O Farroupilha
GILBERTO JASPER
Celular, crime e fator humano

O furto e roubo de celulares é um dos principais crimes do chamado “pequeno potencial ofensivo”, ou seja, aqueles oferece menos risco às pessoas. Moro em Porto Alegre, mas converso diariamente com amigos do interior e noto que alguns hábitos se repetem em todas as cidades, independentemente do porte.
Um dos perigos consiste em falar ao telefone enquanto se caminha pela calçada. Parece fácil mudar este vício, mas o aparelhinho está tão incorporado à rotina que parece constituir uma extensão do nosso corpo. Daí, a dificuldade em resistir ao chamado da campainha, mesmo ao atravessar a rua.
Ao volante o celular é ainda mais nefasto. Proliferam estudos referentes à distração que o uso provoca no motorista e, por consequência, acarreta acidente de maior ou menor gravidade. O furto do telefone também é bastante facilitado pelo próprio usuário. Um exemplo? Almoço diariamente em restaurantes, notadamente os bufês, que há muito deixaram de ser baratos.
Surpreende a quantidade de mulheres que deixam bolsas e celulares sobre a mesa enquanto se servem de comida e sobremesa. Há muitos anos sabe-se que existem casais especializados em furtos de todo tipo dentro de restaurantes, bares e cafeterias. Geralmente um deles distrai a vítima enquanto o comparsa faz a limpa nos objetos e sai de fininho.
O fenômeno dos furtos - e também a frequência de acidentes domésticos com o aparelhinho – turbinou o mercado de seguros. As operadoras, sempre ágeis em cobrar, mas “desorganizadas” para explicar cobranças abusiva, equivocadas ou injustas – e fazer estornos, aproveitam o pavor do consumidor para empurrar mais um produto que onera o bolso do usuário.
Comprei o primeiro celular em 1994, quando minha mulher estava grávida. Conseguir um telefone fixo na época, além de caro, era uma tarefa de gincana. Previdente diante da primeira gravidez, ela exigiu que comprássemos um aparelho. Isso exigiu que eu ficasse quatro horas na fila da extinta CRT – Companhia Riograndense de Telecomunicações – sob sol escaldante. À época, o proprietário de celular pagava ao receber uma ligação, acreditem. 
Os aparelhos eram enormes, pesados, apelidados de tijolão. Levava-se um dia inteiro para carregar a bateria que “viciava” (a carga era reduzida) ao interromper o carregamento. A evolução da tecnologia, a massificação do uso e multiplicidade de facilidades oferecidas pelos celulares provocou uma revolução, inclusive no relacionamento entre as pessoas, notadamente entre as famílias.
O furto é resultado da procura de aparelhos mais baratos. Ou seja, alguém – sempre! – está interessado no resultado do crime. Seja para levar vantagem - pagando menos por modelos modernos -, seja para usar como moeda de troca na aquisição de drogas. O fator humano é sempre vital no crime.

Sinceridade demais prejudica?

Há poucos dias mandei para alguns amigos e amigas, pais de filhos pequenos, um vídeo que recebi no whatsapp. O filme mostrava um piá de uns quatro anos interagindo com a “dinda” que repetia que gostaria que ele ficasse sempre pequeno. A insistência gerou irritação do guri que, a certa altura, desabafa:

- Eu quero crescer porque for grande quero tomar cerveja!

Um das minhas amigas, conhecida pela sinceridade, mandou uma mensagem de volta.

- Preciso treinar meu filho a não ser como eu... super-sincera em todas as ocasiões – afirmou.

Mais adiante, disse que ao encontrar-se com os novos vizinhos do prédio, o gurizote a fez passar vergonha.

- Encontramos a família novata no condomínio que se apresentou à mãe e filho que, num rasgo de franqueza, disse. “Então são vocês que fazem tanto barulho todo o tempo?”

