O Farroupilha
GILBERTO JASPER
Diário do confinamento III

A valorização de lembranças e de coisas triviais ganharam um novo colorido com a crise de saúde que assola o mundo. Não são apenas filmes e jogos antigos de futebol que estão na grade de programação. Muitos buscam fotos antigas, recordam episódios, viagens, confraternizações e amigos que já se foram.

Pensei nisso no final de semana. Os dias amanheceram gelados, aquecendo com a chegada do sol. Na verdade, a preguiça nos prega muitas peças. Sem notar, ficamos em casa, preguiçosos, atirados no sofá, vendo tevê, tomando um chimas. Olhamos preguiçosamente pela janela, mas falta ânimo para sair.
Momentos assim, hoje, valem ouro! Desperdiçamos muito tempo com discussões banais que só causam desgaste, consomem energia. Desaprendemos a relevar, preferindo levar tudo em “ponta de faca”, arquivando o perdão.

Não acredito que haverá melhorias pessoais generalizadas. Nem sempre o ser humano aprende. Resiste em mudar, usa desculpas para manter comportamentos tóxicos. As novas gerações, íntimas da tecnologia, poderão adotar novas atitudes para fortalecer a importância do sentimento, da proximidade e da solidariedade.

A tecnologia, aliás, é responsável por contatos mais próximos com as pessoas queridas. Videochamadas já estão incorporadas ao cotidiano. Ninguém mais estranha ao falar “com a telinha”. Até pessoas “jovens há mais tempo” – como eu! – incorporaram a novidades para aplacar a saudade.

Todos os dias participo de reuniões virtuais de trabalho. No começo era hilário. Havia gafes. Alguns deixavam o microfone aberto. Ouviam-se palavrões e ruídos estranhos que renderam boas risadas. Mas hoje todos estão “adestrados”, potencializando os recursos que facilitam a rotina profissional.

O tempo de pandemia também multiplicou golpes através das redes sociais. Afinal, a maldade humana (assim como a burrice) é infinita. Cofinados, muitos clicam links criminosos. Perdem dinheiro e sossego. Inventos geniais – como sempre! - servem na mesma medida para cometer crimes.

Manhãs ensolaradas ou com chuva, com frio ou clima ameno. Todos os dias vamos à janela observar a natureza com um olhar inédito. Detalhes antes ignorados são tema de debates acalorados. Estamos em maio. Parece que protagonizamos um filme de ficção. Do tipo em que o tempo congelou e todos perguntam: como será amanhã?

Diário do confinamento II

Nesta enxurrada de informações ouvi uma entrevista com especialistas falando da quantidade de sonhos que as pessoas relatam nas últimas semanas, a maioria pesadelos. A explicação indicava o volume de conteúdos absorvidos através dos mais variados canais de comunicação – os tradicionais e as novas plataformas digitais.
Além do medo, o momento nos impõe uma dúvida: “desligar” das notícias para descansar a cabeça e dormir bem ou absorver as novidades para evitar equívocos, ainda mais agora que o uso da máscara é obrigatório e todo o Estado.

As relações humanas são ricas em diversidade. Prova disso são as diversas reações diante das restrições que fulminaram a rotina. No final de semana li um texto atraente pelo enfoque. Tratava da redução das diferenças em decorrência da mudança de hábitos.

Manter carros de luxo, roupas de grife, relógios caros ou manter uma agenda de eventos “chiques” perdeu importância. Todos estão confinados, saindo apenas para compras, ida ao médico/dentistas ou rápidas caminhadas. Mesmo contra a vontade, todos, em algum momento, refletem sobre o trabalho, a vida em família, as relações afetivas.

De maneira torta reduzimos o fosso social que espalha a miséria país afora. Também aprendemos a ver o ócio como uma atividade sadia. Descobrimos a necessidade de manter uma organização mínima e de que o trabalho em casa não é ficção científica.

