JORNAL O FARROUPILHA – EDIÇÃO 2.500: 2026 longe de Farroupilha – Parte I

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Vitor Tonolier Filho/Vitor Minas
Jornalista e escritor

O telefonema me surpreendeu: convite para que fizesse algum texto para O Farroupilha.Virada de ano, sabe como é. O Farroupilha, um jornal de Farroupilha, antiga Nova Vicenza, berço da colonização italiana, onde já tive a honra de botar os pés, lejos tiempos. Vejamos: nessa cidade ímpar houve um bar restaurante chamado Antílope, todo de madeira, e um amigo que pegou a Kombi de um hospital para comer um xis em Caxias, um dono de boate que queria me matar e uma jovem intelectual, novinha que se mudou para Curitiba, onde agora lê os astros. O pior de Farroupilha, se existe – o nevoeiro, a umidade, a cerração. Respira-se água no inverno. A três metros mal se distingue uma pessoa.

A Farroupilha que conheci nos anos oitenta era obviamente menor, mais italiana. O calçadão era uma novidade. Curiosamente sobravam assaltos a banco. Nos restaurantes, mesmo os populares, se comia à la farta, igual hoje, quem sabe. Em compensação, às dez da noite, até antes, não se encontrava ninguém na rua.

Dizem que a Serra é fria, e é mesmo, porém a fronteira com o Uruguai não fica pra menos. Passei, tempos idos, algumas semanas de inverno em Santana do Livramento e me assustei com o frio do local, ventava muito. Dormi pesadamente vestido, e mesmo assim não sobrava calor.

Livramento é uma cidade meio brasileira, meio uruguaia, totalmente gaúcha. O pessoal gosta de usar um poncho, muito apropriado por sinal. Um homem de boina, de poncho e de botas – eis o arquétipo masculino humano naquelas paragens durante o inverno. No verão, ao contrário, faz 40 graus sem muito esforço. O sol é uma flecha, a ponto da população que permaneceu na cidade aparentar aquela tez de índio asteca mexicano. Só falta o sombrero.

Antes de ir ao açougue (estava visitando meu pai) eu adorava avisar: “Estou indo na carniceria”. Também reparava nas mulheres “embaraçadas”. E nas pessoas “sin verguenza”. A sonoridade da língua espanhola é uma delícia. Chamar um sem-vergonha de sin verguenza é o máximo.

Nos filmes do Velho Oeste tem sempre mexicanos com o chapelão nos olhos, meio acocorados em um canto, como se tivessem hibernando no calor. Sempre quis ir ao interior do México, a uma cidadezinha modorrenta para saber se isso é verdade. O pior é que acho que é. (Hoje já não se leva tiro no ombro – o mocinho – nem o cara é posto a nocaute, desacordado, com um simples coronhaço)

O primeiro grande astro mexicano em Hollywood foi Ricardo Montalban, aquele que protagonizaria depois a ilha da Fantasia. Nunca quis se naturalizar norte-americano, até por conta dos duros preconceitos que sua gente sofreu. Na Ilha da Fantasia, da série, com o avião amerissando, não dá pra esquecer o Tatoo, o anão que depois se suicidou. A ideia de um local, real, imaginário, onde o sujeito paga e realiza suas fantasias – inclusive arcando com os riscos – é um filão simples que funciona sempre. Assim como Jeannie é um Gênio, escrita e bolada pelo Sydnei Sheldon. Mas isso é do tempo do televisor a válvulas.

Nunca li Sidnei Sheldon, J.M.Simmel, Harold Robbins, esses Best-sellers. E nem é esnobismo. Ninguém da nossa turma lia isso aí, a menos para surgir com um comentário a respeito da sua própria coragem.

Tem gente que ainda hoje não acredita que o homem pousou na Lua, imagine ir a Marte. Da minha parte conheci, em 1980, um rapaz de vinte e poucos que não acreditava que existisse rádio FM e que ela pudesse ser captada no mesmo aparelho de uma AM. Falava sério. Quanto à chegada do homem à Lua assisti pela tevê, tinha oito anos, e lembro que demorou um bocado entre a chegada da Águia no solo lunar e o momento em que os astronautas saíram porta afora. Vi em um documentário que a porta na verdade emperrou, porém me dou ao direito da dúvida.

Quem entrar no Youtube e procurar pelo humor do passado (uns 20 anos atrás, ou mais) vai ter aulas do que não era ser politicamente correto. Certo ou errado, não se poupava ninguém. Haroldo, o Hetero, ainda faz rolar de rir – se a pessoa não é política ou comportalmente correta, digamos assim. Mas pouca gente é – fazem de conta. O Youtube ameniza as minhas críticas e broncas contra a atual ultratecnologia deletéria.

Mário Quintana escreveu que quando alguém conversa com um burro (humano), passam a ser dois burros. Nem nos meus melhores pesadelos acerca do futuro, anos atrás, eu imaginaria isso.

Deu no NYT, noticiando um amplo estudo, uma grande pesquisa internacional, em não sei quantos países, feita por um instituto renomado do qual não sei o nome: a geração atual, pela primeira vez em que se iniciou essa medição de QIs, é menos inteligente que seus pais. Não me surpreende. Ninguém mais lê livros, é só tela dos digitais. E os que leem são sempre os mesmos. Uns10 ou 20 por cento da população. Os jornalistas, por sua vez, estão cada vez mais ignorantes: falam “de encontro” quando queriam dizer ao encontro, erram quase todas as concordâncias e são mestres no verbo Haver: “Houveram vários casos”, ouvi esses dias em um noticiário de uma grande rede de tevê.

Voltando a Farroupilha. Das bibliotecas públicas que conheço (quando tenho horas livre em uma cidade, mesmo em trânsito, procuro a biblioteca municipal), a daí era uma das melhores. A começar porque era uma bela construção antiga e tinha, quando a frequentei, um bom acervo de títulos. Contar com uma boa biblioteca municipal diz muito sobre a sua gente e seus governantes. Outra – vinda de um muncípio bem menor – é a de Tapera, região da alemoada mas com gringos também. Cidade que tem boas bibliotecas, ruas e banheiros limpos começa a ser civilizada.

Alain Delon, o ator, o homem mais bonito do mundo (acho que era mesmo) morreu atirando para todos os lados, dizendo, na Suiça, que não lamentava partir de uma época na qual o dinheiro manda, o mau gosto, a ignorância e o egoísmo campeiam. Foi uma espécie de carta aberta à Modernidade. Delon viu e viveu tudo, sabe o que diz. Brigitte Bardot, outra, não fez discurso. Preferiu os bichos aos humanos, e fez o certo. Viver vai enfadando o cara, de repente você se descobre mais feliz pescando numa lagoa, caminhando em uma estradinha rural durante um arrebatador pôr-do sol. Melhor do que mil babacas te jogando bafo na nuca com certeza é.

Anthony Quinn era mexicano, índio e irlandês da parte de pai ou de mãe. É um dos meus atores favoritos, perdendo para Gregory Peck, esse sim, o cara. Tem um depoimento da Ingrid Bergman que põe Peck nas alturas. Ingrid dizia que ele foi o maior e melhor ser humano que ela conheceu.

Acabou 2025, o que será que vem agora, pergunto. Idiotice minha: deveria perguntar isso no ano 2000, que ainda dava tempo.
De qualquer maneira bom ano de 26 a todos.