Já escrevi várias vezes neste espaço sobre os desafios de criar filhos nesta época maluca de revolução de costumes. E de conectividade ininterrupta e em que se pode falar mal de todo mundo nas redes sociais, com o único ônus de provar depois as barbaridades ditas. Com filhos adultos fico arrepiado só de imaginar o tamanho da encrenca que isso representa.

Como ensinar à criança que é preciso, sim, falar a verdade? Mas que não se pode contar à tia solteirona que ela é uma chata, infeliz e gorda? É uma encruzilhada detalhar que hipocrisia é feio, mas permite a convivência entre seres humanos. 

Neste viés de educação, cresce de importância o trabalho desenvolvido pelos professores, muitas vezes obrigados a lidar com salas lotadas de crianças e adolescentes que desconhecem limites e têm todas as vontades satisfeitas. Como agravante eles não dispõem de ferramentas de coação que os pais e responsáveis possuem para educar a gurizada.

São tantas as nuances que sempre lembra da minha mãe, quando ela se referia à árdua tarefa de ter e criar filhhos:

- No Brasil a gente precisa fazer curso para tudo: dirigir, ser padrinho de casamento e batizado, recuperar a carteira de motorista... só pra ter filho não precisa nada disso.Só precisa vontade! – dizia a dona Gerti, coberta de razão.

Esta minha amiga, cujo filho cometeu o que modernamente se chama de “sincericídio” ao falar dos vizinhos barulhentos, deve passar noites em claro na busca do meio termo entre o mundo real e o mundo ideal. O equilíbrio, como sempre, é o melhor conselheiro. Excesso, inclusive no quesito sinceridade, só prejudica.

A rádio poste me salvou

Não lembro que idade eu tinha – cinco ou seis anos -, mas a experiência foi traumática, inesquecível. Com a minha irmã, dois anos mais velha, me perdi na praia ao sair do mar. Era uma manhã de domingo de areia lotada e muito calor em Tramandaí que, naquela época – década de 60 – era o xodó dos gaúchos durante o veraneio, a Capital das Praias.

Saímos da água e por algum motivo nossos pais não estavam nos esperando, o que era praxe. Diante da ausência, o desespero tomou conta de nós que tínhamos vindo da colônia – Arroio do Meio tinha 3 ou 4 mil habitantes - para curtir o verão. Aos prantos, saímos a caminhar feito baratas tontas em busca de algum rosto conhecido para nos socorrer, sem sucesso.

Caminhamos em círculos, de mãos dadas, por muito tempo, sob um sol escaldante. Não sabíamos o que era maior: o medo ou a sede causada. Cansados, sem qualquer esperança de encontrar a família, ficamos paralisados à beira do mar. Só havia forças para chorar.

De repente, não sei de onde, surgiu um senhor grisalho, de boné, com 70 e poucos anos. Ele se agachou e começou a conversar.

- O que aconteceu com vocês? Estão perdidos? – indagou com voz mansa depois de oferecer um refrigerante gelado que foi sorvido num só gole.

Entre soluços fiz um relato do nosso drama, seguido de diversas perguntas feitas por ele.

- Vocês tinham guarda-sol? Que cor era? Tinha um bar por perto? Vocês estão numa casa ou apartamento? – entre outras indagações.

A partir de algumas informações ele nos levou para as proximidades do antigo Restaurante Panorâmico, ponto de atração pela arquitetura arredondada, uma novidade naquela época.

Nosso protetor foi conversar com outro homem, também de idade avançada, chapéu de palha. Poucos minutos depois, ouvimos nossos nomes reverberando na “rádio poste”.

Era sistema de som muito simples, comandado pelo lendário Dario Krás Borges. Consistia numa casinha de madeira com mesa, toca-discos e um microfone. Os alto-falantes, fixados em postes ao longo da praia, irradiavam o som.