Desde 20 de março vou ao supermercado nos finais de semanas e passeio com o cachorro perto da meia-noite. As jornadas de trabalho chegam a 12/14 horas, mas não reclamo porque estou ocupado, longe da depressão. Nem todos, no entanto, podem aderir ao home office. Trabalhadores domésticos, autônomos e aqueles que sem carteira assinada e salário fixo miram o nascer do sol com apreensão diária.

Dede a semana passada retomei os exercícios para minimizar as dores da hérnia de disco. O estúdio de ginástica atende a dois alunos a cada hora com higienização constante. Todos – alunos e instrutor - usam máscaras com grande distanciamento. Admito que não é fácil suar com boca e nariz cobertos, mas é um cuidado fundamental para manter a saúde.

São tempos novos que, tomara, gerem uma nova mentalidade com base na solidariedade humana. Se isso não acontecer o sofrimento, as restrições e dores desta pandemia de nada terão valido a pena.

Diário do confinamento

Estou confinado desde o dia 20 de março. Vou ao supermercado no domingo e à meia-noite passeio com nosso cachorro. Em épocas “normais” acordo às 5h, mas com a rotina virada de cabeça para baixo o horário depende das tarefas do dia. O estilo “home office” consume entre 10 e 12 horas.

A crise, porém, viabilizou um velho sonho: almoçar em casa. Isso permite não apenas degustar cardápios incríveis feitos pela minha mulher, Cármen, e pela filha Laura, craques na cozinha. Almoçar, jantar e fazer lanches no final da tarde também dá oportunidade para conversar longamente e trocar ideias porque a rotina muitas vezes nos afasta.

As refeições são verdadeiras orgias gastronômicas. Evito somar as calorias ingeridas porque faltariam dígitos na calculadora. Muitas roupas “encolheram” no armário. Com a queda da temperatura, os moletons, têm  sido aliados para escamotear os quilos a mais.

A rotina também ganhou sessões de cinema, hábito raro pelos horários desencontrados. Cada noite um de nós escolhe a atração a partir de indicações de amigos ou da internet. Temos feito belas escolhas! Afinal, faz muito tempo que não saio de casa para ver as novidades de Hollywood ou ver filmes do Netflix.
Tenho escrito bastante. A manhã é mais pródiga em inspiração para redigir crônicas e produzir cards e textos para o twitter e facebook. A falha envolve a atividade física. Apesar dos vídeos enviados pelo professor Luciano Ventura a preguiça tem sido má companhia. Mas já vou redobrar as aulas no retorno para minimizar as dores da minha hérnia de disco de estimação.

À tarde acompanho o noticiário à distância, mas também desligo por ao menos uma hora para ouvir música, fazer palavras cruzadas ou assistir a filmes da NET, apesar das insuportáveis reprises. A mídia tem produzido conteúdos pesados em consequência da crise saúde, mas poucos veículos buscam o equilíbrio. Há muitas notícias positivas omitidas ou que recebem destaque modesto perto das manchetes mórbidas. Acho grotesca a repetição das imagens de covas rasas, mortos em hospitais, enfermos filmados dentro das UTIs. Certamente o responsável pela veiculação massiva destes conteúdos não gostaria de ver seus familiares exibidos em rede nacional na hora do jantar. “Notícia ruim é a notícia que vende” é uma orientação nojenta. 

Não defendo a omissão de informações, muito menos de um mundo cor-de-rosa. Peço, apenas, bom senso, equilibrio, respeito e empatia.

2020, um ano único

 Na América Latina, os anos 80 ficaram conhecidos como a década perdida em decorrência de dívidas externas impagáveis de diversos países inviabilizando o crescimento. Outros países e continentes enfrentaram dificuldades semelhantes em momentos distintos. Pela primeira vez na história, no entanto, o mundo depara com um inimigo comum, onipresente.

Muito já se falou a respeito de 2020. O ano será tema de um sem número de filmes, peças de teatro, teses, teorias e escritos com base neste fenômeno planetário oriundo da China. A censura imposta por aquele governo impede a divulgação de notícias contrárias ao regime vigente. Este, talvez, tenha sido o detalhe que provocou a explosão da pandemia no planeta.

