O Farroupilha
MARIO ROMANO MAGGIONI
Busca ativa

É direito da criança e do adolescente ser criado e educado no seio de sua família, em ambiente que garanta seu desenvolvimento integral. Esta é a frase mais relevante do nosso sistema legal e social.

Nela se insere a adoção e a sua busca ativa. Trata-se do direito dos filhos a terem família que garanta o seu desenvolvimento integral.

É levar o amor onde houver ódio. O perdão onde houver ofensa. A união onde houver discórdia. A fé onde houver dúvida. A verdade onde houver erro. A esperança, no desespero. A alegria, na tristeza. A luz, nas trevas.

É consolar mais que ser consolado. Compreender que ser compreendido. Amar que ser amado.

É dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado. E é morrendo que se vive para a vida eterna.

É preciso reviver o Francisco de todos.

Grupos a partir de três irmãos, crianças com mais de nove anos e crianças com deficiências físicas ou mentais de qualquer idade precisam de família que garanta o seu desenvolvimento integral. Isto é busca ativa. É por eles que esta crônica se faz.

Filhos não são ursos de pelúcia para satisfação dos desejos inconscientes dos adultos. Não são uma poupança para o futuro. Não são receptáculos de herança. Não são a caridade. Filhos são pessoas construindo gente.

A busca ativa se presta para procurar adotantes para crianças e adolescentes que não têm família que garanta seu desenvolvimento integral. Adotantes capazes de compreender que os irmãos não devem ser separados; que as crianças acima de nove anos ou com deficiências físicas ou mentais também devem ter família.

Diante desses quatro elementos vigora a busca ativa. É o  auxílio prestado pela sociedade civil na busca e localização de habilitados à adoção para crianças e adolescentes grupos de irmãos inseparáveis, com mais de nove anos, com deficiências físicas ou mentais.

É simples e fácil. É reescrever os melhores poemas. Desenhar Deus com todas as cores. Tecer a manhã com novos fios. Garantir que a noite durma aconchegada nas árvores. Esta chuva irriga a seca.

Asteroide B 612

Ao ler para a minha filha Mariana (05) os primeiros capítulos d’O Pequeno Príncipe’ percebi algo surreal. A criança, embora príncipe, não tem pai nem mãe. Por isso a literatura é fantástica. O principezinho mora num pequeno planeta, asteroide B 612, visto uma vez ao telescópio, em 1909, por um astrônomo turco. Isso é tudo. Não tem casa. Não tem plantação. Não tem nada. Felizmente a vida é mais complexa. Eu não gostaria de viver condenado ao isolamento eterno no B 612.

Isso me empurra àquele pai que, na vida de seus filhos, não honrou a condição de genitor. Abandonou, de nunca mais ver, os três pequenos. Apesar dele, os filhos cresceram. Ele envelheceu como qualquer ser vivo - alguns antes, outros depois. Ficou muito doente, completamente incapaz de cuidar de si próprio. Leu no art. 229 da Constituição Federal que os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade.
Pergunto: a consanguinidade, por si só, justifica a imposição de amparar o genitor na velhice?

Se o pai, no passado, preferiu abandonar os filhos pequenos a lhe dar afeto e carinho, tem o direito, agora que está incapacitado, de exigir deles alimentos? Ele semeou desdouro, descaso e indignidade. Qual a colheita da semeadura?

Ser pai e mãe é ter apreço, ternura, afeição e dedicação. Não importa a consanguinidade. O conceito de filho vai muito além dos laços de sangue. Quem semeia abóboras, não colherá abacaxis das sementes jogadas na terra. Colherá - se as cultivar bem - abóboras.

A noção de família vai muito além das células sexuais. Não basta um espermatozoide e um óvulo para ser pai ou mãe. Não basta uma carga genética para ser filho. A dignidade, a decência, o respeito, o afeto e o carinho estão numa outra dimensão. Por isso é preciso que todos adotem e sejam adotados. Essa roça de oliveiras produz o melhor azeite do mundo.

E, se os filhos não têm a obrigação de sustentar ao pai desnaturado, a quem caberá o pacote? A todos nós, sociedade? Ou seria melhor deixá-lo abandonado na sarjeta da sua própria existência?

O que foi, filho?