Em menos de 15 minutos meu pai surgiu no meio da multidão, seguido pela minha mãe. Ambos com os olhos inchados do choro, juntamente com meus avós. Os rostos familiares devolveram a tranquilidade do veraneio, não sem antes recebermos uma advertência pela distração à beira mar. A “rádio poste do seu Dario” – como entrou para a história de Tramandaí– salvara mais uma dupla de crianças perdidas. Por décadas, o bronzeado dos gaúchos teve a trilha sonora dos sucessos que rodaram num surrado toca-discos velho. Com músicas mescladas por oferta de fotógrafos amadores, de aluguel de casas e quartos e até anúncios de dentaduras encontradas na areia. Além, é claro de crianças distraídas perdidas ao longo da praia...

Crônica foi publicado em 06 de fevereiro de 2015 no blog http://gilbertojasper.blogspot.com/   

Um Estado à deriva das vaidades

Não só pelo calor, mas o momento político do Rio Grande do Sul promete subir a temperatura nos próximos dias. Outra vez os deputados estaduais analisarão a tentativa de tirar o Estado do atoleiro financeiro em que se meteu ao longo de décadas. Por muito tempo fomos iludidos por soluções de curto prazo, vendidas ao grande público como milagrosas. Sob muita publicidade e rico material de marketing fomos levados à ilusão de salvação.
Todos os partidos se revezaram no Palácio Piratini e o caos se instalou. Ofensas de campanha do atual Governador comprovam ausência de espírito público. Impulsividade verbal é admissível para quem governa os destinos de um Estado falido, cansado de salvadores e viciado em não reeleger apenas para manter a escrita.
A incontinência verbal do atual inquilino do Piratini se mescla à instabilidade, indecisão. Desde o início de dezembro se lê e ouve que haverá convocação extraordinária para analisar o “pacote”, o conjunto de projetos de lei que mexe com todo o funcionalismo.
Parlamentares são convocados diariamente para reuniões e encontros com “líderes dos partidos da base aliada”. Nestes encontro as projeções são catastróficas no caso de não aprovação, mas já se ouviu tantas vezes esta profecia que poucos acreditam. Os jornais alternam manchetes noticiando sessões extraordinárias e que, no dia seguinte, são desmentidas.
Tento imaginar o ânimo de políticos experientes que colocaram seu currículo a serviço da atual administração do Governo do Estado. Otomar Vivian e Frederico Antunes, ambos do PP, têm trajetórias longevas na atividade pública em diversas administrações. Vivian, que foi prefeito de Caçapava do Sul e presidente do IPE, entre outros cargos de relevância, sequer foi avisado – por exemplo - da malograda estratégia envolvendo o IPVA. Colegas do Piratini garantem que ele foi visto recolhendo suas tralhas para abandonar o barco. Responsável, mudou de ideia.
A situação do RS é tão grave que mereceria a união irrestrita de todas as suas lideranças, políticas, empresariais e de todos os segmentos. Nossa tradição, no entanto, impede a convergência para salvar o Estado. A “peleia”, termo atávico que serviu para defender nossas fronteiras e demarcar nosso território, hoje impede qualquer tentativa de pacto sincero. Interesses pessoais e projetos políticos inviabilizam um esforço concreto para salvar o que já foi modelo à toda terra.
Pelo jeito não será desta vez que as picuinhas do passado serão banidas para salvar a Província de São Pedro. A verborragia eleitoral do Governador e a falta de espírito público das principais lideranças estaduais será a pá de cal no Rio Grande. Quem viver, verá.

