O Farroupilha
GILBERTO JASPER
Empatia precisa de prática

Nasci numa cidade – Arroio do Meio, no Vale do Taquari – onde a enchente é parte da minha infância. Meu saudoso pai costumava colocar a mulher e os dois filhos num Fusca branco depois do almoço para visitar os locais atingidos pelas cheias.

Ao chegar aos lugares ele explicava didaticamente sobre os afluentes, os arroios, a água que descia do rio das Antas e da Serra gaúcha até chegar no Taquari. “Basta chover dois dias ou duas noites com força na cabeceira do rio que tudo fica debaixo d’água”, repetia.

Minha mãe reunia as amigas para angariar donativos para a população ribeirinha, no bairro Praia. Íamos ao encontro dos flagelados, muitas vezes em suas casas. Era uma visão dolorosa com muito barro, esgoto, animais mortos, sujeira e um fedor insuportável. 

Assim que o sol brilhava, aquela gente passava os dias de mangueira, baldes, enxadas e vassouras em punho para recomeçar. Ao longo do ano economizavam para repor a modesta mobília, os poucos eletrodomésticos e os estofados baratos para ter um mínimo de conforto.

É uma rotina que presencio há 60 anos, mas ainda mexe comigo. Desavisados ou quem jamais assistiu “ao vivo” estes dramas simplifica a situação. Sugere coisas como “que se mudem para outro lugar”, mas não é tão simples. Há um misto de teimosia, sim, mas tem falta de seriedade de agentes públicos descompromissados para investir em habitação popular e infraestrutura.

O conformismo e a necessidade de sobreviver impedem a revolta de quem perde tudo. Menos a dignidade e a força de vontade para recomeçar. A enchente da semana passada varreu centenas de residências do mapa, ceifou vidas, causou prejuízos incalculáveis e reiterou a incompetência de muitos administradores que deveriam providenciar soluções. 

É inadmissível que em pleno século 21 não se adote tecnologias para gerar solução. Não podemos continuar sendo espectadores de uma tragédia reincidente. Em algum lugar existem projetos a serem adaptados para minimizar a dor desta gente sofrida. 

Enquanto estas calamidades continuarem acontecendo será difícil recostar a cabeça no travesseiro à noite. A empatia e o comprometimento social, mais do que nunca, precisam ser exercidos.

Do limão, a limonada!

O consumismo, o exibicionismo, a acumulação de bens materiais continuarão serão tônica no pós-pandemia? São indagações que engrossam as interrogações que povoam nossas mentes. Afinal, estamos condenados ao confinamento e aos cuidados inéditos coo uso de máscaras, luvas e álcool gel.
Muita gente descobriu nestes quatro anos potencialidades que sequer desconfiava possuir. A proliferação das “lives” – transmissões pela internet – afloraram talentos através de assuntos do cotidiano de maneira descontraída e realista.

Outra faceta da crise refere-se à volta ao passado. Vai muito além do famoso “TBT”, publicação semanal de reminiscências publicadas no Facebook. Na pandemia, muita gente faz uma viagem no tempo, recordando bons momentos e revendo pessoas inesquecíveis.

A relevância do ambiente caseiro também ganhou nuances como conforto, convivência com familiares e prazeres mundanos como cozinhar, dividir tarefas e compartilhar séries e dar boas risadas. Seria ingênuo ignorar que o confinamento compulsório causa depressão, ansiedade e tristeza.

A falta de contato humano impacta de diferente intensidade de acordo com o temperamento de cada um. Há pessoas que convivem bem com a solidão ou com o contato restrito com grupos para fazer churrasco, tomar um chope ou apenas jogar conversa fora.

Todas as restrições, no entanto, podem desencadear uma transformação, uma sabedoria compulsória para um novo olhar para situações cotidianas. Símbolos de status, anteriores à covid-19, serão substituídos por novos valores. Luxos e objetos de ostentação perderão valor para diferentes manifestações de apreço. Talvez possamos aprender que acumulamos em demasia, dando ênfase à opinião alheia em detrimento daquilo que efetivamente nos faz feliz.