Reitero que não acredito em avanços significativos no que diz respeito às relações humanas. Aprendemos a reza nos momentos de apreensão, mas tão logo recuperamos a estabilidade nos esquecemos das agruras e de quem nos amparou.

Em tese todos terão que exercer a tolerância ao extremo para manter uma nova “normalidade” de reações nos mais diversos segmentos. Débitos serão renegociados, prazos dilatados, cobranças adiadas e calendários serão adaptados. Afinal, 2020 paradoxalmente será o ano mais longo e mais curto de nossas vidas.

Gostaria, de todo coração, que as famílias mantivesse esta conduta atual de amparo coletivo e lembrança viva de seus idosos. Que se mantivesse o hábito de assistir a filme, jantar e almoçar juntos com frequência e conversar sobre a rotina. Também sonho com bancos menos vorazes e mais humanos como prometem na propaganda. E que aprendêssemos que é possível trabalhar à distância sem sobecarregarr o transporte coletivo.

A estagnação da economia por causa do coronavírus e da histeria do “fecha tudo o tempo todo” cobrará um alto preço de todos nós. Teremos inflação subindo porque o governo federal tenta socorrer a todos, mesmo os governadores que terceirizaram suas responsabilidades com rara insensibilidade neste momento.
Por muito tempo sentiremos os efeitos da pandemia. Equívocos na política econômica e décadas de corrupção criaram 13 milhões de desempregados, contingente que aumentará. Lamentavelmente jamais haverá contabilidade sobre os mortos em decorrência do desaquecimento da atividade produtiva. Todos abem os motivos desta omissão.

Ouçam os prefeitos do interior

Nasci no interior do Estado e conheço os desafios que os prefeitos enfrentam todos os dias. Ao contrario de governadores, presidentes e outros dirigentes eleitos, o mandatário municipal nãopode esconder-se em palácios. Também não dispõe de segurança ou de residência oficial.
O prefeito é um para-raios para onde convergem todos os problemas. Da falta de emprego à necessidade de transferir um doente grave para uma cidade maior, tudo passa pelo homem ou mulher eleito para ser o salvador. No momento e que “a chapa esquenta” a solução vem da prefeitura, seja qual for a natureza da demanda.
No momento excepcional de pandemia não tem sido diferente. Um rolo compressor está no espelho retrovisor dos administradores municipais. Ele precisa manter os alunos alimentados, os postos de saúde funcionando 24 horas, assumir a responsabilidade dos casos suspeitos/confirmados do coronavírus e ainda tocar o restante da pauta diária.
As estradas continuam com poeira ou barro. O hospital, quase sempre dependente da ajuda municipal, exige atenção redobrada. A segurança - atribuição do Estado - precisa de atenção porque as cidades estão desertas à noite. Qualquer ocorrência é debitada ao prefeito que deveria exigir efetivo maior da Brigada Militar.

Em outubro – se nada mudar – teremos eleições municipais. É o pleito mais importante de nossas vidas. O momento ratifica esta premissa. Afinal, estamos impactados por um fenômeno raro, assemelhado à guerra e seus horrores. Mais do que nunca teremos a oportunidade de fazer do voto um instrumento do bem.

Diante da urna eletrônica é hora de julgar, sem emocionalismo, aqueles que trabalham pela comunidade ou quem se mostrou oportunista “surfou” na onda do COVID-19 para faturar espaço na mídia. A transferência de responsabilidade é uma das chagas da política barata que revolta os brasileiros, ainda indignados com o maior escândalo de corrupção do mundo denunciado pela Operação Lava-Jato.

Não faltará quem diga que ninguém é obrigado a ser prefeito, que basta querer. É verdade, mas a democracia pressupõe pessoas dispostas a enfrentar os desafios e nos representar. Ao invés da crítica opto pelo reconhecimento dos que se expõe ao julgamento diário. Dedicado, o prefeito abre mão do lazer e de momentos com a família para administrar uma rotina de problemas.

