O caminho para recomeçar
A história de Elsa levou 40 anos para ser renovada. Conheça a rede que protege mulheres vítimas de violência doméstica em Farroupilha

CLAUDIA IEMBO
claudia@ofarroupilha.com.br
Por quatro décadas, Elsa T. K., 61 anos, aprendeu a conviver com o medo dentro da própria casa. Havia ameaças, humilhações, alcoolismo, agressão física e até um revólver apontado para sua cabeça. Durante este tempo, ela carregou a vergonha por tudo o que vivia e também a esperança de preservar a família.
Hoje, trabalha em uma padaria, sai com colegas e voltou a cuidar da aparência. Entre uma vida e outra, houve uma decisão: ir embora. Para isso encontrou uma rede de proteção que a ajudou a reconstruir seu caminho.
Em Farroupilha, essa rede reúne serviços de saúde, assistência social, educação, Polícia Civil, Brigada Militar, Poder Judiciário e Coordenadoria da Mulher. São diferentes portas de entrada para mulheres que vivem situações de violência doméstica. Para Elsa, a porta de entrada, descoberta há um ano e três meses, foi a Coordenadoria da Mulher.
Estamos em um mês especial para falar sobre isso. O Agosto Lilás, de conscientização pelo fim da violência contra a mulher, marca em 2026 os 20 anos da Lei Maria da Penha, promulgada em 7 de agosto de 2006.
Duas décadas depois, a violência continua atravessando lares e relações. Nem sempre deixa marcas visíveis porque acontece como ameaças, humilhações, controle, violência psicológica e patrimonial, além das agressões físicas e sexuais. Também ganhou novas formas, como perseguição por aplicativos, monitoramento de celulares, invasão de contas e divulgação não autorizada de imagens íntimas.
Para algumas mulheres, reconhecer a violência é o primeiro passo para uma nova vida.
Natural de Alpestre, Elsa chegou a Farroupilha há 32 anos. Casou-se aos 19 anos, com o único namorado que teve. Mãe de dois filhos, conheceu a violência do marido durante a segunda gestação. “Ele me bateu e eu fiquei toda cheia de hematomas pelo corpo. Bebia muito e como era depressivo, misturava o álcool aos remédios que tomava. Naquele dia, disse que nunca mais ele me encostaria a mão, mas a agressão psicológica não parou. Até colocar um revólver na minha cabeça, ele colocou”, conta, sem esconder a emoção.
Elsa passou por cima das dores. Havia a expectativa de preservar a família, mas também um sentimento que costuma acompanhar mulheres submetidas à violência. “Vergonha! Tinha vergonha por tudo o que eu enfrentava e por pensar em ser uma mulher separada, mãe de dois filhos”, diz.
Os filhos pediam para ela ficar e o ciclo continuava. “Ele bebia demais e tudo continuava igual: me agredia verbalmente, vinha com cadeiras para cima de mim. Depois agia como se nada tivesse acontecido e eu, destruída por dentro. ”
Mesmo diante da violência, Elsa buscou manter a relação. Depois de uma tentativa de suicídio do marido, trabalhou ainda mais para pagar uma internação em uma clínica de reabilitação. Ele conseguiu se tratar, mas anos depois vieram as descobertas da infidelidade conjugal e ela tomou a decisão de partir. “Nunca fui dependente financeiramente dele, então juntei minhas roupas em uma mala, entrei no carro e fui embora para nunca mais voltar. Amava minha casa, as economias de uma vida inteira de trabalho estavam lá, mas fui embora sem olhar para trás. Com uma mala e o carro. ”
Foram 40 anos. “Demorei tanto porque eu queria que ele ficasse bem, tinha aquela esperança de dar certo, da família, mas os filhos cresceram e se foram. ”
Depois da separação, Elsa buscou o divórcio. Na saída do escritório da advogada, recebeu uma ameaça de morte e registrou uma ocorrência. “Nunca mais chegou perto de mim”, conta. Atualmente, ela continua em tratamento psicológico na Coordenadoria da Mulher. Voltou a arrumar o cabelo, sair com colegas e encontrou um trabalho que “ama de paixão”, na cozinha de uma padaria. “Tenho orgulho da pessoa que fui, que fez tudo por ele, pela família. Aprendi, mas deixo um conselho para quem passa pelo que passei: não espere tanto tempo, se liberte! Sem a Coordenadoria eu não teria conseguido. ”
Muitas portas para pedir ajuda
A história de Elsa começou na Coordenadoria, mas segundo a coordenadora da Coordenadoria da Mulher, Silvana de Lima, diferentes serviços podem identificar uma situação de violência e orientar sobre os próximos passos. “Pelo agente comunitário de saúde, na unidade básica ou hospitalar, onde a notificação é obrigatória, pela escola ou por outros serviços. Em situações de emergência, a orientação é acionar o 190. A mulher também pode procurar diretamente a Polícia Civil para registrar a ocorrência após ter sofrido a violência. Tudo pode ser porta de entrada”, explica.
A partir daí o caminho depende da situação de cada mulher. “Às vezes, ela deseja voltar à família que mora em outro município e quase sempre conseguimos auxiliar com a passagem. Outras vezes, ela precisa de abrigamento seguro, então é acolhida na nossa casa de passagem até articular com sua rede de apoio para onde irá”, explica Silvana. Neste ano, de janeiro a julho, foram 131 acolhimentos na Coordenadoria da Mulher. Em 2025, no mesmo período, foram 76. Um aumento de 72%!
O município também desenvolve programas de prevenção, como o “Me Respeita” e o “Me Respeita Mirim”, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre situações de violência e orientar sobre como buscar ajuda.
A rede inclui ainda ações voltadas aos autores de violência. O “Projeto Ressignificar”, iniciativa da Vara Criminal da Comarca de Farroupilha, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, promove encontros mensais com autores de violência doméstica, criando um espaço de diálogo, reflexão e orientação. O “Eu Respeito” também atua com homens. A proposta de ambos é interromper a violência não apenas depois que ela acontece, mas também trabalhar para que não volte a acontecer.
- Recentemente, a Câmara Municipal de Vereadores criou a Procuradoria da Mulher de Farroupilha, para orientação e defesa dos direitos femininos.
Na delegacia
“A partir do momento em que a mulher entra na Sala das Margaridas, ela tem atendimento individual, humanizado, primeiro com escuta ativa, depois com encaminhamentos: registro de ocorrência, pedido de medidas protetivas, direcionamento para exame ou à Coordenadoria da Mulher. Tudo sempre levando em conta a vontade dela, o que diz a legislação e o que é cabível no caso”, explica a inspetora Liane Pioner Sartori, responsável pelos atendimentos.
Quando há solicitação de medida protetiva, o pedido é encaminhado ao Poder Judiciário. O boletim de ocorrência é encaminhado à autoridade policial, que avalia as providências cabíveis. Desde janeiro até agosto de 2026, momento da reportagem, o plantão do atendimento de Farroupilha registrou 249 ocorrências envolvendo mulheres vítimas de violência doméstica. Em 2025, neste mesmo período, foram 236. O levantamento não inclui ocorrências e denúncias realizadas de forma on-line.
- Os números dimensionam apenas parte do problema porque por trás de cada ocorrência há uma história que nem sempre chega aos serviços públicos. O último feminicídio registrado no município ocorreu em 2023.