Li a mensagem num muro da internet. Roubei, como se fosse uma estrela que nos pertence. É um poema em forma de visita a um abrigo:

“Esses dias, por conta da ação que estamos fazendo para levar um pouco de alegria às crianças que estão no abrigo na quarentena, descobrimos que um menino que convivia com o nosso filho, na época, e maltratava ele, ainda está lá.

Assim que ele ouviu o nome do garoto, o semblante dele se entristeceu:
- O que foi, filho? Por que você tá triste assim?

- É porque ouvi o nome de fulano e ele ainda está no abrigo até hoje. Eu queria muito que ele tivesse sido adotado.

- Ué, filho! ... Mas ele não te maltratava?

- Por isso mesmo. Ele é o que mais precisava ser adotado de todos, pra aprender o que é certo e errado e a amar e ser amado como eu sou. Como ele vai aprender a ser um bom menino se ninguém adota ele?

‘Caraca, garoto! ... Você só tem 8 anos, mas eu tenho tanto a aprender com você! Quem dera se todas as pessoas do mundo pensassem como você, filho!’”

Para cada criança e adolescente, num abrigo, esperando a adoção, há sete pretendentes habilitados, em casa, esperando um filho bebê. Quiçá, esta crônica recite para a alma o nome de fulano e mostre a possibilidade de um filho com oito ou mais anos. Ele ainda está no abrigo até hoje.

- Eu queria muito que ele fosse adotado. Como ele vai aprender a ser um bom menino se ninguém adota ele?

Há, no Brasil, em casas de acolhimento, mais de cinco mil nomes, com mais de oito anos, esperando.

- É o que mais precisava ser adotado de todos, pra aprender o que é certo e errado e a amar e ser amado.

Há, no universo, pessoas que tem cacoete para poeta. Basta ouvir a voz da água e o crescimento das bergamotas. O formato dos cantos nasce do chão. É um trator, no inverno, passando pelas fileiras de pessegueiros, moendo os galhos do chão para as minhocas, preparando a primavera e o sobrenatural das flores.
Quem dera, os galhos da espera sejam moídos para que o sobrenatural floresça!

De repente, 17

Aqui estou, rodeado de filhos. São três: Júlia (18), Murilo (17) e Mariana (05).

Em sendo pedra, eles pousam em mim como os quero-queros do campo. O Sol delineia a sombra de cada um deles a partir da primeira hora do dia. Eles me usam para ser e esticam ao longe os meus cabelos brancos.

Desde quando nasceram, tive a certeza de que me praticam para pai. Eu os ajudo a crescer: para frente, para cima, para trás, para os lados, ... Aqui estamos (eu e a Claudia), a moldar três existências. Cultivamos uma horta repleta de vozes.

Sempre pensei que, aos 17 anos, nenhum filho pediria:

- Pai, escreve uma crônica para mim!

Achei que isto seria impossível, mas não, o Murilo me pediu uma crônica. O meu ofício é escrever. Abro a minha mala de palavras e vou catando letras. O Murilo nasceu em 11 de junho de 2003. Nascer, por si só, é um milagre. Nascer no meu quintal é mais milagre ainda. Um quintal repicado de muros de pedra, pequenos muros tomando banho no orvalho.

A crônica é o meu presente enluarado de aniversário. Vem direto do coração. Respeita o distanciamento. Não faz filas. Usa, se preferirem, máscara. É um pedaço de mim estampado na folha para ler. Cabe na memória e num abraço.

É uma crônica tão importante. Não hesitaria um segundo em estar aqui para que ela seguisse o seu tempo. Na verdade, são três crônicas tão, mas tão, relevantes. Por elas viraria pedra, deitaria por comprido no meio da sala, pintaria, buscaria uma panela de ouro no fim do arco-íris e caminharia um deserto e uma floresta à procura de amoras e de outras frutas do mato.

Estas miudezas são o melhor do churrasco de aniversário. São inúteis, mas garantem a soberania do essencial. As brasas, a costela e a picanha exercem função secundária.

Estas recordações me fazem escutar de novo o primeiro choro. Trazem de volta a primeira visão de um bebê vindo ao mundo. Os primeiros passos têm dezessete anos.

De repente, 17. As primeiras palavras continuam soando como um privilégio carregado de orgulho. Ouço, pela casa, o eco da minha crônica.

Pedro Paulo

Hoje os sinos dobram pelo Pedro Paulo Correa. Escrevo esta crônica no clarear do dia 31 de maio. Dia de dizer adeus sem sair de casa e sem levar flores. As flores também crescem nas letras de gratidão. O afeto que fica é a herança mais valiosa.

