A mudança de perspectiva na mobilidade urbana (humana)

O crescimento urbano intenso no Brasil, em especial nas grandes cidades e regiões metropolitanas, a partir da década de 1960, acarretou em um sistema de mobilidade de baixa qualidade e de alto custo, gerando impacto negativo na vida das pessoas, tanto economicamente, tanto ambientalmente.
Com a criação da Lei Federal 12.587/2012, denominada Política Nacional de Mobilidade Urbana a qual instituí diretrizes e dota os municípios de instrumentos para melhoria da mobilidade nas cidades, os municípios, na sua maioria, elaboraram seus planos de mobilidade urbana, caso de Farroupilha, que instituiu o plano 2015.
Uma análise importante é a real efetivação destes planos, em um breve estudo na Região Metropolitana da Serra Gaúcha, na qual estamos inseridos, percebeu-se que mobilidade não é prioridade, infelizmente, muitos planos estão esquecidos em gavetas, mas isso fica para uma próxima reflexão.
Atualmente, depois de um longo confinamento, percebemos a necessidade de rever a pauta da mobilidade e a perspectiva pela qual ela tem sido estruturada. Trata-se de uma mudança de conceito: colocar as pessoas no eixo do debate, em vez dos meios de transporte. E neste sentido, de atender os cidadãos, a mobilidade não poderia ser outra que não humana, independente do seu ambiente ou da forma de deslocamento.
Com base neste conceito, tudo o que interfere no movimento humana (modais, vias, sinalizações, leis, acessibilidade, etc.) deve ser pensado com o propósito de oferecer, gradativamente, uma mobilidade mais segura e inteligente, que preze pelo bem-estar e a qualidade de vida. Muito mais do que uma questão semântica, a mobilidade humana amplia a perspectiva pela qual a mobilidade urbana tem sido pensada.
O conceito visa, a partir de circunstâncias físicas, históricas, geográficas, políticas e culturais, buscar soluções para que sua locomoção seja mais eficiente. Um exemplo visto, neste momento, foi o home office, criou-se incentivo ao uso da tecnologia como um meio para que as pessoas trabalhem de casa e, assim, o fluxo de pessoas nas ruas diminua, já a mobilidade urbana utiliza a tecnologia como fim, ao propor semáforos inteligentes para que esse fluxo já existente seja mais eficiente. Mais uma vez, a diferença está em trazer as pessoas para o foco do debate.
A mobilidade humana passa pela ideia de adaptar a infraestrutura e os espaços das cidades às novas soluções tecnológicas, estimulando a ocupação desses lugares por pessoas interessadas em conviver, cocriar e aprender. É a peça-chave para a democratização do espaço público e para o aprimoramento da relação que as pessoas têm com o espaço urbano.
Farroupilha tem diversos espaços urbanos com capacidade de serem readaptados, com enfoque no cidadão ou no veículo não motorizado, como o calçadão da Júlio, a colocação de mais parklets, diminuir espaços para veículos dando lugares a ciclovias, algumas inclusive já previstas no plano da cidade, o grande problema é que em meio a tantos problemas que o país enfrenta, questões relacionadas à mobilidade deixam de ser tratadas como prioridade.
É indispensável o desenvolvimento de políticas em consonância com a realidade e com os pleitos dos cidadãos, além da formulação de leis que sejam amplamente adotadas pela população, cujas penalidades sejam rigorosamente aplicadas. Já no que diz respeito à sociedade, é fundamental que ela esteja engajada com a mobilidade não só quanto ao protagonismo que exerce sobre mudanças positivas nesse cenário, como em relação à cobrança às autoridades.