Um Estado à deriva das vaidades

Não só pelo calor, mas o momento político do Rio Grande do Sul promete subir a temperatura nos próximos dias. Outra vez os deputados estaduais analisarão a tentativa de tirar o Estado do atoleiro financeiro em que se meteu ao longo de décadas. Por muito tempo fomos iludidos por soluções de curto prazo, vendidas ao grande público como milagrosas. Sob muita publicidade e rico material de marketing fomos levados à ilusão de salvação.
Todos os partidos se revezaram no Palácio Piratini e o caos se instalou. Ofensas de campanha do atual Governador comprovam ausência de espírito público. Impulsividade verbal é admissível para quem governa os destinos de um Estado falido, cansado de salvadores e viciado em não reeleger apenas para manter a escrita.
A incontinência verbal do atual inquilino do Piratini se mescla à instabilidade, indecisão. Desde o início de dezembro se lê e ouve que haverá convocação extraordinária para analisar o “pacote”, o conjunto de projetos de lei que mexe com todo o funcionalismo.
Parlamentares são convocados diariamente para reuniões e encontros com “líderes dos partidos da base aliada”. Nestes encontro as projeções são catastróficas no caso de não aprovação, mas já se ouviu tantas vezes esta profecia que poucos acreditam. Os jornais alternam manchetes noticiando sessões extraordinárias e que, no dia seguinte, são desmentidas.
Tento imaginar o ânimo de políticos experientes que colocaram seu currículo a serviço da atual administração do Governo do Estado. Otomar Vivian e Frederico Antunes, ambos do PP, têm trajetórias longevas na atividade pública em diversas administrações. Vivian, que foi prefeito de Caçapava do Sul e presidente do IPE, entre outros cargos de relevância, sequer foi avisado – por exemplo - da malograda estratégia envolvendo o IPVA. Colegas do Piratini garantem que ele foi visto recolhendo suas tralhas para abandonar o barco. Responsável, mudou de ideia.
A situação do RS é tão grave que mereceria a união irrestrita de todas as suas lideranças, políticas, empresariais e de todos os segmentos. Nossa tradição, no entanto, impede a convergência para salvar o Estado. A “peleia”, termo atávico que serviu para defender nossas fronteiras e demarcar nosso território, hoje impede qualquer tentativa de pacto sincero. Interesses pessoais e projetos políticos inviabilizam um esforço concreto para salvar o que já foi modelo à toda terra.
Pelo jeito não será desta vez que as picuinhas do passado serão banidas para salvar a Província de São Pedro. A verborragia eleitoral do Governador e a falta de espírito público das principais lideranças estaduais será a pá de cal no Rio Grande. Quem viver, verá.

Desejos não são direitos

A frase do título desta coluna, repetida à exaustão em vídeos e palestras ministradas pelo filósofo Mario Sérgio Cortella, resume um comportamento onipresente. Na sala de aula, em família, na fila do supermercado e até no trânsito. Em todos os lugares a cultura do egoísmo se consolidou quase que paralelamente à velocidade do desenvolvimento tecnológico que oferece inúmeras comodidades. Mas ao mesmo tempo reduz o contato interpessoal.

Já escrevi várias vezes que considero injusto comparar determinados comportamentos “do meu tempo” com a postura dos dias atuais. Alguns princípios, no entanto, são imutáveis porque independem de modismos. O respeito à hierarquia e às normas de convivência e a capacidade de adaptação ao ambiente coletivo compõem o ideário básico do compartilhamento social.

O ponto de vista do nosso semelhante parece, sempre, menos relevante que a nossa opinião. A coexistência, porém, impõe a necessidade de ceder, ouvir e dar lugar ao diálogo onde impera a liberdade de manifestação. Talvez o exemplo mais latente destes “novos tempos” seja a sala de aula.

Professores gastam, talvez, 80% do tempo cobrando postura de seus alunos do tipo parar de conversar, desligar o celular, fazer as tarefas e cumprir o que foi combinado. O período exíguo utilizado para ministrar conteúdos culturais é uma distorção inadmissível. Incutir os preceitos básicos de respeito e educação é atribuição dos pais, em casa, no dia a dia.

O desenvolvimento de uma geração de pequenos tiranos constrange aqueles que defendem a participação dos pais e responsáveis na formação de futuros cidadãos. Além de nossos herdeiros, eles serão responsáveis pelos destinos da nossa cidade, do estado e do país ali adiante. 

