Demolição da Escola Ferroviária Tiradentes provoca debate sobre preservação de patrimônio histórico

Texto: professora Angela Silvestrin e psicóloga Stela Maris Lovatto Ter Sarkissoff

A demolição da Escola Ferroviária Tiradentes marca um momento de reflexão para o Município de Farroupilha. Mais que um prédio – atualmente em ruínas – a escola foi uma das primeiras instituições de ensino do município e um verdadeiro símbolo do compromisso com a educação em uma época em que o acesso ao conhecimento era um desafio para todos.

Foi construída em 1938, em substituição à primeira escola de São Luiz, desativada para que as crianças fossem estudar na comunidade vizinha – Nova Sardenha – sede do Terceiro Distrito.

Os ferroviários não gostaram de ver os filhos andarem tão longe e então compraram a escola antiga, desmancharam-na e, tábua por tábua, reconstruíram-na junto ao Núcleo de Conservação da Estrada de Ferro. Denominou-se Escola Ferroviária Tiradentes e era mantida pela Cooperativa de Empregados V.F.R.G.S.
A escola foi criada para os filhos dos turmeiros, mas atendia toda a comunidade.

Era uma escola primária. Duas turmas estudavam de manhã e duas à tarde. Na escolinha só tinha uma sala. Em certos anos, eram mais de 40 alunos.

Tudo que se aprendia na escola era útil para a vida!

Conta a professora Thereza Silvestrin Lovatto, falecida em 1999, que sua formação profissional se deu em Congressos Pedagógicos Anuais de Santa Maria.

O prédio resistiu ao tempo para transformar-se num símbolo de resiliência e do valor dado à educação por homens visionários. Eles sabiam que o conhecimento era uma ferramenta imprescindível para construir uma sociedade de pessoas dignas e capazes.

Crianças de todas as cores, com pés descalços, guarda-pós puídos, usados até o fim, passados de irmão para irmão, aprendiam no seu amado Livro de Primeiras Noções, tudo o que era importante para vida.

E a escola expandia sua ação para muito além.

Toda a família se beneficiava da sua existência.

Narra a professora Thereza Silvestrin Lovatto em seu livro, O cotidiano de uma vida: “Eram incontáveis as maneiras de um educador participar em uma comunidade: desde contas sobre herança entre os turmeiros, até escrever ou ler cartas que eles recebiam.”

“Para poder dar conselhos, era muito importante conhecer e ter intimidade com as famílias. Muitos pais analfabetos aprenderam a ler com os filhos. Uma mãe contou que todos os dias instigava os filhos a estudarem e ficava atenta observando as atividades deles. E que, no fim do ano, ela já podia ler a Bíblia.”

A escola foi desativada em 1968 depois de 29 anos de atuação.

O prédio da Escola Ferroviária Tiradentes é memória viva!

Ao longo de décadas, passaram por esta escola muitos alunos que ajudaram e seguem ajudando a construir a história, a economia, a cultura e a vida social de Farroupilha. Profissionais, lideranças e pessoas de relevância na comunidade deram seus primeiros passos educacionais nesta escola.

A demolição promove um debate necessário: A importância da educação e preservação do patrimônio histórico. Preservar não é apenas manter paredes em pé, mas reconhecer o valor simbólico e cultural que espaços representam para a identidade de um povo.

Com este propósito, foi formada uma equipe para liderar as ações que visam a promover o restauro e destinação deste espaço para fins culturais.

Já contamos com a colaboração da Silvestrin Frutas que se dispõe a ceder o terreno para que uma réplica da antiga escola seja construída em seu ambiente original, que envolve a casa da professora, os trilhos do trem, a gruta de Nossa Senhora de Lourdes – construída pelos alunos.

A construção da réplica, entretanto, dependerá de recursos financeiros que serão captados daqui para a frente.

A escola está sendo demolida porque avaliações feitas mostraram que não havia condições de restauro por se tratar de um prédio de madeira, infestado por cupins, correndo o risco de cair a qualquer momento.
Providenciou-se um acervo fotográfico, além da demolição estar sendo feita de forma muito criteriosa a fim de guardar todas as peças possíveis de serem reaproveitadas.

Professora Thereza Silvestrin Lovatto
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