Ouçam os prefeitos do interior

A situação é grave no mundo e no país. Por isso, exige a compreensão de todos. A disposição para transigir, ceder e sugerir é a essência da democracia e a gênese da civilização. Ouvir a todos é pressuposto fundamental na busca de soluções para momentos excepcionais como este que vivemos.

No turbilhão de opiniões conflitantes é preciso bom senso para adotar medidas justas que signifiquem equilíbrio de sacrifícios. A partir deste pressuposto compreendo a postura dos prefeitos Brasil afora e particularmente no RS. Nasci num pequeno município do Vale do Taquari onde meu pai foi vereador e conheço a realidade das comunidades que lutam pela sobrevivência.

Existe um comportamento injusto de alguns segmentos da opinião pública ao analisar a ação de lideranças do interior gaúcho, inclusive com qualificativos ofensivos. Buscar a retomada de parte das atividades produtivas não é somente o atendimento dos anseios da população, mas uma questão fundamental para sustentar os serviços básicos como saúde, educação e infraestrutura, em especial as estradas.

É inacreditável, mas somente cerca de 17% de tudo que é arrecadado permanece no município, de onde vem a riqueza do Brasil. Estados e a União abocanham a maior parcela dos recursos que falta na manutenção das pequenas cidades.

O prefeito é o “pai de todos”. Quando é preciso uma ambulância para remoções ou socorro, socorro em enchentes e vendavais ou ainda um medicamento para os carentes ele é demandado. A população bate à sua porta na madrugada e aos domingos, o interpela nas ruas e na igreja, cobrando soluções urgentes.

Manter saudáveis as finanças municipais é um desafio diário que demanda coragem, criatividade e liderança. Preservar a vida é uma obviedade, mas que deve vir acompanhada de planejamento a médio e longo prazos que inclui a sustentabilidade da comunidade e de seus cidadãos.

Os prefeitos não exigem abertura ampla e irrestrita porque têm consciência da necessidade de medidas preventivas. Sabem, também, que a saúde mental de seus concidadãos não prescinde do trabalho para viabilizar a sobrevivência e retomar o ânimo de viver.

Simplesmente condenar as lideranças municipais é, além de covarde, injusto e parcial porque ignora a realidade das comunidades do interior onde é gerada a maior parcela dos recursos que sustentam a máquina pública. É de lá, também, que vem a comida que nos mantêm alimentados e vivos.

Bolo de caixinha

Desde o início do confinamento mantenho a responsabilidade de pilotar a longa lista de compras do supermercado que, como sempre,contém algumas extravagâncias. Se isso já era rotina, imaginem agora que estamos permanentemente dentro de casa, comendo quando está claro e dormindo quando escurece.

Sábado pela primeira vez vi, ao vivo, as moças do caixa usando uma espécie de capacete transparente para a proteção do rosto. Uma imagem futurista, assustadora, digna de filmes de ficção cientifica ou do filme  Perdidos no Espaço, nos áureos anos 70 da televisão.

Na entrada do super o controle era rígido, gerando atritos com gente apressada que queria chegar e entrar direto. Com paciência, um funcionário informava que havia determinações para limitar o acesso. Para entrar era preciso esperar a saída de alguns clientes.

Dentro da loja havia congestionamento em coredores. Além da busca mais intensa por determinados produtos, os chamados “túneis de Páscoa”, formados por bombons, ovos gigantes e chocolates prejudicavam a circulação pela redução de espaço.

Ao longo do tempo em que permaneci no supermercado fiz uma pesquisa visual, bisbilhotando carrinhos alheios. Cerveja, carvão, chocolates, pizzas, ovos, farinha de trigo, sucos e refrigerantes lideravam a preferência popular. Além, é claro, de materiais de limpeza.

Pouco antes de sair tive a atenção chamada por um casal cujo carrinho transbordava de bebidas – refri, cerveja, vinho e uísque – e gêneros alimentícios. O tom de voz se destacou na multidão diante da gôndola de produtos pré-fabricados.

- Por que tantos bolos de caixinha? – perguntou indingado o marido.