Choca a omissão e revolta a desconsideração inexplicável de quem assumiu a responsabilidade de colocar filhos no mundo sem a necessária contrapartida do ônus da educação. Trata-se de um atitude covarde, irresponsável e que não condiz com a importância da maternidade/paternidade.

É mais fácil permitir comportamentos deploráveis ao invés de advertir e proibir com forma de castigo. Durante anos abafei o choro com travesseiros depois de discussões ríspidas com meus filhos, hoje adultos jovens. Conto a eles inúmeros episódios que resultaram em explosões que pareciam irreconciliáveis, mas depois tudo se ajeitava.

Hoje constato que aqueles momentos de profunda tensão são revestidos de grande valor. Meus filhos não são pessoas perfeitas, mas têm consciência do que é preciso para manter uma convivência social minimamente civilizada. Não é inadmissível confundir desejos com direitos.  

Vocação e empatia

Tenho profunda admiração pelos profissionais que lidam com o público todos os dias. Um exemplo são os vendedores, gente que lida com o humor e muitas vezes com a falta de educação de inúmeros clientes que destilam seu fel contra estes trabalhadores. Converso muito com os comerciários, principalmente caixas de supermercado e motoristas de Uber, lotação e com balconistas de um armazém perto de casa, vindos do interior.

A maioria deste pessoal leva “na boa”, entende que estas agruras fazem parte do ofício. Outros, com um pouco mais de bate-papo, admitem que muitas vezes a paciência chega ao limite e a vontade é de mandar o freguês “para aquele lugar”. 

- Muita gente acha que nós somos culpados de todos os problemas que ele têm, são grosseiros, sequer dão “bom dia” e não são receptivos – me contou uma caixa de um supermercado de Porto Alegre.

Isto é muito mais comum do que se imagina. Por isso, é preciso ter vocação para desempenhar qualquer função que envolva contato pessoal. É preciso ter sensibilidade para detectar o tipo de cliente e a melhor forma de abordagem. Alguns gostam de conversar, como eu, fazendo piada, levando na gozação. Outros, sisudos, não admitem qualquer aproximação, ficando na defesa ou sendo refratários ante a uma tentativa de quebrar o gelo.

A vida do vendedor não se restringe à “psicologia da interpelação”. As metas – as malditas metas! – são como uma espada apontada para a cabeça do comerciário. À medida que o calendário avança e o final do mês se aproxima, a pressão aumenta. É preciso vender sem forçar, convencer com habilidade e “encantar” o cliente, o novo mote comercial.

Outro desafio é a fidelização que transforma o comprador em amigo. Isso é o apogeu da relação cliente-vendedor porque além da simpatia a proximidade fomenta a propaganda de boca em boca que empresta credibilidade.

Há mais de 20 anos corto o cabelo com o mesmo profissional. Giovanni Costa tem uma incrível habilidade com crianças. Por isso, levei meus dois filhos ao salão onde trabalha e desde então o atendimento é a domicílio, o que facilita muito minha rotina. Além disso, o preço do serviço fica mais acessível porque o pagamento vai integralmente para o “barbeiro”, como se dizia em Arroio do Meio.

Quando sou bem atendido falo com o gerente na presença do vendedor. Muitas vezes um elogio tem mais valor que a comissão que o comerciário percebe a cada venda. 

Exercer uma profissão que traga alegria e sustento é o sonho de todo mundo. Isto, porém, é resultado de muito trabalho, dedicação e vocação. Parabéns a todos que lidam com o bom e ou mau humor da humanidade todos os dias.

O desafio da profissão

Especialista dizem que muitos pais têm a tendência de transferir suas frustrações aos filhos. E que isso é mais evidente na escolha da profissão. Argumentam que há um direcionamento para que os herdeiros sigam a trajetória paterna/materna. Muitas vezes isso acontece até de maneira inconsciente, fruto da nossa experiência em determinado segmento. 

