Educação – Uma força-tarefa contra o tempo perdido na pandemia

Especialistas defendem retomada presencial e participação das famílias e do poder público para que o Brasil não regrida na formação de crianças e adolescentes

Especialistas defendem retomada presencial e participação das famílias e do poder público para que o Brasil não regrida na formação de crianças e adolescentes  

 

Entre as cores que regulam as ações de combate à Covid-19 no Rio Grande do Sul, a bandeira vermelha está de volta. E, com ela, vem o sinal verde para a retomada das aulas presenciais, entre outras atividades. O súbito rubro do mapa gaúcho vem no arrasto de uma batalha entre os poderes Executivo e Judiciário e da pressão tanto dos que defendem a reabertura das escolas como daqueles que alertam que ainda não é hora de relaxar.

“As escolas deveriam ser os últimos lugares a fechar e os primeiros a reabrir”, sintetiza Ivan Gontijo, coordenador de Políticas Educacionais do Movimento Todos pela Educação. “Além do papel da aprendizagem, de formação de vínculos e de convívio com as diferenças, são espaços de proteção, onde professores e diretores identificam situações de violência doméstica e abusos, e de segurança alimentar, onde muitos garantem uma refeição completa. Mas o que vimos no Brasil foi a retomada das atividades em restaurantes, bares e lojas, e o ensino ficou no fim da fila.” Gontijo acrescenta que estudos comprovam a reduzida taxa de transmissão do vírus em escolas e vai além: “O país perdeu a oportunidade de uma retomada efetiva no segundo semestre de 2020, quando os índices da Covid-19 estavam mais baixos”.

É consenso entre especialistas em campos que cobrem da pedagogia à psicologia que a privação da educação presencial em razão da pandemia provoca uma cadeia de impactos, com efeitos que serão observados em longo prazo. Nas crianças, estudar em casa compromete, além do aprendizado, as capacidades de raciocínio e de relacionamento. Nos pais, as atividades remotas trazem a responsabilidade extra de zelar para que os filhos não percam os conteúdos e prestem atenção às aulas. 

 

Esforço conjunto

Para o presidente do Sindicato do Ensino Privado do RS (Sinepe-RS), Bruno Eizerik, as atividades presenciais do ensino não deveriam ter sido interrompidas, principalmente para alunos em fase de desenvolvimento e aprendizagem na Educação Infantil e na Educação Básica. “O que temos de fazer é suprir essas lacunas, e isso será com reforço de atividades, a exemplo do que ocorreu no ano passado, no período em que tivemos as escolas reabertas”. Eizerik lembra que as instituições de ensino adotaram medidas como controle de temperatura, escalonamento do recreio e distanciamento na sala de aula. E ressalta: “O aluno leva para casa a orientação e os cuidados e cobra dos pais a execução correta das medidas de prevenção”.

Presidente do Sindicato dos Professores e Funcionários de Escola do Rio Grande do Sul (Cpers-Sindicato), Helenir Schürer afirma: “O papel da escola sai fortalecido, e a sociabilização passa pelo espaço escolar”. Contudo, a dirigente entende que é preciso haver condições para uma retomada segura na rede pública, com a oferta de equipamentos de proteção, adequação de estruturas e a vacinação dos profissionais. Helenir defende que a adoção de um sistema híbrido será ainda necessária e que o plano de recuperação das atividades deve ser articulado junto ao governo.

 

Um espaço insubstituível

Quanto menor a idade, pior o efeito da falta da sala de aula, alerta a presidente da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia, Rochele Paz Fonseca: “A convivência social, a formação e a consolidação de hábitos de aprendizagem, de leitura e de estudos oportunizados no ambiente escolar são únicas”. Até os oito anos, a atividade na escola é fundamental para a aquisição de funções cognitivas como a atenção sustentada (ouvir uma história por um período de 15 a 45 minutos), a capacidade de reter novas informações e o desenvolvimento da linguagem oral. Já as funções executivas — como controle mental, organização e inibição de impulsos — são necessárias para todos os processos da escola e da vida.

Com o ensino remoto, muitos desses processos ficaram prejudicados. De acordo com Rochele, é muito importante a família trabalhar para uma “redução de anos”. Atividades de estímulo à leitura e de integração por meio de brincadeiras são fundamentais. “Sabemos que os pais estão esgotados, mas é preciso dedicar um tempo com qualidade aos filhos, mesmo que sejam cinco ou dez minutos, estimular a leitura e, na medida do possível, promover a interação com as crianças mais próximas, para que não percam o convívio”.

