ...
- Por que você está chorando, Mariana?
- Eu não queria que eles matassem o porco.
As lágrimas rolaram pelo rosto.
- Mas é que daí tinha que comer o salame, a carne.
- Mas por que que eles mataram?
- Pra comer.
- É mas era lá da Nona. Por que que eles mataram o bicho assim? Eu ainda queria ver ele. Aaaammhhaaaammhhh …
Seguiram os soluços desconsolados.
Francisco de Assis viu isto com seus olhos e passou a chamar tudo de irmão e irmã:
- Irmão Sol! Irmã Lua! Irmã Porca!

Maria Montessori viu e repercutiu nas crianças:
- A inteligência da criança observa amando e não com indiferença, isso é o que faz ver o invisível.
Para uns um boi é apenas um boi. Houve um, pelas bandas de Nova Bassano, tão grande … Até hoje ocupa o espaço e a mente de muitos que o conheceram.

Manoel de Barros viu, lá longe, em cima da peúva, o ninho do tuiuiú, ensopado:
- Aquele ninho fotogênico cheio de filhotes com frio!
Aí se pôs a chover. Manoel viu a pelagem do gado limpa. A alma do fazendeiro limpou. Sua planta estava salva:
- E a primavera imatura das araras sobrevoa nossas cabeças com sua voz rachada de verde. - Disse Manoel.
Quando uma porca e um boi se vão, para eles é óbvia a inutilidade das crônicas. Transformam-se na própria crônica de pratos defumados, regados a vinhos, que já foram uvas.
É isso.
 

Àquela que partiu tão cedo

Por vezes, as palavras não fazem falta. O que dizer quando uma menina parte para inaugurar um outro universo?
Os filhos são para sempre. Neste solo secreto florescem novas borboletas. Cada adoção tem o seu tempo. Adota-se uma menina que anda muito; parte tão cedo, afável e abençoada, para outro jardim e não nos leva.
Chega o Dia das Mães. Ah!!! O dia que todos adoram. Os filhos que estão longe voltam para casa. As mães esperam ansiosas pelo abraço dos filhos que alçaram voos. Chega o dia ...
Acorda-se esperando o almoço da família mais uma vez reunida em encontro fraterno. Acorda-se com saudades. Na verdade, dorme-se com saudades. Hora após hora, mês após mês, a estação da dor parece não ter fim.
- Durmo há sete meses com saudades da filha número um. - Escreveu a mãe da menina. - Era assim que ela se intitulava. Ela não era a filha mais velha, mas, desde que chegou, passou a ser a número um. Ela e a mana assim se acertaram. Aquela que nasceu primeiro aceitou de bom grado passar a ser a número dois. Assim foi por 9 anos.
A borboleta foi alçar voos mais altos. Por aqui restou a saudade e a certeza de que um dia o reencontro será lindo. Chorar, sorrir, ser amada e acalentada é da natureza dos alicerces muito fortes.
Só as mães de anjo sabem a dor que trazem no peito. A dor de um amor maior que não está aqui, mas que está presente em todos os momentos do dia. Cada detalhe soa pela casa e traz de volta tantos risos.
Na reunião, cada pessoa chegou com uma rosa branca. Naquele momento, a menina que partiu tinha muitas mães, pais e irmãos:
- O que posso dizer é que a dor é insuportável. Tem sido difícil aceitar que a minha bebê foi morar com Deus. Aceito, mas não entendo. Sou mãe e como todas as mães meus planos para ela eram muitos. O dia de ontem foi para mostrar que família independe da consanguinidade. Minha família amada que se adota todos os dias.
Não há palavras certas. O cultivo é de cada um. No sonho, a menina vem correndo com uma rosa branca na mão e dá para a mãe.

Loreno

Domingo, 12 de Maio, Dia das Mães. A família do Loreno (83), meu pai, se reuniu para o almoço de domingo na casa velha de pedra. O Dorvalino, assador de sempre, serviu o churrasco.
Depois do almoço, comemos pinhões. O Loreno levantou. Sentou um pouco no sofá. Falou para o neto Lucas:
- Vou dormir.
Ficamos a tomar chimarrão. A Vera estava na porta e disse:
- Mãe, o pai está chamando!
A nona largou a cuia e foi atender ao seu 'véio'. Ao entrar no quarto, o nono falou:
- Vou morrer.
- Ma que, não vai morrer nada! - Disse a nona, dando um tapa no seu bumbum, e foi ao banheiro buscar um pano umedecido. Ele sempre dizia que ia morrer.
Ao voltar, o seu Loreno tinha partido. Os filhos e os netos foram correndo ao quarto: massagem no peito, respiração boca a boca, nada … Foi sestear debaixo das árvores do além. Assim meu pai partiu.
À noite, no velório, a Mariana (04), a mais nova dos 12 netos, vendo o povo chorar, reclamou:
- Estou cansada de tanta tlisteza! - E se foi, atrás de seus afazeres. Desenhou, numa folha em branco, o nono rodeado de flores. Aos pés dele, rabiscou uma grama para ficar mais fofo. A Mariana o fez feliz. O nono, agora, está pendurado na porta da minha geladeira.
No próximo domingo, o canto da grande mesa de madeira rústica da casa velha de pedra estará vazio por fora. Haverá apenas a cadeira. Sentarei ao lado, como fazia em todos os domingos. O Giovanni sentará à frente e o Gilmar (Pedrinho) ao seu lado. O Dorva fará de novo o churrasco. Não faltará ninguém: a Suzana, o Moacir, o Marcos, a Claudia, a Jucélia e a Jussemara. Os doze netos estarão numa balburdia de dar gosto. A nona não terá chance de falar. Haverá visitas. Sempre coube, cabe e caberá mais um na mesa do Loreno. Este é meu pai:
- Dai de comer a quem tem fome! Dai de beber a quem tem sede!
O canto da grande mesa estará cheio por dentro, sempre estará. O nono apenas mudou de dimensão. Não vamos dar moleza não: o vinho e o almoço do próximo domingo serão por sua conta … Sempre foram …
Te amamos, marido, pai, nono, pessoa encantadora que nos brindou com sua existência!
 

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