Esta propensão também provoca muitos conflitos quando não há compreensão mútua. Pertenço a uma geração que desconhecia o que chamo de “direito à réplica” com os pais. Não havia sugestões, apenas ordens e a nós, crianças e jovens nascidos na década de 60 e anteriores, restava obedecer sem objeções.

Meu pai foi contador e sócio de uma empresa de bebidas. Trabalhou duro por mais de 30 anos e nos deixou jovem, aos 52 anos. Hoje vejo que era normal ele querer que eu assumisse seu lugar na firma. Afinal, foram décadas sem finais de semana e feriados, trabalhando duro, reinvestindo os parcos lucros.

Conformado que minha vocação estava longe dos negócios o velho Giba queria me transformar em funcionário do Banco do Brasil. Fiz dois cursinhos preparatórios. Estudava em São Leopoldo, na Unisinos, até o meio-dia de sábado, viajava duas horas até Lajeado e estudava das 14h às 19h. Prestei dois concursos e sabotei ambos ao errar propositalmente as poucas questões cuja resposta sabia.

Foram tempos duros em que meu pai insistia para que tivesse “uma profissão com futuro” porque via no jornalismo um mercado difícil. Pressionado, tive consciência de que era preciso ser ao menos razoável na profissão escolhida. Por ironia, tornou-se colunista de jornal e comentarista político de rádio em períodos eleitorais.
Na minha casa, de quatro pessoas, apenas minha filha não é jornalista. Imagino a pressão que sentiu. Não bastasse a tentativa inconsciente de direcionar os filhos ela sofre como “exceção” familiar. 

Ver os filhos felizes, realizados e aptos a garantir o sustento é o sonho de todo pai e mãe. Ao contrário da minha geração, hoje a gurizada tem uma infinidade de alternativas. Surgiram inúmeras profissões, outras foram extintas, a maioria resultado da onipresença da tecnologia. É difícil acompanhar a escolha dos descendentes sem interferir. A ansiedade, as dúvidas e até a depressão causada pela opressão da busca por uma carreira exige diálogo, sensibilidade e parceria para evitar uma sucessão de conflitos.

Não é fácil ficar alheio, mas é preciso resistir à tentação de influenciar excessivamente, sob pena de condicionar uma opção que pode gerar desgosto, frustração e desencantamento. O bom senso, como sempre, está no equilíbrio. Saudável, mas nem sempre fácil.

Heróis do Interior

A velocidade dos avanços tecnológicos impôs desafios inimagináveis. Inúmeras atividades profissionais sofreram transformações que nem todos souberam acompanham. Muitos sucumbiram, outros mudaram de ramo e aprenderam sobre este novo momento e adaptaram seus produtos, métodos e procedimentos.

Neste aspecto, os jornais – principalmente do Interior – passaram por mudanças drásticas que até hoje exigem reinvenção. Além de adaptar um modelo consagrado de fazer comunicação, os proprietários de veículos impressos acumulam, também, a função de acostumar o próprio público às novas linguagens.

Adicionar blogs, sites com recursos de tevê e outras plataformas ao negócio é um processo lento e oneroso que exige sensibilidade. É histórico que toda novidade esbarra em resistências. Afinal, altera experiências consagradas pelo tempo. Existe, sempre, o medo de que o conhecimento de uma vida toda se esvaia pelo ralo, não servindo para mais nada.

Nascido no Interior e colunistas de cinco jornais em diversas regiões do Estado sou privilegiado pelos empreendimentos exitosos conheço e que comprovam a competência de jornalistas e empresários empenhados em oferecer produtos com conteúdo, modernidade e permanente atualização. O sucesso não é fruto do acaso. É consequência de interesse, estudo, reflexo, planejamento e execução eficiente que evita perda de tempo e dinheiro.