São quase quatro meses de meses de pânico disseminado massivamente pelos principais veículos de comunicação com restrito espaço para opiniões divergentes ao “fecha tudo e fica em casa”. 

No início parecia uma onda, uma situação temporária, mas hoje não temos previsão segura sobre o fim de tudo isso. Por isso, que tal aproveitar a situação para aprender, crescer e nos tornarmos mais humanos? 

O ano em que tudo aconteceu

Existe um grande mistério sobre o comportamento humano pós-pandemia.  Aqui e em outros espaços manifestei a minha desesperança sobre possíveis melhorias. Lembro que nos momentos de agrura é comum rezar, arrepender-se, prometer melhorias que, superada a crise, caem no esquecimento.
Apesar deste pessimismo acredito que ocorram algumas alterações em vários segmentos de atividade. Leio que a Rede Globo demitiu inúmeros figurões de seu elenco, figurinhas carimbadas de novelas e séries consagradas. O destaque é a talentosa Fernanda Montenegro e o multifacetado Miguel Falabella.
A pandemia também revela facetas inusitadas de ironia. Durante meses a Globo, em anúncios institucionais e principalmente nos noticiários, exortava os empresários a não demitir. “Vai passar!”, terminavam os textos. Como se nota é uma postura bastante diferente manifestada agora com repetidas imagens de covas e sepulturas. E das centenas de demissões da emissora.

No futebol creio que teremos – finalmente! – um retorno ao bom senso. Salários estratosféricos somados a privilégios que beiram à infantilidade transformaram ídolos em pessoas alienadas e mimadas, incapazes de formular duas ou três frases com sujeito e verbo. Negócios de milhões de euros devem ocorrer, mas terão um filtro mais criterioso, sendo exceções à regra.

No ambiente profissional teremos novidades sobre o emprego presencial com ênfase para o home office, tendência em diversos países do primeiro mundo. Adotei a novidade à minha rotina. Vou comparecer no máximo duas vezes ao escritório assim que as medidas restritivas forem flexibilizadas.

A jornada de trabalho tem sido mais longa, mas com reflexos nos resultados. Não há conversa com os colegas ou o telefone tocando, além da saída para almoçar e o cafezinho. Tudo isso rouba a atenção e tempo ao longo do dia. Talvez o consumismo diminua. Há quase 90 dias as pessoas estão em casa, sem fazer compras, à exceção de gêneros essenciais. A reclusão serviu como raio-X das despesas e dos excessos estimulados pela publicidade.

Teremos frio rigoroso no final de semana. O inverno estreou mais parecendo o famoso “veranico de maio” com altas temperaturas. Até nisso temos novidades em 2020 que, talvez, entre para a história como “o ano que não aconteceu”. Ou... o ano em que tudo aconteceu!

Notícia, um produto suspeito?

Iniciei minha vida jornalística aos 16 anos. E domingo completei 60 de idade. Os primeiros passos foram em veículos do interior do Estado, no Vale do Taquari, onde nasci. Um dos principais cuidados que adoto desde então é a manutenção de autocrítica, fundamental para não desviar das funções de comunicador.
Vivemos a era da informação onipresente, conectados por inúmeras ferramentas, plataformas e acesso a novidades intermináveis. Muitas empresas de comunicação enfrentaram sucessivas crises, com ênfase para os jornais já que boa parte da matéria prima era importada, à mercê das oscilações do dólar, resultando na falência de veículos impressos.

Pela minha origem- e por acompanhar a trajetória das empresas do nosso interior – falo aos estudantes e jovens profissionais que relutam em deixar as grandes cidades, que os veículos menores produzem revoluções concretas nas comunidades onde atuam.

