A imigração dos Beltrami produziu marcas de abandono e isolamento por causa do idioma peculiar da região do país de origem
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Reportagem especial: José Ademir Theodoro
O programa Aqui é meu Lar da Rádio Miran Caravaggio 95,7 FM, apresentou em novembro, conversa com João Carlos Beltrami. O programa teve como proposta, a imigração italiana, nos seus 150 anos, no Rio Grande do Sul, contando histórias de famílias que migraram para o Brasil. Tema: “Protagonistas de uma história de sofrimento, coragem, fé, esperança e conquistas”. Assim, as pessoas entrevistadas são os protagonistas, é a história viva da imigração italiana. O programa tem uma parceria com a TV Serra e Jornal O Farroupilha.
João Carlos Beltrami é Arquiteto e Urbanista, tem 69 anos de idade, e desde 1982 atua profissionalmente em Farroupilha. Atualmente soma mais de três mil assinaturas em projetos arquitetônicos no município. Ele ressalta que sempre se preocupou em ajudar os que não podiam dentro da sua área. Acredita que sua vocação sofre influência dos italianos. Coloca a arquitetura como uma grande herança da imigração, pelos hábitos de se preocuparem em construir grandes cozinhas em suas casas.
Ele se considera uma pessoa com hábitos familiares, ou seja, gosta de ficar em casa e está escrevendo um livro resgatando a história dos Beltrami. Casado com Mara Lúcia Ballardin, com quem tem dois filhos, Carlos Ballardin Beltrami e João Artur Ballardin Beltrami. Conta que pelas suas pesquisas, a origem da família é de uma região montanhosa da Itália, no limite pré-Alpes, a 800 metros de altura do nível do mar, na localidade de Frisanco, uma comuna italiana da região do Friul-Veneza Júlia, hoje pertence a Pordenone. Até 1868, pertencia a Udini, que era a província que gerava toda a parte administrativa.
João Carlos fala com orgulho de seus antepassados por entender que é uma história digna e cheia de lutas e glórias. Para ele, foram pessoas exitosas. Se orgulha em dizer que por parte de pai é um friolano. “Essa região é muito peculiar. Ela teve três bandeiras, ficou sobre o domínio de três bandeiras. A primeira foi a Sereníssima, que é a Bandeira República Veneza, que até 1860, pertencia ao domínio de Veneza”, conta. Por isso ele acredita que o domínio de Veneza, tenha originado os hábitos venezianos naquela região e isso replica nos monumentos. Udini tem um centro histórico muito semelhante a obras que tem em Veneza, onde se vê quase uma réplica. Isso envolve também os hábitos, costumes, escolas, governança, alimentação e a gastronomia veneziano até 1860.
Ele conta que depois de 1860 a Áustria dominou aquela região, que passou a ser austríaca, com a linguagem alemã, escolas e etc. “É um privilégio, porque era a nação mais desenvolvida na época, ainda hoje, é um dos IDHs mais altos do planeta”, garante. Com todo esse convívio, essa região passa ser influenciada, na música, folclore, gastronomia, governança, administração, ou seja, se torna uma região com hábitos austríacos. Com isso, todo esse povo passa ter uma miscigenação de cultura muito interessante que faz a diferenciação. Hoje é considerada uma região autônoma. Só parte da arrecadação de impostos vai para o capital Roma, o resto fica na origem.
- Transformou-se hoje num dos lugares mais desenvolvidos da Itália, mas era muito pobre no passado. Ele entende que talvez Trento, uma comuna italiana, capital da Província de Trento e da região autônoma de Trentino-Alto Ádige/Südtirol, possa se igualar. Essa é uma região que tem um braço da família de João Carlos Beltrami.
João Carlos se considera Friolano, porque tem na origem de seu bisavô e avô, Beltrame, mas com E, que migraram de Frisanco. Nessa história existe algo muito particular, inclusive, seu avô ficou órfão muito cedo, a mãe dele, bisavó de João Carlos, era muito jovem, decidiu casar novamente. Seu avô não se dava com o padrasto, não havia um ambiente familiar, a tal ponto do prefeito da cidade de Frisanco, mandar um manifesto para o promotor de Maniago, uma comuna italiana da região do Friuli-Venezia Giulia, província de Pordenone, que tem muitos Beltrami. O promotor recebeu o pedido do prefeito, dizendo que ele, seu avô, estava sendo muito mal tratado como filho, andava pelas ruas abandonado. Um bisavô de João Carlos, que cuidava do seu avô, havia morrido. Então o promotor chamou um tio que morava em Vila Isabel (Hoje Bento Gonçalves), para ir buscar o Beltrami órfão, na Itália.