Há muitos anos acompanho algumas experiências de empresas jornalísticas. As transformações de periódicos trissemanais em diários foi um fenômeno que se transformou em dor-de-cabeça para muitos empreendedores. Um mercado que parecia promissor foi abatido pela crise que insiste em se manter, encolhendo orçamentos e despesas destinadas à divulgação. 

Nós, que trabalhamos em comunicação, estamos acostumados a ver nossos projetos adiados, cancelados ou simplesmente ignorados sob o argumento das dificuldades. Fica a impressão de que qualquer pessoa faz divulgação, reforçada pelo advento do celular com o qual é possível elaborar textos, fazer fotos e produzir vídeos. A baixa qualidade pouco importa, afinal, os custos são reduzidos, fazendo com que um grande contingente seja multimídia, recebendo o que chamo de “unissalário”.

Apesar dos percalços os jornais impressos de nossos municípios resistem graças à insistência e modernização, mesclada com uma tradição consolidada entre os leitores.  Tenho imenso orgulho de ser forjado neste modelo e persistir, ao lado de homens, mulheres, jovens, estudantes e veteranos “canetinhas”, jargão usado para os profissionais de veículos impressos.

Goldon ou Maltês?

O português é um idioma com mais exceções que regras. Mas o lado bom é a dinâmica, a mesma que confunde os estrangeiros e ao mesmo tempo empresta atualidade a partir dos frequentes neologismos. Com o passar do tempo alguns ditados caem em desuso ou mudam de significado. Exemplo? A expressão “vida de cachorro”, originalmente concebida para definir quem leva uma vida sofrida, com poucos recursos.
Hoje, “viver como um cachorro” desperta a inveja de muita gente. De abandonos, comendo restos de alimentos e dormindo ao relento, os cães ocupam lugar privilegiado no cotidiano de milhões de brasileiros. A revista Exame, no dia 2 de maio, ostentou a seguinte manchete: “Mercado pet deve faturar R$ 20 bilhões em 2020”. A reportagem revela que existem mais de 132 milhões de estimação no país, conforme levantamento do IBGE.
Nesta onda já é permitida a presença dos mascotes em lugares outrora inimagináveis, como shoppings e restaurantes. Respeito opiniões em contrário, mas considero uma demasia. Vejo animaizinhos estressados em meio à confusão de lojas nos sábados à tarde no Iguatemi, em Porto Alegre. Outro patinam ao tentar caminhar nos corredores apinhados de gente.
 Verdade ou não, dizem que muitos animais se assemelham aos donos, em fisionomia e temperamento. Conheci um adestrador que afirmou:
- Não existem animais estressados. Existem, isto sim, donos estressados!
Neste quesito, temos um maltês, o Fiuk, nove anos, tempo que espero tornar-se um cachorro cordato, calmo e obediente. Por enquanto, late desesperadamente, rosna para mim sempre que pode – até quando o levo para passear! – e já roeu todos os cantos inferiores das portas da casa.
Na vida real, eu mesmo gostaria de ser como um Golden retriever, raça originária da Grã-Bretanha, desenvolvido para a caça de aves aquáticas. Todos os dias, por volta das 7h, espero a lotação em uma parada de ônibus e uma mulher passa caminhando lentamente segurando uma coleira com um destes cachorros. Ônibus passam a poucos centímetros, buzinas tocam em alto som, mas nada tira o Golden do sério. Ele segue impávido, indiferente à zoeira em volta. De tão calmo servem de montaria para as crianças. São dóceis e pacientes. São qualidades que desconheço.
Sou um quase sessentão ansioso e agitado, que dorme pouco, mas raramente tem insônia ou dificuldades para conciliar o sono. Neste quesito me assemelho muito mais ao Fiuk - o maltês que inferniza nossa casa, espalhando estresse, bagunça e barulho. Talvez a convivência tenha influenciado um ou outro... vai saber! 
Sou apegado a animais desde a infância, na colônia, mas acho que há um exagero, uma “humanização” equivocada no convívio com os animais de estimação.

‹ página anterior