Uma rede que funciona, mas pode progredir

A existência de diferentes portas de entrada amplia as possibilidades de atendimento, mas também cria um desafio apontado por quem

A existência de diferentes portas de entrada amplia as possibilidades de atendimento, mas também cria um desafio apontado por quem trabalha diretamente com as vítimas: integrar os serviços para que a mulher não precise percorrer tantos lugares em busca de proteção.

“Sinto necessidade de um lugar único onde a vítima tem todo o atendimento ali: desde informação, registros e encaminhamentos. Embora a rede de proteção existente no município seja bem eficiente e rápida, trazendo retornos infinitamente positivos, a mulher tem que percorrer a cidade: delegacia, prefeitura, Fórum, CREAS, UPAs, DML”, aponta.

Uma mulher que acabou de sofrer uma agressão pode precisar registrar ocorrência, solicitar medida protetiva, fazer exame, buscar atendimento psicológico e encontrar um lugar seguro. Nem sempre esses serviços estão no mesmo endereço.

Patrulha Maria da Penha

Quando uma medida protetiva de urgência é concedida, outra frente da rede entra em ação: a Patrulha Maria da Penha, da Brigada Militar.

A soldado Júlia Linhati de Oliveira Gomes atua na Patrulha desde 2019. Segundo ela, o acompanhamento começa depois da concessão da medida e inclui visitas à residência ou ao local de trabalho da mulher. “O objetivo é verificar seu bem-estar, sua segurança e a situação em relação ao agressor”, explica.

As situações encontradas durante o acompanhamento são registradas e encaminhadas ao Poder Judiciário, mas, segundo Júlia, existe um obstáculo anterior à própria medida protetiva: reconhecer que aquilo que acontece dentro de casa é violência. “Muitas vezes, a própria vítima não reconhece que está vivendo uma situação de violência e o agressor também não percebe ou não admite que seu comportamento é abusivo”, afirma.

Os efeitos da violência doméstica também ultrapassam a relação entre agressor e vítima. “Afetam a todos no ambiente familiar e quem cresce presenciando agressões, ameaças e discussões constantes pode acabar entendendo esse comportamento como algo normal e reproduzi-lo futuramente. Precisamos mostrar que a violência não deve ser naturalizada e que seus impactos atingem a família e consequentemente, a sociedade”, ressalta a soldado.

Por isso, a informação precisa chegar antes que a violência se agrave. “É importante levar informação para as escolas, famílias, empresas e comunidades. Muitas vezes, o primeiro passo para que uma mulher consiga sair da situação da violência é sentir que alguém acredita nela e está disposto a ajudá-la”, resume Júlia.

Reconstrução

Romper o ciclo não encerra a história. Para muitas mulheres, começa ali uma outra etapa, a de aprender a viver sem medo.

Na Coordenadoria da Mulher, os atendimentos psicológicos até agosto somaram 286; em 2025 foram 175.
“Reconstruir a própria vida depois de sair de um ciclo de violência exige fortalecimento emocional. A mulher vai precisar recuperar sua autonomia e, aos poucos, construir a pessoa que deseja ser sem a necessidade da aprovação do outro. Ela começa a compreender que não precisa depender de outra pessoa para se sentir inteira”, complementa a psicóloga da Coordenadoria da Mulher, Ticiana Marcante Antoniolli.
Elsa ainda está nesse caminho. Para ela, o primeiro passo demorou 40 anos, mas hoje, ela faz planos e quando se olha no espelho, enxerga a mulher que conseguiu ir embora e recomeçar.

  • Ligue 190 para emergência e perigo imediato.
  • Ligue 180 para denúncia e orientação.
Coordenadoria da Mulher: aumento de 72% nos atendimentos no mesmo período entre 2025 e 2026
Sala das Margaridas: atendimento humanizado às mulheres, que muitas vezes chegam com seus filhos