Ela, sem desviar o olhar da prateleira e com evidente objetivo de ser ouvida pela vizinhança, disparou:

- É pra quando tu acordar depois do almoço, te atirar no sofá pra ver aqueles jogos antigos e berrar: “Mulher, não tem nada pra beliscar com um café preto ou um chimas?”.

Observando o cotidiano sigo para a terceira semana de confinamento, quebrado apenas para as compras e dois passeios com o cachorro de casa – um no início da manhã e outro tarde da noite. Este último está suspenso porque, com a cidade deserta, muitos assaltos têm ocorrido em todos os bairros de Porto Alegre. Todo cuidado é pouco!

Epidemia de solidão

Nestes dias tão diferentes leio e assisto a muitas coisas que antes sequer cogitava acessar. O controle remoto da sala “deu pau”, tão frenética é a busca de conteúdos que não sejam apenas o tema do momento. Mas também é preciso manter-se informado. Mesmo em casa, continuo trabalhando.

Ouvi a expressão que dá título a esta crônica pela primeira vez domingo à noite. Saturado do Fantástico me refugiei no Canal Livre, da TV Bandeirantes. Gosto porque leva informação equilibrada com a presença de especialistas despidos de fundamentação ideológica ou política.

Um psicólogo, cujo nome não recordo, falou sobre os reflexos emocionais da clausura obrigatória a partir do fenômeno da pandemia de coronavírus. Em determinado momento, o jornalista Fernando Mitre indagou sobre o risco de agravamento da sensação de solidão.

O psicólogo admitiu que a invasão de privacidade motivada pelo avanço da tecnologia criou o fenômeno do afastamento social. Parece um paradoxo, mas o estilo de vida feliz, perfeito, do tipo “comercial de margarina”, ostentado nas redes sociais, deprime a todos aqueles que não dispõem de recursos para manter este padrão. Também não são dotados da capacidade de discernir que muitas fotos e vídeos postados nas redes são artificiais e servem apenas para satisfazer o ego.

Num segundo momento o psicólogo afirmou que esta mesma tecnologia deve ser empregada no esforço de aproximação entre as pessoas. 

- Melhor que uma mensagem de texto é um áudio. Melhor que um áudio é uma ligação por vídeo porque é possível ter o “olho no olho”, sentir as reações da pessoa querida e compartilhar sentimentos que minimizam a solidão – acrescentou.

Ele disse também que existe no mundo “uma epidemia de solidão”, motivo de grande preocupação dos profissionais de saúde com a situação atual. Enfatizou que nos dias de hoje é preciso implementar uma nova rotina com toda a família reclusa junto aos animais de estimação.

O avanço da tecnologia é um fenômeno relativamente recente, absorvido em toda plenitude pelos jovens que já nascem manuseando celulares ainda no berço. 

Para nós, maduros, jovens há bem mais tempo e oriundos da geração da máquina de escrever, resta nos adaptar aos poucos novos hábitos. Em tempos de pandemia, atualização é fundamental.

De volta para o passado

“Deve-se aprender sempre, até mesmo com um inimigo”. A frase, atribuída a Isaac Newton se encaixa na situação inédita que vivemos: o novo coronavírus. Nossa rotina virou de cabeça para baixo. Hábitos foram alterados e restrições impostas diante de ameaças reais. As novidades também atingiram a programação esportiva. Me desculpem enveredar por um assunto que raramente enfoque neste espaço.

Com o passar deste tempo excepcional se constata a onipresença das diversas modalidades, principalmente o futebol em nossa rotina. As alterações impõem criatividade inesgotável a produtores e apresentadores de programas de rádio e tevê. É a tradicional “encheção de linguiça” com overdose de opiniões e “abobrinhas” para preencher o tempo.

Ao invés de jogos dos campeonatos estaduais, Copa do Brasil e Libertadores são exibidos jogos antigos com jogadores já aposentados, transformados em treinadores ou já falecidos. A gigantesca engrenagem do esporte mais popular do mundo travou. Dirigentes, jornalistas, atletas, empresários, curiosos em geral de debruçam sobre uma única pergunta: o que acontecerá daqui pra frente? 