Desde ontem (30), o Pedro partiu para um lugar lindo e abençoado.

Nascido em 25.11.1955, ele adotou o Caravaggeto como sua segunda família. Casou com a Vera Maria Buratti. Deixou a filha Mônica e a nossa admiração.

Nas palavras da Vera:

“Luto eterno! Vai com Deus, Pedro! Sempre te amaremos!  ”

Os dois corações falam mais do que todas as palavras do mundo.

É um irmão que parte. Carrega consigo um pouco de cada um de nós. Muito do Pedro seguirá por aqui. As rodadas de pinhão na casa velha de madeira com porão de pedra do Rodolfo e da Giuseppa, pais da Vera, ficarão para sempre. A sua torcida pelo Penharol (do Caravaggeto) e por cada um de nós é um brinde à grandiosidade das coisas mais simples que há.

O seu maior legado está estampado na eternidade das letras da sua filha Mônica:

“O dia começou difícil hoje e agora ficou cinza!

A tua partida me desmontou, deixou meu coração partido e com um vazio que nunca mais será preenchido! Tu lutou muito e sempre foi um guerreiro! Te admiro muito por tudo que foi e pela pessoa que tu era! Obrigada pelos ensinamentos, pelo amor e pelo carinho que tinha com nós!

Vai em paz, na luz divina de Deus! Sei que tu está num lugar lindo e abençoado! Te amo e te amarei pra sempre! Obrigada por tudo e por tanto! A saudade vai ser eterna! Te amo! Te amo! Te amo!”

A saudação do Pedro era singular:

- Como vai sua pessoa?!

Obrigado, Pedro, por tudo e por tanto! A eternidade é logo ali. Prepara uma cerveja e um churrasco ao lado do seu Rodolfo (pai da Vera) e do Loreno (meu pai)! A sopa de agnolini ficará por conta da Giuseppa e da Otília.

É um privilégio ocupar o dia destas pessoas e de tantas outras que nos engrandecem. Cultivaremos o vazio que fica.

Ouço, no dia que nasce, os passarinhos cantando ...

Juiz-avô

Escrevo esta crônica no dia 25 de maio. É segunda-feira, Dia Nacional da Adoção.

Em setembro de 2015, escrevi: “Agora eu sou juiz-avô”. Era o relato de uma menina encaminhada por mim à adoção em torno de 2002. A menina cresceu, se fez adulta, casou e teve uma bebê. Assim eu me fiz juiz-avô.

Num dia desses, em maio de 2020, eu li, nas palavras do seu esposo, que a barriga daquela mulher estava cada vez mais linda e o rosto cada vez mais luminoso.

Alguns dias depois, veio a notícia, nas letras da tia/dinda, que nasceu um menino lindo, um tesouro precioso que fez da dinda a mais babona do mundo, sem palavras para descrever a emoção, só esperando o momento para pegar no colo por horas.

Fiquei, pela segunda vez, juiz-avô.

Estas notícias simples e cheias de carinho fazem o mundo poderoso mais que o ouro.

Uns dias após, em maio de 2020, recebi outra mensagem:

“Boa tarde, Dr.!

Tenho muita gratidão ao Sr que me deu um filho maravilhoso!”

As histórias acima se entrelaçam. Por volta de 2002, encaminhei, na condição de juiz, um grupo de quatro irmãos à adoção. A irmã e o irmão mais velho foram para uma família; a irmã mais nova para outra; e o mais novo para uma terceira família. Não é bom separar os irmãos, mas, às vezes, não se consegue encontrar um lar para quatro.

Passaram 18 anos! Estamos em 2020. Apesar da separação, parece que os quatro continuam próximos e irmãos, cada um com sua família. Eles se tornaram adultos. A irmã mais nova é a mamãe acima.

Em 2002, fui um juiz-pai. Agora, que chegou um menino lindo e precioso, passo, sem jurisdição, a ser juiz-avô pela segunda vez. São as melhores sentenças.
A obrigação de zelar pelos direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes é de todos; o que faz cada um (inclusive os juízes) ser pai, mãe, avô, avó, tio, tia, dindo, dinda, ... E por aí vai! É direito e dever de todos.

Essas mensagens simples emocionam. É a crônica de cada um sendo escrita. Cuidar bem é o melhor presente que há. São flores esparramadas que crescem e abrem novos jardins.

