Morre Guerino Pasquale, primeiro arquiteto da cidade

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Faleceu em Farroupilha, aos quase 95 anos, o arquiteto e urbanista Guerino Pasquale, profissional que contribuiu na formação urbana e social do Município. Primeiro arquiteto da cidade e integrante de uma das primeiras turmas de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), dedicou 49 anos de trabalho à prefeitura, onde ajudou a projetar o crescimento da cidade. Reconhecido pelo rigor técnico e pelo senso de responsabilidade pública, Pasquale participou do planejamento de ruas e loteamentos. Também foi responsável pela implantação do primeiro anel viário do Município.

Guerino Pasquale participou da fundação do Lions Clube de Farroupilha, colaborou na criação da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Farroupilha e incentivou o desenvolvimento industrial local, incluindo iniciativas ligadas à Tramontina, ainda em fase inicial. Antes da atuação marcante em Farroupilha, a trajetória pessoal do arquiteto começou a ser desenhada em 1959, em Porto Alegre, como relatado na reportagem abaixo. Nascia ali a família formada ao lado de dona Avanir, com quem teve os filhos Carlos, Carem e Ciro. Guerino Pasquale deixa um legado arquitetônico, urbanístico e comunitário ligado à formação da cidade.

Reportagem de 2013

A reportagem a seguir foi realizada em 2013. O Jornal O Farroupilha resgatou a história de Guerino e Avanir como forma de homenageá-lo.

Coração bate como aos 20 anos

Porto Alegre, 1959. O arquiteto recém-formado retornava de uma viagem à Europa. Na casa de parentes, mostrava as novidades do primeiro mundo trazidas na bagagem. A vizinha do outro lado da rua era convidada a participar. Foi assim que se conheceram Guerino e Avanir Pasquale. O pedido de casamento aconteceu rápido, pois naquele tempo manter um namoro à distância – já que ela estava em Porto Alegre e ele em Farroupilha – era complicado. O casamento foi filmado com o equipamento que Guerino trouxe da viagem. “Fui pega de surpresa e em pouco tempo estava casada e de mudança para Farroupilha”, conta dona Avanir muito elegante em seus 73 anos.

Instalados, seu Guerino foi trabalhar pela família enquanto dona Avanir cuidava da casa e dos três filhos: Carlos, Caren e Ciro. Ela queria montar um conservatório para ensinar piano, mas não se arrepende por ter se dedicado ao lar. Ele ajudou na construção da cidade, fez, inclusive, o primeiro anel viário de Farroupilha. Trabalhou na prefeitura por 49 anos e ao longo da vida conquistou a admiração de muitas pessoas, especialmente de sua esposa. “Ele foi meu primeiro namorado. Eu tinha apenas 19 anos quando me casei e precisei me adaptar à personalidade dele, mas com sabedoria fui moldando como eu queria. Tivemos uma vida muito boa juntos e ainda temos. Ele é a minha segurança”, afirma dona Avanir mostrando a sala repleta de objetos trazidos das viagens do casal pelo mundo.

“Já viajamos muito. Estivemos em lugares lindos! Nossa última grande viagem foi a Dubai. Agora apenas lugares próximos porque a idade já não nos permite longas distâncias”, conta a esposa de Guerino, de 82 anos, relembrando com graça momentos em que o esposo, fora do Brasil, foi o responsável por situações que ficarão marcadas para sempre, como a porta errada que adentrou em um dos aeroportos dos Estados Unidos, o que levou toda a polícia do local a correr para ele e ela a gritar “please, stop, he´s my husband (por favor, pare, ele é meu marido)”.

Questionada sobre as afinidades entre marido e mulher, dona Avanir ressalta as diferenças entre eles. “Sempre fui muito mais expansiva na demonstração de afeto. Ele sempre teve vergonha de beijar em público, mas hoje olha um casal se beijando e comenta: ‘ que bonito isso não, é?’. Apesar de sermos diferentes, sempre o respeitei muito. Nunca o repreendi no momento de uma discussão. Esperava e encontrava a ocasião ideal para falar e assim vivemos com muita compreensão estes 54 anos. A mulher precisa ser sábia porque ela é o esteio da casa’, ensina com propriedade.

Dona Avanir é umas destas pessoas com as quais podemos conversar um dia inteiro, sem nos cansarmos. As lembranças conjugais são contadas de forma envolvente, num português primoroso – resultado de quem lê muito e todos os dias. Não tem pudor em dizer que nunca planejou a vida que teve ao lado do marido Guerino e tampouco esconde o quanto é realizada por isso. A certa altura, seu Guerino aparece à sala – arrancado de seu breve sono vespertino – para a foto do casal. Em poucas palavras expressa o papel de dona Avanir para ele. “É a pessoa mais admirável que conheci em toda minha vida. Se não fosse por ela, eu não estaria mais aqui”.