A alegria da família venezuelana pela terra natal

A família Flores Bustamante está há pouco mais de três anos no Brasil e divide conosco as diferenças de vida entre os países e a esperança por dias melhores aos que ficaram por lá, agora com a saída de Nicolás Maduro

Claudia Iembo
claudia@ofarroupilha.com.br

Um jovem casal e uma criança. Esta era a formação da família Flores Bustamante. Jorge, a esposa Yuliannis e a pequena Juliette, hoje com seis anos, chegaram ao Brasil em 22 de outubro de 2022. Pouco mais de três anos depois, na madrugada de de janeiro passado, o telefone chamava para transmitir as notícias vindas da terra que deixaram para trás: a Venezuela. Horas depois, já com o dia claro, a mensagem da amiga venezuelana mudaria a família: “Levaram Maduro”.

“Ficamos muito felizes! Agora o país pode ser livre desse governo ditador”, diz ela, com palavras simples, mas carregadas de esperança. Para o jovem casal – ambos têm apenas 25 anos – mais do que um fato político, a notícia representa a possibilidade de um futuro diferente para quem ficou por lá. Com a vida refeita no Brasil, a família conta sua história, agora com o acréscimo de um brasileirinho de dois meses, Josías.

Viviam no Estado de Miranda, perto de Caracas. Jorge trabalhava em um frigorífico e Yuliannis, aqui chamada de Julianis, cursava enfermagem na universidade. Aos poucos, a rotina foi ficando impossível. O dinheiro já não dava para comprar comida e os estudos precisaram ser interrompidos. “Chegou um momento em que o dinheiro não era suficiente para comprar carne, frutas. Às vezes, não era suficiente para nada”, conta ela.

O convite para tentar recomeçar veio de uma tia que vivia na Paraíba. Com a família viajaram a mãe de Yulannis e o esposo. Pegaram a rota de ônibus de Miranda, Los Teques, Puerto Ordaz e Santa Elena de Üairen até Pacaraima, a fronteira entre os países. A data ficou marcada: 22 de outubro de 2022.. O acolhimento foi da Organização Internacional para as Migrações (OIM) Brasil, o principal organismo intergovernamental no campo da migração.

A família recebeu abrigo, um curso de português básico. Entre as lembranças, uma que ganhou registro especial. “Fazia muito tempo que não comíamos uma maçã. Quando recebemos uma em Pacaraima, foi uma grande alegria”, diz Yuliannis. Da alegria de degustar a fruta ao destino que se desenhava em suas vidas, no Sul, para onde vieram pela oportunidade de trabalho, já que na Paraíba a oferta era baixa.

Por aqui Jorge conseguiu emprego e creche para a pequena Juliette, o que facilitou a recolocação de Yulannis. “Outra venezuelana que conheci no Parque dos Pinheiros me indicou uma vaga de emprego em uma malharia, onde estou até hoje, há quase três anos”, comemora. A vida foi sendo reconstruída com o que havia: trabalho, aluguel pago mês a mês, móveis doados, apoio da igreja, colegas solidários. O idioma ainda tropeçava, mas o acolhimento ajudava a traduzir tudo.

Aqui, o salário passou a dar conta do básico — e do essencial. Mercado, material escolar, fralda, carne, frango. Coisas simples, que na Venezuela viraram luxo. “Na Venezuela não havia trabalho, não tem empresa, não tem indústria. Mesmo quando se trabalhava, o dinheiro não dava para comprar arroz, feijão, carne. Aqui no Brasil a realidade é outra: o salário dá para pagar as necessidades. A gente compra comida, produtos de limpeza, higiene, roupa, calçado e até material escolar ”, enumera a mãe de família.

  • O acolhimento também veio da fé. “Somos cristãos. Procuramos uma igreja e fomos acolhidos. Eles ajudaram com bastante coisa. O brasileiro é muito acolhedor, é um povo que se preocupa com a gente”, diz.

Dois partos, dois mundos

Foi no Brasil que Yuliannis engravidou novamente. Josias nasceu no Hospital Beneficente São Carlos, de Farroupilha, e o atendimento ficou guardado como uma lembrança luminosa: alimentação regular, exames, cobertores, cuidado. A comparação veio inevitável. Juliette nasceu na Venezuela. “Lá, às vezes você precisa escolher entre comprar arroz ou uma fralda”, diz, com a voz embargada.

Na emoção de resumir os últimos anos, contabilizando os pontos positivos em no Brasil, o apontamento da saudade de quem ficou por lá: pais, avós, irmãos. O contato é por vídeo, mas não substitui o abraço. “Não é igual. A gente vê o rosto, mas não pode tocar. Ficamos pensando que enquanto refazemos a vida aqui, muitos resistem por lá. Os que ficaram são muito valentes. Eu não sei como eles fazem para conseguir o pão de cada dia”, diz Yuliannis.

  • Os últimos acontecimentos reacendem as expectativas para a nação. “Queremos um país onde o povo possa trabalhar, estudar, ter comida para os filhos, onde seja possível viver com dignidade. Queremos uma Venezuela totalmente mudada e estamos felizes porque sabemos que Deus faz no tempo d’Ele. E a justiça chega”, finaliza.
A família em Pacaraima, fronteira entre o Brasil e Venezuela