A Trilha dos Suecos

Manoel Bandeira disse que para compor um tratado sobre passarinhos é preciso por primeiro que haja um rio com árvores e palmeiras nas margens.

No penúltimo final de semana, sábado, 16 horas, fui com a Mariana (5) e a Júlia (18), minhas filhas, à Trilha dos Suecos. Na ida, a Mariana disse que, para não dormir, estava assistindo à sua TVzinha interior. O ‘Dudu’ e a ‘Mariana’ são os operadores imaginários dessa ‘rede televisiva’.

Na RS 448, passamos a ponte de ferro sentido Farroupilha a Nova Roma, a uns três quilômetros adiante, à esquerda, entramos.

Há passarinhos, árvores, o Rio das Antas e dois outros pequenos rios que descem as montanhas de Nova Roma do Sul. É um ambiente propício para compor um tratado sobre passarinhos. Não sei se há palmeiras. Provavelmente haja algum tipo delas. Elas vivem em muitos lugares e são muitas espécies.

Tem um pequeno cemitério, natural por excelência. Oito cruzes, no meio do mato, disputam espaço com as árvores.

O cantar dos pássaros nos acompanhou. São desnecessários os tratados para que haja canto. Bastam as árvores, o cemitério e o rio.

Em alguns momentos, carreguei a Mariana. Há a cascata do Salto Escondido, difícil de encontrar. Ao nos aproximar, ouvimos gritos. Algumas pessoas desciam a cascata em duas cordas.

Retornamos. Um pequeno passarinho ia saltitante, catando insetos palatáveis, entre a trilha e as folhas secas do outono. A Mariana comentou que a sua TVzinha resolve problemas e capta imagens. Problematizei:

- Então, pede para ela quanto é 12 + 17.

- Ihhh! - Respondeu a Mariana. - O Dudu e a Mariana desligaram a TVzinha.
- E 1 + 1?

- Ahhh! Ligaram. É dois.

- E como se escreve dois?

- Desligaram!

Manoel escreveu que a presença de libélulas seria uma boa para os passarinhos. E dentro dos quintais das casas que houvesse pelo menos goiabeiras.

Porque os passarinhos precisam antes de belos ser eternos. Eternos que nem uma fuga de Bach - disse o poeta.

Na volta, 19 h, enquanto a Júlia ouvia músicas, a Mariana pediu:

- Mana, coloca rock pauleira, senão eu durmo!
 

A imagem que não apagará

No dia 11 de maio, a Suzana, minha irmã, escreveu:

“Ontem, as saracuras cantaram. Hoje, barulheira de aranquãs. Ventos fortes na madrugada. E o Cleo Kuhn, finalmente, diz que vai chover!”

Escrevo esta crônica no dia 12 de maio, terça-feira. Chove! Haverá música mais doce para o verde? É um pitéu para a grama. Uma bênção para as árvores. É uma delícia acordar ao som orquestrado da chuva. O dia está amanhecendo.

Faz um ano que o Loreno, nosso pai, partiu. Foi num domingo, no Dia das Mães, em 12.05.2019. Logo após o almoço, ele foi dormir e não acordou mais. Deixou-nos conversando a sós e comendo pinhões na grande mesa de madeira da velha casa de pedra.

Talvez seja ele, do além, mandando a chuva.

A vó Odila, num dia desses, perguntou à Mariana (5), minha filha, se ela lembrava do nono:
- Lembro da barriga grande, dos cabelos brancos e do chapéu. - Respondeu a Mariana.
Estas lembranças valem a eternidade. Valem uma chuva inteira molhando a seca.

Nos últimos tempos, ele costumava ficar sentado num pequeno sofá da casa velha. Esperava o almoço:
- Véia, os ponteiros estão um em cima do outro!

Lá ia ele, com o seu vinho, para a ponta da mesa. Pessoas assim, extraordinárias e simples, fazem falta e deixam um vazio de estradas, frutas e outras quimeras indizíveis.

É esta a imagem que carrego do Loreno: há lugar para todos. A mesa sempre estava lotada. Meu pai não cozinhava absolutamente nada, mas nunca faltava um macarrão, uma moranga caramelada, um churrasco e um radicci para quem quer que chegasse. Todos eram sempre bem-vindos. Por isso ele partiu logo após o almoço. E nos deixou, à mesa, comendo pinhões e tomando um copo de vinho ...