Nos grandes centros, as notícias do país e do mundo ignoram experiências exitosas de mulheres, homens e jovens em vários municípios. Mas escândalos e crimes hediondos têm generosas manchetes de capa.

O excesso de opinião em detrimento da informação – com ponto e contraponto – é outro desvio que causa desencanto a este velho “rato de redação” ensinado a checar com duas fontes as notícias mais impactantes. É norma ver grandes veículos impondo conceitos (e preconceitos), fenômeno – felizmente! - reduzido pelas redes sociais.

Causa tristeza e revolta obsevar “baluartes da verdade única” com generosos espaços, distorcendo o conceito de informação.  A China, onde nasceu o coronavíus, tem um governo que controla a mídia com mão de ferro. Lá foram sonegadas informações à Organização Mundial da Saúde que de maneira covarde nada fez, o que poderia reduzir o número de mortos mundo afora.

Nesta crise inédita, a postura arrogante, impositiva e distante dos objetivos de um veículo de comunicação se acentuou. A vítima? Todo nós, consumidores que sustentamos aqueles que têm espaço e renome, mas renunciaram ao compromisso com a verdade. Cada vez mais o conselho de um velho jornalista se faz presente: “Informar não é julgar. É oferecer elementos para que o público tire suas conclusões, faça seu julgamento e forme a sua opinião”.

O direito de receber um produto isento de contaminação é básico para todo consumidor. No Brasil da radicalização, no entanto, notícia é um produto cada vez mais suspeito.

Uma chance para mudar

 Discordo da fama que nós, brasileiros, ostentamos em boa parte do mundo, inclusive dentro do nosso próprio país. Não acho que somos assim tão bonzinhos, tolerantes, compreensivos. Isso pode chocar, mas basta olhar em volta para constatar exemplos do cotidiano para confirmar esta opinião.

Somos abençoados pela inexistência de fenômenos naturais catastróficos – como tsunamis, furacões e terremotos. Também não temos episódios de guerra com países vizinhos. Estas características, talvez, sejam responsáveis pela pouca solidariedade. E aqui não vale citar  participações episódicas, como no caso de enchentes ou campanha do agasalho.

Falo da solidariedade como ajuda permanente, desinteressada e distante das câmeras de tevê e celulares. É claro que o contingente de voluntários em entidades civis aumentou muito, mas falta compreensão – por exemplo - para cessar críticas mesquinhas, deletar antigas picuinhas e mudar as cores do noticiário onde proliferam mortes, pânico e negativismo e doses cavalares.

Longe de pregar um mundo cor-de-rosa defendo a tolerância – social, política e de comunicação – para minimizar os impactos deste momento único. Infelizmente os interesses pessoais – e corporativos – sobrepujam a necessidade de aplacar os efeitos da pandemia. Exibir imagens de covas e sepulturas revolta, mas a guerra político-ideológica fala mais alto.

Países mais pobres que o Brasil dão aula de humildade, promovem a solidariedade no cotidiano. Muitos sofreram tragédias de proporções mundiais como epidemias, conflitos bélicos e da fúria da natureza. Já perdemos milhares de vidas. Estamos longe do”achatamento da curva” do coronavírus. Então, o que mais falta para desarmar espíritos para agir como seres humanos?

O inverno bate à porta agravando os problemas de saúde de nós, que vivemos no extremo do Brasil, perto do gelo eterno. Mais que o frio das noites gélidas, saber que é impossível desarmar os espíritos dói muito mais. São tempos inéditos de doença, estiagem, intolerância.  Se tudo isso não é capaz de mudar corações e mentes, o que mais é preciso?

Confinados, com medo e diante de incertezas de todo tipo seguimos confinados. Em casa ou saindo apenas para o indispensável teremos muito tempo para refletir sobre tudo que o mundo enfrenta. E será, igualmente, uma oportunidade ímpar para mudar!

Diário do confinamento IV

Entre tantas consequências oriundas da pandemia mundial está a consolidação da importância dos prefeitos. Governos federal e estadual jogaram no colo dos dirigentes municipais a responsabilidade sobre a abertura ou fechamento de todo tipo de atividade.

