O Farroupilha
CLAUDIA IEMBO
Racionalizando...

O ano não tem sido fácil para ninguém, em nenhum lugar do mundo, imagino. Chego a sentir saudade da rotina estabelecida antes do coronavírus, com a vida cheia de horários e de atividades. Tudo mudou.

O isolamento trouxe outras necessidades e descobertas, nem tão inéditas assim. Por exemplo, sempre soube que não tinha aptidão alguma para ensinar. Não me faço entender por uma criança de sete anos! Total falta de habilidade de minha parte. Já era assim na primeira filha. Só piorou.

Quer conversar sobre qualquer assunto? Estimulo, dentro de casa. Sempre rende. Mas na hora de fazer as tarefas escolares, toda minha desenvoltura desaparece. Santos professores! Ainda bem que hoje conto com o auxílio de uma adolescente com mais traquejo para este tipo de resultado.

É um desafio equilibrar o trabalho, que há muito já era realizado em ambiente doméstico, com crianças dentro de casa e a sempre constante falta de silêncio. Música, TV com volume alto, questionamentos, solicitações daquelas que se iniciam com o sonoro “Manheeee”... tudo competindo com a concentração necessária para transformar pensamentos em escrita!

Somam-se a isso, acontecimentos que escapam do nosso controle e nos proporcionam vivências intensas, capazes de mudarem princípios e objetivos. A doença tem esse poder. Mas a graça aparece e traz com ela uma nova etapa.

Tantos sentimentos deram as caras neste intenso 2020! Difícil até racionalizar. Ainda vivemos a agressividade da pandemia, as restrições nascidas dela e tudo que resulta destes novos tempos. Será que voltaremos ao normal? Que normal será este depois deste “bendito” coronavírus?

Tudo toma uma proporção tão pequena diante do cansaço, constatado pessoalmente, dos profissionais de saúde neste enfrentamento desigual pelo qual passa nosso planeta. Ainda assim, entendo que cada um de nós está envolvido no cenário a que pertence. Cada um com seu talento, com suas armas. Mas quando algo como uma pandemia nos coloca em um único patamar, nos tornando susceptíveis no mesmo grau, tudo se mistura. Eu quase estou na sua pele e você, na minha.

Estamos todos no mesmo mar aberto.

Saldo

A chuva voltou com força, inundando a terra sedenta. Veio com tanta voracidade que acabou por fazer estragos. 

Há poucos dias estávamos preocupados com a estiagem, agora contabilizamos os resultados do excesso. Não vamos reclamar. A reclamação é algo que precisa ser dosado. Na medida certa. Não é hora disso.

Depois de 37 longos dias, quase intermináveis, o sol voltou a bater em minha janela, aquecendo meus ânimos, devolvendo-me a paz. A cura se fez presente, terminado uma fase e iniciando outra.

Na semana passada agradeci aos profissionais de saúde, nesta semana me despedi com um abraço apertado naqueles que encontrei dentro do Hospital Beneficente São Carlos.

Um dia na seca, outro lavando a alma na abundância do que vem do céu.

A vida vai ensinando suas lições e a cada um de nós elas se apresentam de formas diferentes, com vestimentas particulares. Para mim, chegaram com cores escuras, despertando um medo profundo, mas o olhar aguçado, firmado na fé em um Deus que nos sustenta, e a confiança na competência médica fizeram tudo clarear.

Absorvi dos profissionais intensivistas a importância de vencer os desafios que o dia apresenta. Jamais conseguiria fazer o que eles fazem. Tiro o meu chapéu. 

Enquanto uns lutam, enfrentando este vírus terrível, outros vivem como se não existissem riscos ou fatalidades. Enquanto famílias humildes experimentam o desespero pela demora no recebimento do auxílio emergencial do governo, outros – mesmo com recursos que banquem um casamento em uma praia paradisíaca qualquer - estão como nome inscrito no programa, tirando de quem realmente precisa. 

Alguém arrisca um palpite sobre o nome do país que mais combina com corrupção?  Pecadinho ou pecadão não têm diferença, como diz um amigo.

De um lado, dedicação extrema de profissionais cansados, lutando pela vida alheia. Do outro, gente que não pensa em ninguém além de si mesmo. A cada um, o saldo desta pandemia. 

A César o que é de César... e a Deus o que é de Deus”.

Mais que sentimentos

Se você acompanha esta coluna, percebeu que temos publicado textos que não são inéditos. Isso porque às vezes somos atingidos por fatalidades que minam nossa capacidade de criação. Acontece. Deus sabe o porquê.