 

Evasão escolar já é realidade

Um dos grandes desafios das administrações públicas com a retomada das aulas presenciais será frear a evasão escolar. Dados do IBGE indicam que 1,4 milhão de crianças e adolescentes não frequentaram a escola em 2020. Outros 4,1 milhões de jovens não tiveram acesso a atividades educacionais. “A escola é um lugar de acolhimento e de convívio, além de espaço de aprendizagem. Para trazer esses alunos novamente, o poder público tem de estimular a participação da família e da sociedade”, destaca Cezar Miola, presidente do Comitê Técnico da Educação do Instituto Rui Barbosa e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. A prioridade de vacinar os professores é defendida pelo comitê para que se criem condições de segurança na retomada das atividades.

Em um país com 11 milhões de analfabetos com mais de 15 anos e onde metade das crianças na faixa dos oito anos não aprende o básico em Matemática e Língua Portuguesa, pontua Miola, o amplo acesso, a permanência e qualidade do ensino ainda são cenários distantes. O resultado no futuro poderá se refletir na falta de mão de obra qualificada e na ampliação do contingente de analfabetos funcionais. “Isso terá impacto na qualidade de vida, na obtenção de melhores postos de trabalho e no desenvolvimento de uma geração”.

 

Um retrocesso de anos

Estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) encomendado pela Fundação Lemann, com dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), indica que a educação brasileira pode retroceder até quatro anos nos níveis de aprendizagem. Isso em razão da suspensão das aulas presenciais na pandemia, e a dificuldade no acesso ao ensino remoto é um agravante.

Além dos protocolos que permitam a volta das atividades escolares e a garantia de transporte e acesso à internet, Miola aponta: “Os professores precisam estar preparados e orientados para esse novo momento. E o que foi feito nesse período de escolas fechadas? Houve adequação nas estruturas, qualificação desses profissionais? É preciso garantir a formação continuada desses profissionais, que devem ser valorizados e ter um plano de carreira.” Ele reforça que é preciso olhar tanto para o presente como para o futuro. “É necessário ver as áreas onde o recurso é efetivamente prioritário e qualificar o gasto público. Educação é o que faz a diferença para o desenvolvimento da sociedade”, conclui.

 

“As escolas devem mapear o tamanho do problema e não deixar ninguém para trás”

Em entrevista exclusiva para o projeto A Voz do Interior, da Associação dos Diários do Interior do Rio Grande do Sul (ADI-RS), o coordenador de Políticas Educacionais do Movimento Todos Pela Educação chama atenção para uma realidade: o fechamento de escolas produz diversos impactos educacionais e sociais. Ivan Gontijo (foto) defende que mitigar esse cenário demandará um grande empenho em diversas frentes. Confira os principais trechos:

 

Quais os principais impactos do fechamento das escolas?

Queda nos indicadores de aprendizagem. A desigualdade entre os alunos com melhor condição socioeconômica e os de baixa renda ficou ainda maior com o ensino remoto, dadas as dificuldades de acesso dos mais pobres. A evasão e o abandono também se acentuaram, pois muitas crianças e jovens ingressaram no mercado informal de trabalho para ajudar na renda da família. E a saúde emocional de professores e alunos também deve ser destacada. Muitos professores não tinham a qualificação adequada para aderir tão rapidamente ao ensino remoto. E há adolescentes que desenvolveram a chamada “síndrome da gaiola” e não querem voltar às atividades presenciais.

 

O que pode ser feito para reduzir esses impactos negativos?

Não será possível mitigar todos esses impactos em um curto período, mas as escolas devem mapear o tamanho do problema e não deixar ninguém para trás. Será preciso também trabalhar muito com reforço de atividades e acompanhar de perto os que têm mais dificuldades.

 

Qual é o papel dos pais nesse contexto?

Os pais passaram a acompanhar de perto as atividades escolares. Eles devem pedir dicas aos professores, manter contato com as escolas para que as atividades sejam produtivas. Lugares com os melhores sistemas de educação no mundo, como Coreia, Japão e Cingapura, têm a família muito presente. Esperamos que isso permaneça, pois a educação é feita a muitas mãos.

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