O Farroupilha
SÉRGIO ALMEIDA
Será o fim das Estações Rodoviárias?

Empresas estão fechando as portas em razão dos efeitos econômicos da pandemia. Em Cachoeira do Sul, a Estação Rodoviária encerrou suas atividades na terça-feira, após 79 anos. Muitos na cidade se emocionaram ao ouvir a empresária Rosane Radünz fazer o anúncio através de um programa de rádio. Eu assisti pelo aplicativo e, como haviam pessoas ao meu redor, tive que seguir o conselho de minha mãe: “Engole esse choro, guri!”.

Rosane contou que o serviço de estação rodoviária começou em 1941, com seu avô, José Carlos Engler. E que em 1976, seu pai, Arno Radünz, construiu a atual estrutura. “Ele se desfez de todo seu patrimônio e colocou sua vida ali”, confessou com a voz embargada.

 Eu nasci em Caçapava do Sul, mas cresci na capital nacional do arroz. E a rodoviária de Cachoeira fez parte de minha infância, adolescência e vida adulta. Quando estudava no ensino fundamental e médio, costumava ir com frequência à casa dos meus pais, no interior, pela empresa São João. Durante meus anos de UFSM, a Planalto me levava a Santa Maria na segunda e me trazia na sexta. Além, é claro, das incontáveis viagens pela Unesul para a capital dos gaúchos. 

A primeira rodoviária foi criada em Vacaria, no ano de 1939, depois de um bate-papo entre um jornalista e o proprietário do cinema da cidade. “Por que não criar um local fixo para expedir os bilhetes, como os ingressos de cinema, para quem quisesse viajar?”, pensaram eles. A ideia ainda está funcionando em 211 dos 497 municípios gaúchos, mas pode estar com seus dias contados, devido, principalmente, a redução de passageiros.

Ah, se as paredes das rodoviárias falassem, elas relatariam eufóricas sobre a conversa das pessoas na fila do guichê, sobre os homens que faziam uso do banheiro e “saiam de fininho” sem deixar uma moeda para o ‘cara’ da limpeza e sobre os “caras de pau” que folheavam as revistas na banca antes do embarque. E contariam emocionadas sobre os pais e mães que esperavam ansiosos seus filhos retornarem dos estudos fora, os abraçavam e os beijavam, e saíam alegres com eles até o estacionamento. Agora, sem chegadas e partidas, elas certamente diriam em tom de despedida: “Muitos vão sentir a minha falta!”.

Apaga o fogo e salva vidas!

Quinta-feira, 2 de julho, foi o dia de prestar homenagem àquele que está sempre pronto a arriscar a própria vida para salvar a nossa: o bombeiro. A palavra “bombeiro”, usada para designar o “apagador de incêndios” (o ‘cara’ que manuseia a bomba de incêndio), é de 1844. Antes disso, os encanadores é que eram chamados de bombeiros, porque usavam bombas de água para desentupir canos. No Rio, ainda hoje o profissional que conserta os encanamentos é chamado de bombeiro. Essa você não sabia!

 Eu tinha 12 anos, quando um incêndio atingiu o bar que ficava na esquina do prédio onde eu morava com meus pais, em Cachoeira do Sul. Era por volta de meio-dia, quando ouvimos o som da sirene do caminhão vermelho. Eu desci correndo as escadas e me misturei aos curiosos. E, do outro lado da rua, pude ver de perto os bombeiros em ação. Nunca esqueci! Enquanto uns combatiam as chamas, outros tentavam acalmar o filho do casal dono do bar, que entrou em desespero ao ver o fogo consumir o negócio da família. Naquele dia, aprendi a admirar e respeitar o trabalho dos bombeiros.

Não é por acaso que o Corpo de Bombeiros foi eleito a instituição mais confiável pelo 11º ano consecutivo. Para um bombeiro que se preze, ser bombeiro não é apenas uma profissão, é uma missão. Como costumam dizer: “Quando os segundos contam, conte com a gente!”. E, devido à coragem para enfrentar situações de risco e a capacidade para trabalhar sob pressão, há quem os considerem “os heróis da vida real”. Porém, se chamá-los assim, modestamente dirão: “Não somos heróis, talvez mais humanos que muitos humanos”.