Desde o começo desta pandemia, acompanho o apoio dirigido aos profissionais de saúde, linha de frente deste combate, no qual tudo possível é feito para salvar vidas. A gente acompanha à distância. De perto, presenciando a atuação deles, brotou em mim a admiração extrema.

Convivendo com eles, ao ponto de lembrar seus nomes, sempre pergunto se eles não têm medo de lidar com a doença alheia. A resposta tem sido a mesma: não. Nasceram para isso, para serem corajosos, doando seus conhecimentos em benefício de pacientes que nunca viram - e talvez nunca mais vejam. Não importa. Cada um que enfrenta uma batalha na saúde leva um pouco de cada profissional que cuidou dele.

E assim, nós vamos vivenciando tantos conceitos, antes assimilados apenas na teoria. 

Certa vez escrevi que o coronavírus não ia mudar as pessoas, como pregavam. Todos iam continuar como sempre foram. Eu estava errada. O infortúnio tem um poder incrível de operar milagres! Tenho presenciado alguns. Eu, que sempre travei uma guerra íntima entre o racional e o emocional, descobri que fé não é baseada em fatos. Ela precisa ser vivenciada, ainda que a vida mostre suas gravidades. A velha história de aprender pela dor, mestre ferrenha. 
No comando de tudo, um Deus que mostra seu amor por caminhos que, um dia, talvez entendamos. 

Você pode pensar o que quiser, discordar de mim e ainda assim, vou te respeitar porque o aprendizado é individual. Só você sabe onde deposita sua esperança e como lida com isso.

Neste último mês descobri ainda mais o poder de uma oração e o quanto é essencial ter em nossas vidas pessoas que falam com Deus ao nosso respeito, intercedendo por nós, como faz quem, de verdade, se preocupa com o próximo.

Aos profissionais de saúde que estão no meu caminho hoje e a todos que oram por mim e pela minha família, minha sincera gratidão.

Gratidão também à companhia de um ser especial nesta jornada: minha Samira. Este dia é seu e nada é capaz de tirar a alegria pela sua chegada ao mundo. O amor sempre será o mais poderoso dos sentimentos.

Mar revolto

No dia em que escrevo esta coluna há uma neblina densa lá fora. A paisagem branca impede a visão nítida, aumentando a sensação de incertezas. Existem períodos na vida da gente assim: invadidos por algo que não nos deixa enxergar os caminhos, as respostas.

Como pessoa de fé que escolhi ser, sei que o sol vai voltar, dissipando o que tiver que ser dissipado. Até lá, oração, serenidade, confiança. 
Dizem que mar calmo não faz bom marinheiro e cada um de nós vai enfrentar suas ondas, tempestades, neblina.

Diante disso tudo e com a chegada do romantismo do Dia dos Namorados, arrisco uma sugestão: se você estiver com a pessoa que ama ao lado, valorize sua companhia, o simples fato de estar com você já é motivo de celebração. Estas simplicidades ganham um peso enorme diante das impossibilidades que podem nos visitar – e acharem que são as donas da casa e ficarem para dormir, um dia, outro, demonstrando a falsa ideia de que nunca mais irão embora.

Todo dia é especial se tivermos por perto aqueles que amamos. Uma diferença ou outra, um desentendimento ou outro, a idealização diferente do que a realidade nos mostra... tudo muito pequeno.

Quando a fatalidade toca nossas vidas, muda nossas lentes, muda nossas aspirações. Infelizmente assimilamos toda a teoria sangrando, com dores que nos rasgam a pele e alcançam nossas entranhas. Será que vamos aguentar? A dor, a ausência, a incerteza?

Atravesso um dos momentos mais difíceis de minha vida, me agarrando à força de minhas crenças, à fonte de todo amor que existe. Na Terra e acima dela.
Só por agora não terei a mão forte a segurar a minha ou o abraço grande a calar minhas dúvidas ou as palavras que sempre me fizeram olhar mais para dentro de mim mesma. Só por agora. Logo, logo a neblina vai embora e o sol voltará a brilhar. 

Acima das angústias há um Deus que não erra em seus planos.

Bendita paisagem

Poderia ser um quadro, pintado por um artista talentoso, amante da natureza e com uma sensibilidade aguçada para captar toda poesia da paisagem. 
Vários tons de verde compondo o espaço com o azul do céu. Cada um em sua posição, em um casamento perfeito, repleto de respeito pelo espaço um do outro. Não é notada a invasão, quase sempre nascida do sentimento de posse. A convivência das cores é harmoniosa, em equilíbrio.