A ironia é que teremos eleições este ano. Até o fechamento desta crônica a única possibilidade de mudança tratava de possível transferência de data e, além disso, a realização do pleito em mais de um dia para evitar aglomerações.

Com frequência escrevo sobre a importância daqueles que comandam nossos municípios, a maioria composta por comunidades onde todos se conhecem. Sou filho de um vereador eleito em 1968, sem receber salários, e guardo muitas recordações. Entre elas, da ausência de tempo para a convivência familiar e de falta de privacidade.

Diariamente almoçavam em nossa casa pessoas vindas do interior com dificuldades de comunicação – só sabiam falar alemão – carentes de ajuda para retirar o talão de produtor rural ou ir à consulta médica ou confeccionar a carteira de identidade. Meu pai as acompanhava desde o desembarque até o retorno para a colônia. Se não tivesse morrido aos 52 anos seria prefeito, tamanha devoção à política e o gosto em ajudar.

A crise do COVID-19 tirou muitos prefeitos do anonimato. Alguns pouco fizeram até a pandemia instalar-se. Ganharam espaço na mídia e se viram obrigados a tomar decisões que antes evitaram. O mandato é de quatro anos, mas é raro que eleitores se lembram dos primeiros meses de administração, muitas vezes caracterizados por equívocos, brigas ou de omissões.

Sob grande pressão nossos mandatários municipais estarão sob julgamento na busca de reeleição ou no caso de terem ungido seus sucessores. A nós, eleitores, cabe uma análise racional, deixando a de lado a emoção que o momento desperta. Cenas de covas abertas, corpos inertes nas UTIs ou de familiares chorando perdas são pungentes, mas estão deslocadas na cena política, apesar da insistência de alguns veículos da mídia.

Nossa obrigação é medir e pesar, analisar e comparar, e com critérios fazer a escolha certa. O voto é a materialização mais cara da democracia. E neste ano de 2020 será a arma mais eficiente para consolidar o futuro, corrigir erros do passado e recolocar nossos municípios no caminho do desenvolvimento. 

Diário do confinamento III

A valorização de lembranças e de coisas triviais ganharam um novo colorido com a crise de saúde que assola o mundo. Não são apenas filmes e jogos antigos de futebol que estão na grade de programação. Muitos buscam fotos antigas, recordam episódios, viagens, confraternizações e amigos que já se foram.

Pensei nisso no final de semana. Os dias amanheceram gelados, aquecendo com a chegada do sol. Na verdade, a preguiça nos prega muitas peças. Sem notar, ficamos em casa, preguiçosos, atirados no sofá, vendo tevê, tomando um chimas. Olhamos preguiçosamente pela janela, mas falta ânimo para sair.
Momentos assim, hoje, valem ouro! Desperdiçamos muito tempo com discussões banais que só causam desgaste, consomem energia. Desaprendemos a relevar, preferindo levar tudo em “ponta de faca”, arquivando o perdão.

Não acredito que haverá melhorias pessoais generalizadas. Nem sempre o ser humano aprende. Resiste em mudar, usa desculpas para manter comportamentos tóxicos. As novas gerações, íntimas da tecnologia, poderão adotar novas atitudes para fortalecer a importância do sentimento, da proximidade e da solidariedade.

A tecnologia, aliás, é responsável por contatos mais próximos com as pessoas queridas. Videochamadas já estão incorporadas ao cotidiano. Ninguém mais estranha ao falar “com a telinha”. Até pessoas “jovens há mais tempo” – como eu! – incorporaram a novidades para aplacar a saudade.

Todos os dias participo de reuniões virtuais de trabalho. No começo era hilário. Havia gafes. Alguns deixavam o microfone aberto. Ouviam-se palavrões e ruídos estranhos que renderam boas risadas. Mas hoje todos estão “adestrados”, potencializando os recursos que facilitam a rotina profissional.