O amigo Altemir Silva, que está na reserva há 11 anos, me falou sobre sua paixão pela profissão: “O bombeiro vai ao encontro daquilo que todo mundo está correndo”. E acrescentou, feliz da vida: “Meu netinho Henri, de três anos, me disse: ‘Vovô, quero ser bombeiro como o senhor. Bombeiro apaga o fogo e salva vidas!’”.

Leve a vida com poesia

Cresci ouvindo meu pai declamar Jayme Caetano Braun. E na adolescência, conheci a obra de Mário Quintana. Foi paixão à primeira leitura. Certa vez, ao ver um par de sapatos pretos no beiral da janela, Quintana escreveu: “Dois velhos barcos, encalhados sobre a margem tranquila de um açude”. Em outra oportunidade, ao ouvir uma amiga dizer que achou pequeno o quarto do Hotel Royal, em Porto Alegre, onde o poeta morava (cedido pelo proprietário Paulo Roberto Falcão, ex-jogador de futebol), Quintana disse: “Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas”. E, após tentar, sem sucesso, por três vezes uma vaga na Academia Brasileira de Letras, Quintana escreveu o “Poeminho do contra”: “Todos esses que aí estão, atravancando meu caminho, eles passarão... eu passarinho”.

A obra de Mario Quintana me deixou tão fascinado a ponto de me atrever a escrever textos bobos. Depois amassei e joguei no lixo (na era do computador ‘excluí e deletei da lixeira do Windows’)”. Todavia, toda vez que vejo aberto inscrições para concursos de Poemas, me pergunto: “Por que não?”. Mas em seguida a voz da razão subjuga a voz do coração.

Quiçá um dia Deus em sua infinita bondade e misericórdia me abençoe com a dádiva de ver poesia em qualquer situação, como Mauro Ulrich: “Não tem mais tomate... Como vou fazer o molho? Com o nó do indicador, coço o canto do olho”. Ou com o dom de notar em algumas coisas a beleza que os outros não notam, como Alcione Sortica: “De repente, a brisa, e teus cabelos agitavam-se, imitando espigas de trigo, balouçando-se ao vento”. Ou com a capacidade de expressar emoções, sentimentos ou sensações em forma de versos, como Carlos Drummond de Andrade: “Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus, se sabias que eu era fraco.”.

Ah... a poesia! Em meio a tudo que acontece no mundo, precisamos aprender a levar a vida de forma mais leve, com mais poesia. Como Edison Botelho: “A gente vai diluindo, a rotina no café, e do jeito que der, a vida na poesia”.

Tem sempre alguém de olho

Na vida, todos precisam de uma boa referência, alguém (anônimo ou famoso) para se espelhar. O exemplo profissional de um médico desperta a vocação médica de muitos jovens. Um líder comunitário que se preocupa em alcançar o objetivo a qual se propõe a sua comunidade influencia muitos a se dedicar a tornar a cidade um lugar melhor. Enfim, todos nós já tivemos um “super-herói” que nos inspirava quando éramos crianças.

Com o futebol parado por causa do coronavírus, os amantes da bola lançaram uma brincadeira no Facebook: um amigo dá a outro a tarefa de postar os 10 jogadores que influenciaram no seu gosto pelo futebol. Eu fui incumbido da missão por João Correa, ex-fisioterapeuta do Caxias. Uma forma de demonstrar gratidão aos caras que me inspiraram a calçar uma chuteira.

A primeira vez que um atleta da cidade onde cresci, Cachoeira do Sul, despertou minha paixão pela bola foi durante Cachoeira 1 x 2 Grêmio, no Joaquim Vidal, em 20 de junho de 1979, pelo Gauchão. Eu tinha 13 anos e fui assistir Baltazar, o “Artilheiro de Deus”. Mas, antes de vê-lo marcar os dois gols do imortal tricolor, vibrei com o golaço que o alvirrubro Dílson Nunes fez de cabeça após cobrança de escanteio de Toninho. Saí do estádio de alma lavada: “Eu quero viver essa emoção”.