Os Beltrami que estavam aqui, dois tios, se cotizaram e juntaram dinheiro para buscar ele na Itália. Quando chegou lá, tinha mais dois órfãos, que eram primos e vieram juntos. Um deles era o Arthur Beltrami, que era o escrivão de Monte Belo, já faleceu. Outra o nome é Luisa, vieram juntos os três primos. Seu avô morou em Bento Gonçalves, por um bom tempo e depois conheceu a vó de João Carlos. Padovana Garibaldina, se casaram e migraram para Nova Vicenza. A Nova Vicenza era um conglomerado pequeno, uma malha urbana de uma ou duas ruas. Eles moravam na frente do cemitério de Santa Rita em Nova Vicenza. A primeira casa que fizeram foi ali. Aí passado o tempo nasceram os primeiros filhos.
Seu avô montou uma orivesaria na Júlio de Castilhos, que com o cruzamento ferro-rodoviário, em 1905, abertura da estrada Júlio de Castilhos e toda a malha que estava lá embaixo, subiu, em função do comércio, em função do movimento. Com isso Farroupilha ressurgiu a três, quatro quilômetros de onde estava, ao norte da cidade. João Carlos conta que os vicentinos na época já estavam estabelecidos em Nova Vicenza, com suas casas, com sua infraestrutura, não admitiam sair dali. Um ato de rebeldia aconteceu na época: em uma noite subiu um grupo de vicentinos e atearam fogo na Igreja Matriz, que na época era de madeira.
Mais tarde seu avô, que tinha a ourivesaria, conheceu o AJ Renner, o famoso capitão das indústrias. E aí fundiram uma sociedade importante em Farroupilha, uma grande empresa com filial depois em Veranópolis, que fazia o beneficiamento do linho. Através do linho, saía o fio de linho puro, que era feito em Farroupilha. De 1920 até 1940, era uma das principais indústrias da cidade. Tinha um grande número de funcionários e tocavam com a técnica alemã, que era do AJ Renner e italianos também, que faziam motores e se obrigaram a produzir energia elétrica para tocar os motores. Por isso seu avô, Carlos Beltrami, foi um dos fundadores da primeira usina de energia elétrica de Farroupilha.
Em uma pesquisa iniciada em 1997, João Carlos descobriu que seu avô mudou o nome, se chamava Ângelo Carlos Beltrame. Inclusive, quando ele fez a casa na Júlia de Castilhos, que agora foi adquirida por João Carlos. O orgulho foi tanto que botou o nome em cima em concreto, Carlos Beltrami. Para João, seu avô era daquelas pessoas que sentiam orgulho do que faziam, pois não é para menos. Ele conta que foi conhecer de onde saiu seu avô. É uma região que faz muito frio. Seis meses que, praticamente, a pessoa quase não tem como se locomover fora de casa. Durante este período, ficam dentro de casa fazendo manufaturados, coisas manuais, artesanato para depois descer os morros e vender nas planíces. Então seis meses fechados e depois abriam as casas e saíam para vender o que produziam.
É um lugar de pura pedra, só ovelhas e cabras, que o pessoal criava em cima das montanhas para o sustento. “Uma vaquinha, duas, porque praticamente tudo era pedra e pouca área plana, de subsistência e olhe lá. Então foi um dos motivos que o meu vô não via futuro lá naquela época e quando o tio foi lá buscar, foi uma maravilha para eles”, conclui. Essa é a história básica, mas os Beltrami na Itália tem uma importância muito grande,. Em Maniago, eles têm, possivelmente, umas seis empresas de famílias Beltrami, cada uma especializada em algum tipo de metalurgia. Descendo para o Vêneto, a maior indústria metalúrgica que a Itália tem hoje, pertence aos Beltrami.
- “Nós estamos muito ligados ao ferro, falar em Beltrami na Itália é falar em ferro, tem muita ligação. E tem outra parte da família, que recebeu títulos de nobreza, é o pessoal que está em San Danieli”, conta.
