Meu discreto cunhado Romano Piccoli

Texto do dr. Fernando Luchese

Ele chegou a Farroupilha com 26 anos vindo da Feliz onde nasceu, e após a sua graduação em Porto Alegre na Faculdade de Engenharia da UFRGS. Meu pai era o prefeito e contratou aquele engenheiro novo, para a prefeitura pois era o primeiro profissional a chegar em nossa cidade. Nos primeiros dias morou no hotel da Chica, o único da cidade. Um dos primeiros trabalhos executados por ele foi a liberação do carnaval a ser realizado no velho Clube do Comércio que indicava sérios defeitos em sua estrutura e ameaçava desabar. Romano introduziu algumas escoras no porão e passou todos os bailes de carnaval enfurnado nas fundações do velho clube observando o comportamento da estrutura. O Clube sobreviveu alguns anos mais. Como engenheiro da prefeitura projetou a Avenida Santa Rita que passou a ser entrada e saída principal da cidade. Cresceu muito como profissional. Muitos edifícios e prédios tem sua assinatura na cidade. Em Carlos Barbosa, executou os primeiros prédios da Tramontina. Outras fábricas de nossa cidade foram também construídas por ele como a Metalúrgica Soprano, a fábrica de embalagens Trombini e, seu orgulho, a Tramontina de Farroupilha. Trabalhava com um desenhista ao seu lado, Bento Geraldo Pigozzi. Ambos passavam o dia assobiando música clássica em sincronia, enquanto cada um se concentrava em suas tarefas. Romano terminou se caracterizando como engenheiro calculista o que lhe deu enorme projeção na nossa região. Seu orgulho foi um vão livre de 35 metros sustentado por uma viga que ele calculou e construiu para a Grendene e hoje é um dos pavilhões da Tramontina. Criou com seus colegas há 30 anos a Associação Farroupilhense dos Engenheiros e Arquitetos e foi seu primeiro presidente. Estava sempre pronto a auxiliar tecnicamente os jovens engenheiros que o procuravam, mas exigia, como única compensação, que eles também ajudassem os seus pares.
Amava música. Tocava flauta, violão e violino, muitas vezes acompanhando composições clássicas executadas em seu toca-discos pela sua amada Filarmônica de Berlim. Houve época em que seus saraus de música clássica eram frequentados pelos seus melhores amigos que admiravam seus comentários.
Romano vivia discretamente com sua família, cercado pelo calor de amigos que aos poucos também foram envelhecendo e desaparecendo.
Recordo bem, apesar dos meus seis anos de idade na época, de quando ele circulava em nossa casa. Meu pai estava convencido que ele era um dedicado engenheiro da prefeitura pois vinha em horas de folga discutir projetos da cidade. Levamos tempo para entender que o que o atraia era a Maria da Gloria, minha irmã de dezesseis anos. O início do namoro trouxe uma razoável crise familiar pela diferença de 10 anos entre eles, na época considerada um tabu. Minha missão era permanecer vigiando os dois nas horas de namoro sentados na sala de casa. Resolvi bem o problema passando a sentar entre os dois. Tive com isso algumas vantagens como dinheiro para ir ao bar-armazém do Vedovelli comprar chocolates, o que facilmente me fazia esquecer da missão que me fora delegada. Casaram-se em dia chuvoso de inverno quando eu estava no seminário em Caxias.
Romano foi importante para mim, uma espécie de irmão mais velho, sempre com o conselho certo na hora certa. Devo muito a ele por ter tido a coragem de me ajudar definir rumos em minha vida.
Romano faleceu, discretamente, comigo no Hospital São Francisco da Santa Casa, em primeiro de dezembro, aos 91 anos. Passou os últimos 10 anos em tratamento de saúde sem uma queixa e sem tirar seu sorriso simpático do rosto e seus olhos azuis de minha irmã. Foram um casal feliz e exemplar. Seus filhos Rossana, Alexandre e Marcelo foram sua melhor obra, além dos cinco netos e um bisneto. Maria da Glória, médica formada aos 40 anos, estou convencido, centrou sua profissão no cuidado do marido. No momento em que dei a ela a notícia da irreversibilidade de sua doença ela me fez o comentário que mais impactou minha já longa vida de médico.
“Vivi com o Romano três anos de namoro e sessenta e dois de casamento e nunca tive um dia ruim.” Foi uma vida longa, produtiva e feliz. Parabéns, Romano, meu discreto cunhado!

Romano Piccoli foi o primeiro presidente da AFEA, Associação Farroupilhense de Engenheiros e Arquitetos que em janeiro de 2022 está completando 38 anos