Há outros conterrâneos que me inspiraram na carreira. Lisérgio Pradella, para muitos, foi o melhor ponta direita que já pisou nos campos de várzea da cidade onde cresci. Conta-se que, certa vez, terminou uma partida com lesão em duas costelas. E venceu! Foi parar no Grêmio. Dizem que teria sido o substituto de Renato se não tivesse desistido da carreira.

Teco Tatsch, campeão amador do Rio Grande do Sul em 1979, que foi jogar a fase nacional da Copa Arizona em São Paulo. Quando cheguei na Ser Caxias, em 1987, Teco já tinha encerrado a carreira devido à grave lesão no joelho sofrida em seu jogo de despedida no Centenário (ele havia sido vendido ao futebol uruguaio). Nunca esqueci o que ouvi sobre sua passagem vitoriosa pela equipe grená. “Teco era considerado um herói pela torcida”.

Durante a vida, somos influenciados e influenciamos. Por isso, todo cuidado é pouco! Assim como você se inspira em pessoas, pode ter pessoas se inspirando em você. Como costumo dizer, “tem sempre alguém de olho”.     

Aluga-se

“Sem poder atuar na pandemia, empresário vendeu carro para quitar dívidas”. Uma manchete que ninguém gosta de ler. A matéria, publicada num jornal gaúcho do qual sou articulista, relata o drama de um proprietário de ginásio esportivo que está impedido de trabalhar em razão da pandemia do coronavírus. Na Câmara de Vereadores de Cachoeira do Sul, um vídeo de desabafo de uma comerciante sobre a proibição de funcionamento de seu estabelecimento comercial após as 19h, foi apresentado durante a sessão: “Quem vai pagar nossas contas no fim do mês?”, questionou a empreendedora, com a voz embargada.

Eu me solidarizo com a dor dos empresários por que, há 22 anos, fui dono de uma quadra de futebol Society. E fico de cabelo em pé só de pensar como seria ter de manter o pagamento do aluguel, água, luz e o salário dos funcionários diante de uma receita zerada.

Além de ser ameaça à sobrevivência dos pequenos negócios, a covid-19 também coloca em risco os empregos. Desde o início da pandemia, Bolsonaro tem alertado que o Brasil tem dois problemas: a vida, o vírus e a questão da recessão. E, em sua tradicional live semanal no Facebook, o presidente voltou a defender a reabertura do comércio: “Temos a onda do covid sim, que leva a mortes, mas temos uma onda maior ainda que é o desemprego”.

Aqui em Caxias chama a atenção o aumento do número de artistas de rua, vendedores ambulantes, lavadores de para-brisa e pedintes nos semáforos e de placas de “aluga-se” que se espalham por boa parte da cidade. O que traz nova atenção a previsão: “No fim da pandemia, o Brasil terá mais falidos que falecidos”. Plagiando um poema de Mario Quintana que evidencia a publicidade da Coca-Cola através dos tempos: “Em todos os prédios, em todas as lojas, no ponto principal de todas as cidades, existe – e quem é que não viu? – aquela placa... De modo que, se esta civilização desaparecer e seus dispersos e bárbaros sobreviventes tiverem de recomeçar tudo desde o princípio – até que um dia também tenham os seus próprios arqueólogos – estes hão de sempre encontrar, nos mais diversos pontos do país, aquela mesma palavra. E pensarão eles que “Aluga-se” era o nome de nosso Deus!

Me esqueci de viver

O livro de Gênesis relata que Jubal foi o ancestral dos homens que tocavam harpa e flauta. Baseado nisso, nós, cristãos, acreditamos que o descendente de Caim foi o primeiro músico da história. Graças a ele, dificilmente passamos um dia sem música. E algumas marcam momentos.