O tempo de pandemia também multiplicou golpes através das redes sociais. Afinal, a maldade humana (assim como a burrice) é infinita. Cofinados, muitos clicam links criminosos. Perdem dinheiro e sossego. Inventos geniais – como sempre! - servem na mesma medida para cometer crimes.

Manhãs ensolaradas ou com chuva, com frio ou clima ameno. Todos os dias vamos à janela observar a natureza com um olhar inédito. Detalhes antes ignorados são tema de debates acalorados. Estamos em maio. Parece que protagonizamos um filme de ficção. Do tipo em que o tempo congelou e todos perguntam: como será amanhã?

Diário do confinamento II

Nesta enxurrada de informações ouvi uma entrevista com especialistas falando da quantidade de sonhos que as pessoas relatam nas últimas semanas, a maioria pesadelos. A explicação indicava o volume de conteúdos absorvidos através dos mais variados canais de comunicação – os tradicionais e as novas plataformas digitais.
Além do medo, o momento nos impõe uma dúvida: “desligar” das notícias para descansar a cabeça e dormir bem ou absorver as novidades para evitar equívocos, ainda mais agora que o uso da máscara é obrigatório e todo o Estado.

As relações humanas são ricas em diversidade. Prova disso são as diversas reações diante das restrições que fulminaram a rotina. No final de semana li um texto atraente pelo enfoque. Tratava da redução das diferenças em decorrência da mudança de hábitos.

Manter carros de luxo, roupas de grife, relógios caros ou manter uma agenda de eventos “chiques” perdeu importância. Todos estão confinados, saindo apenas para compras, ida ao médico/dentistas ou rápidas caminhadas. Mesmo contra a vontade, todos, em algum momento, refletem sobre o trabalho, a vida em família, as relações afetivas.

De maneira torta reduzimos o fosso social que espalha a miséria país afora. Também aprendemos a ver o ócio como uma atividade sadia. Descobrimos a necessidade de manter uma organização mínima e de que o trabalho em casa não é ficção científica.

Desde 20 de março vou ao supermercado nos finais de semanas e passeio com o cachorro perto da meia-noite. As jornadas de trabalho chegam a 12/14 horas, mas não reclamo porque estou ocupado, longe da depressão. Nem todos, no entanto, podem aderir ao home office. Trabalhadores domésticos, autônomos e aqueles que sem carteira assinada e salário fixo miram o nascer do sol com apreensão diária.

Dede a semana passada retomei os exercícios para minimizar as dores da hérnia de disco. O estúdio de ginástica atende a dois alunos a cada hora com higienização constante. Todos – alunos e instrutor - usam máscaras com grande distanciamento. Admito que não é fácil suar com boca e nariz cobertos, mas é um cuidado fundamental para manter a saúde.

São tempos novos que, tomara, gerem uma nova mentalidade com base na solidariedade humana. Se isso não acontecer o sofrimento, as restrições e dores desta pandemia de nada terão valido a pena.

Diário do confinamento

Estou confinado desde o dia 20 de março. Vou ao supermercado no domingo e à meia-noite passeio com nosso cachorro. Em épocas “normais” acordo às 5h, mas com a rotina virada de cabeça para baixo o horário depende das tarefas do dia. O estilo “home office” consume entre 10 e 12 horas.

A crise, porém, viabilizou um velho sonho: almoçar em casa. Isso permite não apenas degustar cardápios incríveis feitos pela minha mulher, Cármen, e pela filha Laura, craques na cozinha. Almoçar, jantar e fazer lanches no final da tarde também dá oportunidade para conversar longamente e trocar ideias porque a rotina muitas vezes nos afasta.

As refeições são verdadeiras orgias gastronômicas. Evito somar as calorias ingeridas porque faltariam dígitos na calculadora. Muitas roupas “encolheram” no armário. Com a queda da temperatura, os moletons, têm  sido aliados para escamotear os quilos a mais.

