Morre publicitário que levou a Melissa à moda

Empresas inteligentes contratam profissionais capazes de somarem talentos para os resultados almejados. Assim o fez a Grendene, lá no final

Empresas inteligentes contratam profissionais capazes de somarem talentos para os resultados almejados. Assim o fez a Grendene, lá no final da década de 70, ao contatar o publicitário responsável por tornar as sandálias de plástico uma febre nacional. Estamos falando de Júlio Ribeiro, o dono de uma capacidade única na área do planejamento, que faleceu no início do mês, em dois de fevereiro, vítima de um AVC aos 84 anos.
Considerado um dos grandes nomes da publicidade brasileira, Ribeiro foi fundador da agência Talent, em 1980 e da JRP.
Segundo Washington Olivetto, em uma entrevista concedida do jornal O Estado de São Paulo, receber um planejamento de Júlio Ribeiro era como ter uma campanha praticamente pronta. Os dois trabalharam juntos no início da carreira de Olivetto.
Os fatos contam que a Talent decolou quando Roberto Duailibi (um dos donos da DPZ) disse que uma empresa gaúcha estava procurando uma agência de publicidade. Era a Grendene, fabricante da sandália de plástico Melissa, que acabou aparecendo na novela Dancin’ Days, inaugurando a era do merchandising na TV.
Em entrevista concedida ao Abap Week, em junho do ano passado, Ribeiro disse que a campanha que fez que mais deu resultados foi justamente a da Melissa.
Fui na casa do cliente na cidade de Farroupilha e ele explicou que fabricava plásticos para garrafões de vinho. Disse que uma vez foi para a Europa e viu que nas praias as meninas usavam sandálias de plástico para não machucar os pés. Então decidiu lançar sandálias com um elemento modal, arranjou uma agência e fez uma campanha. No começo vendeu muito bem, mas de repente acabou o verão e ele parou de vender. Ele me levou à fábrica e de fato havia montes de cestos cheios de sandálias plásticas. E me disse olha, acho que não tem solução, mas como me disseram que você é muito bom, fiquei interessado. Prometi estudar o assunto. Fiz isso e disse a ele que as pessoas tinham vergonha de usar sandália plástica fora da praia, fora do verão. Mas eu disse que há duas maneiras de apreender a realidade: uma são os seus olhos, e a outra é a tela da TV Globo. E estava no ar uma novela chamada Dancin’ Days, na qual ele topou anunciar. Encomendamos o desenho de uma sandália a um designer de Paris e a marca a um fabricante de sapatos – a Grendene. Puseram na televisão. No ano seguinte eram o maior fabricante de sandálias plásticas do mundo. Porque quando se pôs garotas da Globo dançando com a sandália plástica, tudo mudou, afirmou Ribeiro.
Sobre a morte do profissional, Marcius Dal Bó, da Divisão de Marca e Comunicação da Grendene, afirmou: Ficamos bem tristes com essa notícia. O Júlio foi muito importante para a Grendene. A Talent foi nossa segunda agência de propaganda e foi através da genialidade do Júlio que a Grendene se projetou no cenário nacional da comunicação com as estratégias de valorização do plástico como material de moda. Nós fomos um dos primeiros anunciantes a fazer merchandising nas novelas da Globo, logo no início da década de 80. Também fizemos lançamentos mundiais de Melissas desenhadas pelos principais estilistas franceses naquela época. Foram eles: Jean Paul Gaultier, Thierry Mugler, Elizabeth De Senneville e Jacqueline Jacobson (da grife Dorothée Bis). Também foi da Talent a ideia de trazermos para o Brasil a Top Model Internacional mais famosa da década de 90, a alemã Claudia Schiffer, para o lançamento de coleção de produtos da Linha Melissa.
Recentemente, no final do ano passado, recebi do Júlio, o último livro dele Fazer Acontecer, autografado, e fiquei muito contente pela lembrança. Liguei para ele no início deste ano marcando de visitá-lo porque junto ao livro havia um convite para visitar a agência JRP, propriedade dele em sociedade com o gaúcho Roberto Lautert.
No telefonema eu disse a ele que me sentia muito inspirado por vê-lo continuando a trabalhar, uma vez que eu sabia que ele já havia passado dos 80 anos, e ele me respondeu que estava muito feliz e disse: quando se trabalha no que se gosta o trabalho vira diversão e eu não vou ficar em casa enquanto puder trabalhar.

Frases de Júlio Ribeiro

O que eu aprendi é que se você não definir o que gosta – e não importa o que seja – não adianta. É preciso fazer o que se gosta, ter vocação. E estudar, também, claro.

O que dá prazer às pessoas é a maior empresa do mundo.

Vender mais não é a resposta, é preciso ver além.

Quando se entende o problema, é possível resolver. Muitas agências que não funcionam são aquelas que não entendem o problema dos clientes.

É preciso sentir qual é o problema. Conversar. Pesquisar. De repente nasce a solução.

Na Talent havia cerca de 250 funcionários e uma média de 80%, 90% gostavam da empresa. Porque a gente adorava as pessoas. É preciso gostar delas. É como cliente. Se você não gosta do cliente, não adianta.

O Brasil é um país agrícola e sempre será. Fazemos aviões, mas é isso que vai nos segurar. Com a tecnologia existente, seremos um grande país agrícola.

Acho que agora que estão expulsando os vermes da fruta, o Brasil deve ser uma boa fruta para comer. É preciso segurar mais um ano e meio e acreditar no Brasil. Estou otimista. Viver triste não compensa. – frase dita em junho do ano passado