Eu era criança, no Irapuá, interior de Caçapava do Sul, e estava brincando com carrinhos atrás da caixa d’água alta da casa dos meus pais quando a Rádio Cachoeira deu a nota de falecimento do meu tio Dilton Brum Lago no meio da programação e tocou “Aquela nuvem”, de Gilliard: “Aquela nuvem que passa, lá em cima sou eu. Aquele barco que vai, mar afora sou eu. Aquela folha que vaga, pelas ruas sou eu, buscando você...”. Ainda hoje, quando a ouço, me emociono.

Quando eu tinha 20 anos e cursava Administração na UFSM, em Santa Maria, ouvi “20 e poucos anos”, de Fábio Júnior: “Nem por você, nem por ninguém. Eu me desfaço dos meus planos. Quero saber bem mais que os meus 20 e poucos anos”. A canção virou meu lema pra vida inteira.

Aos 21, em BH, após terminar o período de adaptação no Atlético, precisava decidir sobre meu destino: fico ou retorno para casa? E tomando uma vitamina de abacate numa lanchonete perto da Vila Olímpica, escutei “Que será”, de Altemar Dutra, vindo de um carro de som: “Eu vou partir, mas sei que volto um dia. Pra ver de novo a terra onde nasci. Pisar o mesmo chão onde brinquei, quando criança. Eu vou partir mas sei que volto um dia. Que será, que será, que será. Que será de minha vida eu não sei”. Ainda hoje, quando coloco o vinil pra tocar, me emociono.

A primeira música que cantei e toquei ao violão para minha namorada Marta – que anos depois viria a ser minha esposa – foi “Menina”, de Paulo Nogueira: “Menina que um dia conheci criança, me aparece assim de repente, linda, virou mulher”. Anos depois, a pedido de meu sogro Araci, cantei “Porque Ele vive” em seu velório: “Porque Ele vive, posso crer no amanhã. Porque Ele vive, temor não há. Mas eu bem sei, eu sei, que a minha vida está nas mãos de meu Jesus, que vivo está”.

Há outras músicas que marcaram a minha vida (e sei que a sua também) que não cabem nesse texto. Porém, se daqui alguns anos alguém me perguntar “qual música retrata o momento de isolamento social que você viveu em 2020”, já tenho a resposta na ponta da língua: “Me esqueci de viver”, de Julio Iglesias. 

S.O.S.

Estudo feito pela University College London (UCL), no Reino Unido, revelou que os idosos estão lidando melhor do que os jovens com o isolamento social. Outro relatório, da Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e Trabalho, mostrou que a geração jovem se sente mais afetada pelas restrições do que as outras faixas etárias. O historiador Leandro Karnal ressaltou em entrevista ao Estadão: “Classes média e alta enfrentam tédio, classes baixas enfrentam fome”.

Para especialistas, evitar aglomerações e reduzir a circulação de pessoas nas ruas é essencial para conter o vírus. Porém, não dá para fazer vistas grossas ao alerta dos psicólogos para o fato de o isolamento ser um importante fator de risco para aumentar a ansiedade e a depressão. Plagiando o velho ditado: “Se sair à rua o bicho pega, se ficar em casa o bicho come”.

Há uma história rolando pelas redes sociais que explica de forma bem-humorada o porquê a rotina de quarentena é mais fácil para pessoas com mais de 60 anos.

O Boeing 777 voa calmo e estável. De repente, é interrompido pela presença de um jato F/A-18 supersônico. O piloto do jato cumprimenta o do Boeing pelo rádio: “Entediante o voo?”. O piloto do Boeing rebate: “O que?”. O piloto do jato acelera, quebra a barreira do som, sobe vertiginosamente e, logo em seguida, dá um mergulho vertical. Reduz a velocidade, e aparece novamente ao lado do Boeing: “O que achou?”. O piloto do Boeing, responde: “Impressionante, mas agora olhe para mim”. O piloto do jato não tira os olhos do Boeing, mas nada acontece. O avião comercial continua a voar calmo e estável. Após alguns minutos, o piloto do Boeing pergunta: “E aí, o que achou?”. O piloto do jato fica confuso: “Mas o que você fez?”. O piloto do Boeing abre um sorriso e responde: “Levantei da poltrona, estiquei as pernas, fui ao toalete, tomei um café, comi um croissant e marquei um happy hour com a tripulação num hotel 5 estrelas pago pela empresa”.