Lá longe, no horizonte onde o vento deve assobiar, despontam algumas árvores, estrelas desta fantástica obra-prima. Elas são imãs para o meu olhar, sempre. São algumas, não é possível contar à distância, mas nem é necessário porque não faria diferença a informação. Faria a diferença se elas, as árvores, não estivessem ali.

Todas as outras da vegetação, que formam os montes que existem no caminho até chegar às protagonistas deste quadro natural, parecem reconhecer que elas são especiais, pois visualmente ficam abaixo, como se estivessem curvadas diante de tamanha beleza!

Dizem que existem refúgios mentais, lugares para onde corremos quando precisamos de paz, de momentos a sós com a gente mesmo. Eu tenho alguns. Um deles é esta paisagem. Certamente o mais forte de todos.

Naquele ponto no horizonte, eu encontro Deus. Todos os dias, especialmente pelas manhãs, quando me conecto com Ele.
Para mim, basta entrar em minha cozinha e atravessar o olhar pelas janelas do apartamento, que servem de moldura para o quadro, real e particularmente meu.

Quando a realidade endurece, o que acontece na vida de qualquer um de nós, vez ou outra, fecho meus olhos e imagino-me sentada de frente para estas árvores, admirando toda a imponência que lhes pertence, sentindo o vento no rosto a baixar a temperatura, elevada pelo sangue quente, quase sempre quente demais. 

Naquele ponto imaginário, algum mecanismo é acionado, de alguma forma. Aprendi que é bom termos um canto de oração, um lugar onde possamos estabelecer um contato com aquilo que acreditamos. O meu, é nesta paisagem, que na verdade foi criada pelo maior dos artistas. É lá que o busco, além de mim.

Bendita paisagem a emoldurar minha existência nesta terra que é minha de coração.

Este texto foi publicado originalmente em novembro de 2016

Esperança

Já ouviu dizer que se está ruim, ainda pode piorar? Sempre classifiquei a ideia como discurso de pessimistas, mas não é que faz algum sentido! Infelizmente ando sentindo na pele a veracidade do argumento.

Algo que não tem a resposta esperada acaba dando as mãos para as peças do carro que resolvem findar suas missões, atrasando-me para compromissos importantes. Acrescente diversos contratempos domésticos às pitadas de frustração por elevadas expectativas e pronto: está feita a receita que vai gerar indigestão.

Como reagir? Não sei. Tento resolver, sem reclamar muito, mas confesso que me cansa. Visito rapidamente meus refúgios mentais em busca de serenidade – serenidade e não superpoderes – e volto sem grandes repostas. Melhor agir, o relógio não para.

Ainda bem que no caminho existem pessoas dispostas ao auxílio. Se não podem fazer por nós, às vezes podem nos indicar por onde seguir. A quantidade destas pessoas nem chega a preencher os dedos de uma mão, mas tudo bem! Uma eficaz vale por dez.

Sempre haverá desafios para cada um de nós, trilhas de aperfeiçoamento que escolhemos, de alguma forma. 

Amanhã temos ao nosso dispor outro recomeço e com ele mais tranquilidade para enxergar as situações sob outros ângulos. Caso não consigamos respostas, ainda assim haverá outras possibilidades. O nevoeiro sempre se dissipa, ainda que leve um tempo maior.

Nem sei se isso é otimismo. Gosto de pensar que é esperança. Sem ela tudo que está ruim pode realmente piorar. 

A minha esperança vem disfarçada com olhos azuis e cabelos lisos e também com olhos castanhos e cabelos cacheados. São estas meninas vestidas de esperança que me ensinam quase tudo aquilo que preciso aprender.

Desta forma sigo tentando não sentir muito os efeitos dos argumentos pessimistas. Já é uma reação. “Melhor é o fim das coisas do que o princípio delas”.

Este texto foi publicado originalmente em março de 2017

Poder de escolha

A cada semana tenho uma página em branco para escrever o que eu quiser. Uma oportunidade incrível e também um tremendo desafio! Não é assim a cada amanhecer? Oportunidade e desafio. O que faremos é escolha nossa.

Comecei o texto por este caminho, fixa na ideia de comentar sobre os últimos acontecimentos na nossa cidade e no nosso país.

