JORNAL O FARROUPILHA – EDIÇÃO 2.500: A experiência da palavra

Rosana MarinaEscritora, professora e designer gráfica A palavra antecede a explicação. Estala na boca, toca o céu. Oscila entre sons

Rosana Marina
Escritora, professora e designer gráfica

A palavra antecede a explicação. Estala na boca, toca o céu. Oscila entre sons secos e duros, para quase se desfazer em sussurro. Não é apenas matéria sonora: é experiência sensível.

Viver as palavras nos desloca do lugar-comum. Elas nos permitem ir além de nós — tocar anseios, sentir sua textura, saborear alegrias, ou colher as dores que não são as nossas.

As palavras não apenas comunicam; deslocam, curam e ampliam o campo do sentir e do compreender.
Há palavras que informam. Outras nos atravessam. Algumas encerram sentidos, dispensam explicações.

Outras desafiam, geram inquietude e inauguram processos de transformação.

Interessa-me especialmente esse segundo tipo: palavras que, quanto mais próximas de um entendimento definitivo, mais se desdobram em novos significados. Como a luz do entardecer, não se apagam ao desaparecer — permanecem em suspensão, transformadas pelo que atravessaram, à espera de novos olhares.

A escrita e a leitura, como um espelho inesperado, nos colocam em contato com pensamentos que não sabíamos nomear. Reconhecemos ideias que jamais formulamos, mas que sempre habitaram em nós. É a palavra como lugar de descoberta interior.

Gosto de resgatar o gesto de, diante da grandeza de uma sentença, deslizar o dedo e deixar que, uma a uma, as palavras façam fluir seus sentidos — e, nesse movimento, despertem os meus.

Gosto de guardar o cheiro das palavras no papel; ele se revela, inteiro, no ato de folhear. Algumas páginas são densas, com palavras complexas, recolhidas na profundidade do pensamento. Já outras são nostálgicas; lançam-nos a um tempo que não vive senão no que as palavras nos oferecem.

Há páginas em que a palavra nos prepara para enfrentar a dor, a perda e os confrontos menos afortunados. Há também páginas-cor, que nos chegam como um canteiro de palavras a se abrir à brisa.

Em suas 2.500 edições, O Farroupilha fez da palavra um território de procura e encontro. Não se limitou a acompanhar o tempo — tencionou-o. Em suas páginas, a palavra ousou deslocar consensos, desafiar acomodações, abrir perguntas onde havia respostas prontas.

Houve coragem editorial e aposta no pensamento vivo.

O jornal excedeu a informação: incidiu sobre a cidade, contribuindo para a formação de uma sensibilidade coletiva, em permanente estado de leitura do mundo, porque as palavras não se esgotam no que dizem — seguem atuando e nos transformando.

“O estilo está sob
as palavras como dentro delas.
É igualmente a alma
e a carne de uma obra.”

— Gustave Flaubert