Como sempre, os “limões” impõem criatividade para reinventar as atividades que impactam o futebol para fazer a “limonada possível de ser  degustada. Sou otimista por natureza, acredito em melhoras. Tenho esperança de que as dificuldades impactem nos salários irreais de uma reduzida casta de atletas. Sonho com camisetas oficiais dos clubes, hoje co preços inacessíveis, a preços acessíveis. Os ingressos, proibitivos a maioria dos apaixonados pela bola, quem sabe tenham patamares condizentes com o Brasil.

Daqui para frente serão tempos de choro e ranger de dentes. Campeonatos serão paralisados, não teremos campeões e 2020 será “o ano que não terminou”. Será algo inédito, impensável, dado como devaneio para quem, alguma vez, tenha imaginado uma epidemia de nível mundial capaz de impactar todos os segmentos.

Resta a nós, confinados em casa com familiares e animais de estimação, rever velhos craques e rever jogos inesquecíveis, amargar derrotas doloridas e degustar conquistas históricas do time do coração. Será um retorno ao passado para forjar o futuro bruscamente alterado. Assim, vamos conviver com a novidade – o coronavírus – com os olhos voltados para o passado.

Como tudo na vida, talvez com esta postura iremos valorizar aprendizados que lá atrás ignoramos ou simplesmente subestimamos.

Em busca de milagres

Com frequência penso na quantidade de terapias e tratamentos que existem para praticamente todos os males. Do corpo e da alma. Diariamente surgem notícias sobre novidades que aparecem no mercado. As redes sociais são pródigas em disseminar este tipo de conteúdo. A desesperança leva muita gente a se jogar de cabeça em experiências nem sempre sadias, muitas vezes transformadas em moda a partir de fake news vendidas como solução milagrosa.

A proliferação de palestras on line e de cursos para os males d’alma faz com que a curiosidade das pessoas esteja ainda mais aguçada. O fenômeno é tão incrível que filósofos ministram conteúdos em EAD – ensino à distância, situação inimaginável há alguns anos. Princípios filosóficos, considerados até então herméticos e limitado a especialistas, tornaram-se populares. 

Mario Sergio Cortella é um destes prodígios que os meios de comunicação transformaram em ídolo. Com simplicidade e usando situações do cotidiano como exemplo ele explica o comportamento das pessoas, as reações, virtudes e idiossincrasias humanas. Ao ouvir o filósofo nascido em Londrina, no Paraná, é impossível não se identificar com ao menos um momento vivido em nossa rotina.

Cortella tem um carisma raro, fruto de décadas de sala de aula e milhares de palestras ministradas. Por isso, é convidado para falar nos mais diversos ambientes – de encontro de especialistas no comportamento humano até imersões de empresas. Muita gente torce o nariz, outros veem nesta novidade uma porta a mais aberta na busca da autocompreensão.

Um amigo, há décadas trabalhando como representante de laboratório farmacêutico, confidenciou que nunca viu as salas de espera de psiquiatras, psicólogos e terapeutas em geral tão lotadas como atualmente. “Acho que o pessoal perdeu a vergonha e através da proliferação dos planos de saúde busca alternativas para minimizar seus sofrimentos”, me disse ele.

Domingo à noite, no programa Canal Livre, da TV Bandeirantes, assisti atentamente a entrevista do psiquiatra Rodrigo Bressan – a quem não conhecia - falar sobre depressão, luto, comportamento bipolar, ansiedade entre outros temas tão atuais como o uso do celular. Ele desmistificou alguns dogmas, como o uso massivo de medicamentos, considerado indispensável por muitos pacientes e profissionais. Bressan disse que cada paciente reage de maneira diferente e que o uso prolongado de algumas drogas causa dependência e a necessidade de aumentar as doses.

Neste mundo de exigências cada vez maiores e da necessidade de “parecer feliz”, a busca de milagres ganha força. Curandeiros, terapias alternativas e não comprovadas cientificamente e soluções mágicas proliferam. Todo cuidado é pouco para não abraçar novidades que, no final das contas, comprometem e agravam a saúde.