Maniago, onde tem muitos Beltrami, é uma das cidades com características marcante dos Beltrami. Foram eles que imprimiram praticamente o DNA na cidade ao elevar o local ao título de Cidade das Facas. É reconhecida internacionalmente como, a mais importante da cutelaria no planeta. “Eles fazem aqueles elmos antigos medievais de lá atrás, até equipamentos cirúrgicos de alta precisão, armamento militar e facas que se o camarada cortar, não fecha mais a ferida feita”, imagina.
João Carlos conta que San Danieli hoje recebe um dos títulos de melhor presunto do mundo. “Nós estivemos lá duas vezes e a gente ficou surpreso. Assim, de andar na estrada e ver a quantidade de pavilhões verticais. Verticais, não horizontais. E aquilo tudo era para a maturação dos pernis de porco que eles fazem o Prosciutto Crudo. Uma das grandes razões do desenvolvimento de San Danieli é o Prosciutto Crudo. É uma marca internacional que é reconhecida em todo o planeta como o melhor presunto que se produz”, conta.
Em sua pesquisa, João Carlos destaca que em San Danieli, os Beltrami tem títulos de Nobreza, como o Teobaldo, que era Conde, o filho dele também, Conde. Eram pessoas que tinham influência muito forte com a casa de Andesburgo, que era em Viena, que justamente naquela época pertencia a essa parte da Áustria. Eles tinham então uma influência forte tanto com a Roma, esses nobres faziam um trânsito muito grande, inclusive houve uma época que ocorreu separação da Itália com a Áustria e eles atuaram muito como diplomatas, inclusive junto com o papa, que tinha um poder não só religioso, mas também econômico e político muito forte. Os Beltrami transitavam muito bem entre Viena e Roma.
- João Carlos conta que está escrevendo um livro sobre a família e acabou descobrindo essa parte da história, inclusive, solicitou na Itália material à respeito para ilustrar o livro. Ele entende que é algo muito importante que a história conta sobre esses Beltrami, que tinham o título de nobreza, um deles foi por muito tempo governador de Milan, tendo grande influência em Roma e com o papa.
Então para resumir a história dos Beltrami, dá para dizer que o começo foi em Monte Belo e Santa Bárbara, que na época pertenciam a Bento Gonçalves. Mas quando o avô de João Carlos chegou ao Brasil, já existiam umas 30 famílias morando nessas localidades. Mas tem uma particularidade, os Friuli, tem o idioma Furlam, que justamente pela mistura de bandeiras do passado, se tornou uma mistura do Italiano com o Austríaco, Francês e Alemão. Conforme João Carlos, se conversar com esse Italiano antes de 1960, não se entende o idioma. Então quando chegaram aqui na região eles ficaram isolados, por uma questão de dificuldade de se comunicar com os demais.
Em uma visita recente naquela região na Itália, João Carlos conta que viu um cemitério próprio dos Beltrami. No passado eles casavam entre primos, por causa da dificuldade de se comunicar e os hábitos e costumes eram diferentes. Com isso ficaram isolados do mundo. Já aqui no Brasil, o avô de João Carlos abriu caminhos. Seu pai foi um grande empresário com doutorado e se especializou em algumas área do Direito. Iniciou na própria indústria familiar que era a Renner e Beltrami, logo em seguida montou a chuteira Club Sul, Panamá Calcados. Ele tinha uma empresa de transportes com os primeiros caminhões da Fábrica Nacional de Motores (FNM) e Alfa Romeo. Logo em seguida foi trabalhar dentro de uma grande empresa, que também era familiar, mas por porte da avó de João Carlos, a família Leonardelli, vindos de alto Ádige (Tirol), na Itália.
- A empresa era a Cervejaria Leonardelli, em Caxias do Sul, e mais tarde Cervejaria Pérola. Seu pai transformou de Cervejaria Leonardelli para Pérola. Ele sempre foi administrador de empresas.
João Carlos é filho único. Em 1982 se formou em Arquitetura em Porto Alegre, mas por um problema de saúde (visão), foi aconselhado pelos pais para retornar à Farroupilha. Foi quando iniciou seu trabalho profissional no porão da casa dos pais, chegando atualmente a mais de três mil assinaturas na cidade, em projetos de construção. João Carlos conta que nesse período sempre fez grande parte das obras que estão nos bairros, contribuindo, inclusive, socialmente com aqueles que não tinham condições, porque sempre teve essa visão de auxiliar, como uma de suas marcas no que faz.