E, agora, esta chuva! É um presente de quem continua vivo nas roças de alfafa que já não existem, nas uvas e nos pêssegos de folhas caídas, nas bergamoteiras, nos abacateiros, … Sempre haverá uma fruta e uma terra para colher com a mão. Esta é a imagem que não apagará jamais.

Não faltarão o sagu e o pudim para a sobremesa.

Mães de coração

Todas as mães são de coração. A minha se chama Maria Anna. Ela tem as mãos da cor da terra. Tem cheiro de fornadas de pão caseiro e o aroma do chão seco se molhando de chuva. Ela me ensinou a falar e a orar.  Ela contava e conta histórias com a magia da primavera. As flores seguem nascendo ao seu toque. Não há outra igual no universo.

Conheço outra mãe que se chama Maria. Ela não é minha mãe. É mãe de sete outros corações, um mais fofo que o outro. Quando ela entra em cena com o seu João, nasce o meu pai Loreno. Tão mãe do coração quanto a minha Maria Anna. Seus dedos tortos rabiscavam estrelas para ninar o meu velho pai tão do coração quanto a minha mãe. Ela vive para sempre na vida de minhas retinas tão cheias de crônicas.

A outra mãe do coração se chama Josefina. Mãe de dez novos corações, uma ninhada sem fim. O Augusto a fisgou numa jornada qualquer em São Valentim. Eternamente Nona Pina. Desta vertente, nasceu Maria Anna.

E antes delas vieram outras e mais outras. Cada uma a seu modo tão do coração. É esta a minha singela homenagem a todas as mães de coração, de alma, de mãos, de olhos, de aventais, de máscaras, de giz, de enxadas, de orelhas e de pés tão suaves para ninar a humanidade. Somos por elas.
Há outra Maria que afaga seus quatro filhos com o Albino. A riqueza de cada coração não tem preço.

Há a Vó Odila de tantas histórias para contar com o Natalino.

Há a mamãe Claudia embalando as três riquezas maiores da minha vida.

A minha saudação, de coração, vai a todas elas e eles. Mães e pais de coração Diego e Vagner. É deste espaço infinito que um novo coração bate. Sem esquecer ninguém.

A Janete mãe de três corações; dois partiram tão cedo. As quíntuplas mães de coração Beatriz, a tripla mãe Karen, a mamãe Rosi, a Suzana mãe de coração Sofia, Dolores mãe de coração poesia. Todas elas com seus momentos grandes e pequenos, com suas alegrias, seus tamancos, seus baldes de leite e de água, suas vassouras e seus vestidos, seus aromas e seus chás. Uma mais linda que a outra, eternamente mães.

Suspensão de direitos sem limitações

Eis o Ato Institucional nº 05, de 13.12.1968:

“O Presidente da República poderá decretar a intervenção nos estados e municípios, sem as limitações previstas na Constituição, suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais, e dá outras providências”.
No domingo, 19.04.2020, alguns foram à rua para defender a volta do AI-5 e da intervenção militar.

Foi um atentado contra a democracia. As obrigações e os direitos políticos, civis e quaisquer outros são pilares da boa convivência. Ainda que alguns se sintam e são incapazes de os exercer, não se deve abrir mão deles em favor de quem quer que seja.

Democracia é o poder que emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente nos termos da Constituição.
Ninguém pode bater no peito e dizer: “Eu sou a Constituição”. Ninguém está acima do outro. Todos são iguais na sua diversidade.

A insegurança faz parte da condição humana e de qualquer outra condição. Cabe a cada um, com maturidade e responsabilidade, buscar resolver os seus problemas; sem esquecer que o problema individual vai esbarrar no conjunto da obra. Ninguém é uma ilha.

A Constituição é a soma de todos e de tudo: pessoas, animais, vegetais, coisas, … Ninguém está acima ou abaixo. É este o grito de devia vir de dentro da alma de cada um.

A Constituição não é exclusividade de alguns. O inferno não são os outros, é a soma de tudo e de todos. O paraíso não está no além: ou é construído aqui ou é o sintoma de que a sociedade anda mal. O grito que engrandece é aquele que privilegia a inclusão e evita a exclusão. É desprezível jogar migalhas ao chão como se houvesse outros indignos de sentar à mesa.

A soberania vem do povo. É privilégio de todos. Suspender direitos sem limitações, ao bel prazer de quem quer que seja, é uma afronta à dignidade e à liberdade de cada um.