Por aqui primeiro. Só conheci um prefeito de Farroupilha, morando na cidade. Cheguei quando Claiton Gonçalves foi eleito pela primeira vez e trabalhando no jornal, tive diversas oportunidades de conversar com ele, que sempre me recebeu muito bem. Acompanhei os altos e baixos da gestão e por fim sua cassação. Agora vou acompanhar o trabalho do Pedrozo e no ano que vem de quem for eleito. É assim: a gente fica de olho e dependendo da necessidade – ou ocasião – chega mais perto para cumprir o trabalho. Não cabe expressar opiniões.

De qualquer forma, a vida segue seu curso e as pessoas vão marcando a história. As suas próprias e a do lugar em que estão.

Como eu disse há algumas semanas, cansei deste estigma de esquerda, direita. Se comentamos algo contra qualquer ação do governo federal – ou notamos o mau uso das palavras em boca de quem deveria saber como usá-las, somos de esquerda; o contrário, de direita. “Quem é de direita, toma Cloroquina, quem é de esquerda, toma Tubaína”.

Palavras sem sabedoria são carregadas ao vento, o mesmo vento que sopra para secar as lágrimas de quem perde pessoas amadas. Há muitas lágrimas para secar. Melhor calar.

Há pouco tempo soube que uma amiga querida faleceu no Rio de Janeiro, não resistindo à Covid-19. Na última terça-feira, 19 de maio, o Brasil registrou 1.179 óbitos em 24 horas! São números, para algumas pessoas. Para outros são amigos, pai, mãe, irmão, conhecido. 

Entristeço-me à beira do inconformismo ao mesmo tempo que enxergo a necessidade de trabalhar. Ponto. 

Em meio ao caos, há “notícias boas” sobre a doença, que parece estar controlada em nossa cidade, ainda que o número de casos aumente gradativamente. Outra: nos meses de enfrentamento da doença, nenhum profissional do único hospital que temos na cidade, o Hospital Beneficente São Carlos, se infectou! Que maravilha, sabendo que muitos profissionais da saúde estão morrendo mundo afora. Que continue assim.

Um dia, sabe Deus quando, este capítulo escrito com tanto sofrimento terá ficado para trás, ainda que a vida se apresente muito mais difícil que antes. Tomara que ainda tenhamos nosso poder de escolha. 

Palavras, parte 2

No dia 16 de maio de 2016 foi publicada minha primeira crônica no Jornal O Farroupilha. Aniversário de quatro anos neste espaço, dividindo com você um pouco da forma como enxergo o mundo.

Muitas vezes as palavras contaram o meu cotidiano, recheado de fatos nos quais as protagonistas são minhas filhas – tema que sempre rende para mim. Outras palavras mostraram a atenção às notícias marcantes, expressando a concordância ou a indignação embutida em cada assunto. Embora o espaço seja de crônica, também já me arrisquei em contos, carregados de elementos distantes do dia a dia. Mas em todos eles, nunca deixei de passar a mensagem que eu queria passar.

Ganhei leitores. Muitos. Pessoas que me param nas ruas para um comentário ou outro. Mensagens enviadas em redes sociais, em aplicativos. Gente que se identifica com o estilo de texto, com as ideias, comigo.

Das crônicas nasceram outros convites e o horizonte se ampliou, acenando diversas possibilidades. Nada é por acaso. Conheci jovens interessados e interessantes, fiz muitas amizades. Tudo proporcionado pelo gênero de texto que tanto gosto.

Se existe uma palavra que resume estes quatro anos, ela é: GRATIDÃO. Agradeço a todos vocês, leitores assíduos e outros esporádicos.

Dizem que o número 4 é perfeito. Perfeito mesmo é ter a liberdade de traduzir a vida em palavras. Exatamente o assunto da primeira crônica aqui.

Palavras (texto de 16/5/2016).

Quando eu soube que teria mais um espaço para me expressar neste veículo, logo apareceu a preocupação: escrever sobre o quê? Fui questionada e a resposta foi “vida”. Genérica, que me possibilita inúmeros temas, nos quais posso abusar do que amo, as palavras.

Tudo na vida pode ser traduzido em palavras. Tem aquela história de que uma imagem fala mais que mil palavras... Verdade. Mas elas são necessárias. Elas falam tanto, que até quando faltam podem ser interpretadas.

Saber usá-las é uma arte. De forma verbal, escrita, corporal, tanto faz. Elas têm poder para tudo. Unem, afastam, destroem, conquistam, seduzem.

Às vezes, a solução está nelas. Marisa Monte, por exemplo, mostrou isso com muita criatividade na música “Diariamente”. “Para saber a resposta: vide o verso”.