Moral da história: Quando se é jovem, a adrenalina é melhor quando sentida ao extremo. Mas à medida que se envelhece, conforto, paz e sabedoria devem ser priorizados. Isso se chama “S.O.S.”, que em inglês é: slower, older, smarter. Traduzindo: mais lento, mais velho, mais inteligente. 

Só Fred explica!

O mundo está de olho nas notícias relacionadas ao coronavírus. Mas como são os bastidores do tratamento da covid-19? Fiz essa pergunta ao amigo Frederico Carvalhaes, de Vitória (ES), que após 16 dias hospitalizado (sendo oito em coma) teve alta sob aplausos dos funcionários e da esposa Ivana – que filmou emocionada sua saída do hospital.

Fred, como é chamado afetuosamente pelos amigos, explica: “Após saber que havia contraído o vírus, em nenhum momento me desesperei. Ainda que o foco de parte da imprensa seja o número de óbitos e não o de curados e em recuperação (que é bem maior), eu escolhi o olhar da vida e não o da morte”. E não fica um único olho seco quando fala sobre a importância da esposa no seu processo de recuperação: “A Ivana suportou o que eu não suportaria. Ela chorava sozinha para não transparecer a aflição”.

Na maioria das vezes, o paciente que vence uma doença grave sente que ganhou nova chance, não para consertar os anos passados, mas para acrescentar vida aos anos futuros. Sabendo disso, perguntei-lhe se algo mudou ao voltar para casa e saber que estava começando o primeiro dia do resto de sua vida. Fred explica: “Não tinha o costume de orar. E ali, naquele leito, pedia a Deus todos os dias uma nova chance para poder dar um filho a minha esposa. Muitas vezes, só lembramos de Deus nas horas difíceis. Quando tudo está em seu devido lugar, nos sentimos tão fortes que nos esquecemos de sua bondade. Além disso, passei a organizar meu tempo para cuidar mais de mim: frequentar a academia, fazer caminhadas e adotar uma alimentação mais saudável mesmo com a rotina corrida”.

Todavia, foi o vivenciar de uma experiência “fora do corpo” que o fez repensar sua espiritualidade. Fred explica: “Eu me vi fora do corpo durante o período que estive em coma, e via e ouvia tudo do alto, como se estivesse suspenso, o que me fez perceber que o ser humano é mais que seu corpo físico. E passeei pelo hospital e tentei me comunicar com as pessoas. Contei aos médicos que lembro dos oito dias que fiquei desacordado (que pareceram apenas minutos) da mesma maneira que lembro de um fato vivido, quando estava acordado e de olhos abertos”.
Como isso é possível? Plagiando uma afirmativa usada para situações que a razão não compreende: “Só Fred explica!”.

Nesta enxurrada de informações ouvi uma entrevista com especialistas falando da quantidade de sonhos que as pessoas relatam nas últimas semanas, a maioria pesadelos. A explicação indicava o volume de conteúdos absorvidos através dos mais variados canais d

O mundo está de olho nas notícias relacionadas ao coronavírus. Mas como são os bastidores do tratamento da covid-19? Fiz essa pergunta ao amigo Frederico Carvalhaes, de Vitória (ES), que após 16 dias hospitalizado (sendo oito em coma) teve alta sob aplausos dos funcionários e da esposa Ivana – que filmou emocionada sua saída do hospital.

