Tesouradas na timidez para vencer na profissão

Três de novembro é Dia do Cabeleireiro e nada melhor do que prestar nossa homenagem contando
uma boa história de alguém que exerce a profissão há 25 anos e aprendeu bem mais do que manejar tesouras

Claudia iembo
Especial

Superação. O significado desta palavra explica a essência da carreira de Carlos Alberto Burati, o Carlão cabelereiro, porque ele precisou vencer a dificuldade em lidar com as pessoas para progredir como profissional. O resultado da força de vontade é a fama por comandar seu ponto comercial, existente há 18 anos e meio no mesmo local, com uma clientela fiel e que se sente especial pelo tratamento que recebe. O que era dificuldade transformou-se em diferencial.

Natural de União da Serra, Carlão chegou a Farroupilha para trabalhar na agricultura. As mãos que hoje aparam os cabelos masculinos trabalharam por três anos na terra. Na época ele tinha 22 anos, hoje está com 51.
Eu não tinha estudo e queria uma profissão, um caminho a seguir, um rumo para a vida. Foi então que fiz um curso em Guaporé e me identifiquei com o ofício, mas confesso que só não desisti de teimoso porque passei uns três anos com verdadeiro pavor de lidar com os clientes, confessa com o alívio de quem superou o entrave.

Para mudar a situação, ele optou por aprender. Foi aí que deu a guinada em sua própria história. Fui fazer um curso de desenvolvimento pessoal e profissional e isso mudou tudo! Ganhei mais confiança e com o tempo fui lidando melhor com as pessoas. Superar este problema de timidez durou uns três anos, depois disso comecei a ganhar dinheiro, conta o cabeleireiro que tem 25 anos de profissão.

Carlão aprimorou seu atendimento ao ponto de transformar o ambiente masculino no qual trabalha em um local acessível também para as mães deixarem os filhos para o corte de cabelo. Tem muita senhora que deixa o filho aqui e vai fazer o que precisa no centro. A criança fica, conversa e se sente bem, assim como a pessoa que senta na cadeira. Duas ou três perguntas e está feita a conversa, ensina o ex-tímido.

Outra criança que precisava de um corte de cabelo foi a responsável por Carlão conhecer a esposa Adriana. Há 10 anos ela levou o primo Mateus até o cabeleireiro sem imaginar que Carlão seria o pai de sua filha Júlia, de dois anos. Sou muito grato a Farroupilha porque fiz minha carreira e minha família aqui, acrescenta.
No breve tempo que conversamos, Carlão fez três cortes. A cada cliente que chegava, o sorriso e a palavra gentil na ponta da língua.

-Estava me esperando?, pergunta o cliente, já tomando a cadeira.

-Estou sempre te esperando, respondeu Carlão.

Cenas presenciadas que comprovam que o moço tímido ficou para trás há muito tempo.

Carlão reflete a harmonia que encontrou na trajetória que ainda trilha. Trabalha de segunda a sábado, passa a maior parte do tempo em pé e faz planos de continuar na profissão no mínimo mais dez anos, segundo palavras dele.
Acabou trazendo os irmãos e o pai para Farroupilha também. Senhor Germano mora na parte debaixo da casa de Carlão e aos 86 anos não esconde o orgulho do filho. Sempre que ele vem aqui e não conhece as pessoas, dá um jeito de falar que é meu pai, diz piscando, sem disfarçar o quanto gosta desta atitude.

Para quem procurava um caminho a seguir, aos 22 anos, Carlão encontrou muito mais. Graças às suas próprias atitudes.