Palavras são quase tudo. Acompanhadas por gestos ganham ainda mais força!  Não vivo sem elas, ainda que as receba de forma escassa, vez ou outra. Uma palavra, dependendo da situação, basta. Ter palavra é fundamental.
Procuro ter palavra em todas que ecoam em mim. Desejo que algumas delas encontrem solo fértil em você e germinem, de alguma forma. Que não sejam apenas palavras ao vento. Palavra de honra.

Na contramão

Difícil a gente atravessar o deserto sem expor os sentimentos que a realidade nos traz. Nem sempre há assuntos tranquilos a serem trabalhados ou aquela energia repleta, que pede o enfrentamento da pandemia que vivemos. A escuridão faz parte da luz.

Ando meio saturada das mensagens positivas, dos vídeos do Whatsapp, que tentam nos convencer de que estes tempos difíceis servirão para mudar o ser humano, amenizando as desigualdades – porque o vírus não escolhe classe social, raça, gênero ou seja lá que for... Não vejo indício no dia a dia.

O que constato nas pessoas é medo. De adoecer, de não receber os cuidados, de não conseguir manter o emprego, ou de alcançar um, de não ter dinheiro para pagar as contas, de morrer. Mas antes da morte, a incerteza. Essa sim, palavra dominante.

Ninguém sabe qual mundo teremos depois e neste panorama todo, discussões políticas que continuam disseminando o ódio e tantas outras ameaças reais paralelas como a escassez de água em nosso Estado.

 Eu, que já reclamei um dia que por aqui chovia demais, agora olho para o céu e peço água. No sentido literal e figurado. 

Estou pedindo água para esta visão romântica trazida pelos discursos carregados de poesia, que querem explicar o porquê de a Terra ter sido acometida por esse vírus. A verdade não usa roupas e não é quentinha como um reconfortante prato de sopa. 

Peço desculpas às pessoas que realmente estão fazendo a diferença na vida dos outros. A elas, minha total admiração.

Este é sentimento que tenho agora, fazendo aquilo que julgo correto, como distanciar-me, evitar sair, proteger minha família, mas enquanto faço isso noto que muitos ao meu redor agem como se nada estivesse acontecendo. O ser humano vai ficar melhor? Será?

Assumo todas as minhas dúvidas e confesso que estou sem receio de andar na contramão. É o que experimento nestes tempos peculiares, que nos obrigam a passar o Dia das Mães longe das nossas. Eu, por amor a ela, manterei a distância.

Natureza

Sempre exaltei o quanto considero privilégio estar cercado de verde! Para quem saiu de uma cidade cinza, ganhar novas cores é valoroso.  Não me acostumei à beleza que emoldura minha existência e espero não me acostumar porque desta forma estarei sempre admirando-a.

A natureza traz para perto de mim seus encantos. Perto mesmo. Uma vez entrou um passarinho descuidado na sacada envidraçada. Não sei quem teve mais medo, ele ou eu! Vira e mexe aparecem surpresas desse tipo por aqui.

Se tem um lugar no qual estaciono muito dentro de casa com certeza é a pia da cozinha, o pit stop de qualquer dona de casa. A minha fica embaixo de uma janela. Dia desses estava eu lá tentando dar cabo da louça que começava a crescer – sim porque quaisquer dois copos parados ali já me atraem para o lugar, feito imã... impressionante! – quando meus olhos encontraram o ser da foto. 

Meu cérebro prontamente reconheceu a folha. No instante seguinte, a real identificação de uma borboleta, ou seja lá que nome tenha um inseto parecido com ela. Fiquei olhando para ela e ela para mim, imaginei. Ela, mestre na camuflagem para enganar seres desapercebidos; eu, ser confuso que busca enxergar além do que vê. Cada um segundo sua natureza.

Corri tirar o sabão das mãos e enxugá-las para pegar o telefone a fim de deixar a borboleta retida para sempre, na imagem, como deve ser. 
Borboleta, não folha.

É preciso prestar atenção ao que está a nossa volta, olhar atentamente para não sermos enganados. Cada um segundo sua natureza.

Predadores existem. Ela ainda tem a vantagem da camuflagem - o que boa parte da nossa espécie acabou adquirindo para sobreviver ao meio – mas nós estamos expostos como somos, experimentando perigos mais reais que os naturais. Tenho esta certeza quando ligo a TV e vejo um homem pedindo socorro por estar com a geladeira vazia.

A borboleta voou. Eu, chorei. Cada um segundo sua natureza.

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