Fred, como é chamado afetuosamente pelos amigos, explica: “Após saber que havia contraído o vírus, em nenhum momento me desesperei. Ainda que o foco de parte da imprensa seja o número de óbitos e não o de curados e em recuperação (que é bem maior), eu escolhi o olhar da vida e não o da morte”. E não fica um único olho seco quando fala sobre a importância da esposa no seu processo de recuperação: “A Ivana suportou o que eu não suportaria. Ela chorava sozinha para não transparecer a aflição”.

Na maioria das vezes, o paciente que vence uma doença grave sente que ganhou nova chance, não para consertar os anos passados, mas para acrescentar vida aos anos futuros. Sabendo disso, perguntei-lhe se algo mudou ao voltar para casa e saber que estava começando o primeiro dia do resto de sua vida. Fred explica: “Não tinha o costume de orar. E ali, naquele leito, pedia a Deus todos os dias uma nova chance para poder dar um filho a minha esposa. Muitas vezes, só lembramos de Deus nas horas difíceis. Quando tudo está em seu devido lugar, nos sentimos tão fortes que nos esquecemos de sua bondade. Além disso, passei a organizar meu tempo para cuidar mais de mim: frequentar a academia, fazer caminhadas e adotar uma alimentação mais saudável mesmo com a rotina corrida”.

Todavia, foi o vivenciar de uma experiência “fora do corpo” que o fez repensar sua espiritualidade. Fred explica: “Eu me vi fora do corpo durante o período que estive em coma, e via e ouvia tudo do alto, como se estivesse suspenso, o que me fez perceber que o ser humano é mais que seu corpo físico. E passeei pelo hospital e tentei me comunicar com as pessoas. Contei aos médicos que lembro dos oito dias que fiquei desacordado (que pareceram apenas minutos) da mesma maneira que lembro de um fato vivido, quando estava acordado e de olhos abertos”.
Como isso é possível? Plagiando uma afirmativa usada para situações que a razão não compreende: “Só Fred explica!”.

O administrador do grupo removeu Luciano

Luciano chegou em Cachoeira do Sul, vindo do Maranhão, se sentindo mal. Não tinha febre, porém, por ser obeso e hipertenso, fazia parte do grupo de risco. André Taborda, pastor da igreja onde ele congregava, o levou ao hospital. Em seguida, me buscou para participarmos de um programa de rádio. E, ao entrar no carro, senti cheiro de álcool em gel. André explicou: “Deixei o irmão no hospital e os sintomas são de coronavírus”. Senti um frio na barriga. Eu havia tocado na maçaneta da porta e estava no banco do carona, onde ele esteve sentado.

Na sexta, já em Caxias do Sul onde moro, acordei com dor de cabeça, diarreia, dores musculares e mal-estar. Liguei para a Central de Atendimento Coronavírus de Bento Gonçalves e obtive as devidas orientações. Segui à risca, e no domingo não senti mais nada.

O Luciano foi transferido para Canoas. E através de um grupo de WhatsApp ficávamos sabendo sobre seu estado de saúde. A mensagem do dia 27 nos deu esperança: “A médica falou que ele está se saindo muito bem. Diminuíram a sedação. Logo estará de volta”. Porém, a do dia 29 nos deixou apreensivos: “Ele pegou uma infecção hospitalar e seu estado ficou bastante grave”. E, no dia seguinte, o que li, não saiu mais da minha cabeça: “Luís removeu Luciano”.

Coloquei a mão no rosto, como quem não quer acreditar. Logo veio a confirmação: “Nosso amigo voltou à casa do pai celestial”.

Não houve velório e o enterro foi em Passo Fundo sem que os familiares pudessem se despedir. Restou ao filho, Luciano Júnior, escrever em sua página no Facebook: “Obrigado por ter sido meu pai e me amado. Vai doer aqui dentro pelo resto da vida, mas um dia nos encontraremos no céu. Lá não haverá doença, nem pranto, nem morte, e estaremos juntos por toda a eternidade”.

Apesar de não acreditar nos números de mortes, não há como negar que o vírus é maldito. Mas verdade seja dita: ele pode remover uma pessoa de um grupo de WhatsApp, mas nunca do coração dos familiares e amigos.

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