A rotina também ganhou sessões de cinema, hábito raro pelos horários desencontrados. Cada noite um de nós escolhe a atração a partir de indicações de amigos ou da internet. Temos feito belas escolhas! Afinal, faz muito tempo que não saio de casa para ver as novidades de Hollywood ou ver filmes do Netflix.
Tenho escrito bastante. A manhã é mais pródiga em inspiração para redigir crônicas e produzir cards e textos para o twitter e facebook. A falha envolve a atividade física. Apesar dos vídeos enviados pelo professor Luciano Ventura a preguiça tem sido má companhia. Mas já vou redobrar as aulas no retorno para minimizar as dores da minha hérnia de disco de estimação.

À tarde acompanho o noticiário à distância, mas também desligo por ao menos uma hora para ouvir música, fazer palavras cruzadas ou assistir a filmes da NET, apesar das insuportáveis reprises. A mídia tem produzido conteúdos pesados em consequência da crise saúde, mas poucos veículos buscam o equilíbrio. Há muitas notícias positivas omitidas ou que recebem destaque modesto perto das manchetes mórbidas. Acho grotesca a repetição das imagens de covas rasas, mortos em hospitais, enfermos filmados dentro das UTIs. Certamente o responsável pela veiculação massiva destes conteúdos não gostaria de ver seus familiares exibidos em rede nacional na hora do jantar. “Notícia ruim é a notícia que vende” é uma orientação nojenta. 

Não defendo a omissão de informações, muito menos de um mundo cor-de-rosa. Peço, apenas, bom senso, equilibrio, respeito e empatia.

2020, um ano único

 Na América Latina, os anos 80 ficaram conhecidos como a década perdida em decorrência de dívidas externas impagáveis de diversos países inviabilizando o crescimento. Outros países e continentes enfrentaram dificuldades semelhantes em momentos distintos. Pela primeira vez na história, no entanto, o mundo depara com um inimigo comum, onipresente.

Muito já se falou a respeito de 2020. O ano será tema de um sem número de filmes, peças de teatro, teses, teorias e escritos com base neste fenômeno planetário oriundo da China. A censura imposta por aquele governo impede a divulgação de notícias contrárias ao regime vigente. Este, talvez, tenha sido o detalhe que provocou a explosão da pandemia no planeta.

Reitero que não acredito em avanços significativos no que diz respeito às relações humanas. Aprendemos a reza nos momentos de apreensão, mas tão logo recuperamos a estabilidade nos esquecemos das agruras e de quem nos amparou.

Em tese todos terão que exercer a tolerância ao extremo para manter uma nova “normalidade” de reações nos mais diversos segmentos. Débitos serão renegociados, prazos dilatados, cobranças adiadas e calendários serão adaptados. Afinal, 2020 paradoxalmente será o ano mais longo e mais curto de nossas vidas.

Gostaria, de todo coração, que as famílias mantivesse esta conduta atual de amparo coletivo e lembrança viva de seus idosos. Que se mantivesse o hábito de assistir a filme, jantar e almoçar juntos com frequência e conversar sobre a rotina. Também sonho com bancos menos vorazes e mais humanos como prometem na propaganda. E que aprendêssemos que é possível trabalhar à distância sem sobecarregarr o transporte coletivo.

A estagnação da economia por causa do coronavírus e da histeria do “fecha tudo o tempo todo” cobrará um alto preço de todos nós. Teremos inflação subindo porque o governo federal tenta socorrer a todos, mesmo os governadores que terceirizaram suas responsabilidades com rara insensibilidade neste momento.
Por muito tempo sentiremos os efeitos da pandemia. Equívocos na política econômica e décadas de corrupção criaram 13 milhões de desempregados, contingente que aumentará. Lamentavelmente jamais haverá contabilidade sobre os mortos em decorrência do desaquecimento da atividade produtiva. Todos abem os motivos desta omissão.

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