Dia do Comerciante: “Brilho no olho, pés no chãoe barriga no balcão”

Na semana em que se comemora o Dia do Comerciante (16 de julho), Eduardo Colombo, presidente da Lojas Colombo fala em entrevista ao jornal O Farroupilha sobre os desafios da empresa e da atividade comercial

Confira na entrevista visões, ideias e desafios do empresário que iniciou sua trajetória profissional no depósito e almoxarifado, foi vendedor, gerente de loja, diretor comercial e vice-presidente até ser indicado para a presidência no final de 2021.

Quais os principais números e cenário da empresa hoje?

São 347 Lojas Colombo espalhadas por quatro estados do país: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul. Apesar de todas as incertezas econômicas e políticas, mantemos um plano de expansão seguindo o pensamento otimista do nosso fundador, Adelino Colombo. De 2020 para cá, abrimos 138 lojas dando prioridade para inaugurações em cidades de porte médio e menor. Semana passada, por exemplo, chegamos a duas novas cidades do Paraná, Clevelândia e Santa Terezinha do Itaipu. É um processo contínuo. Neste mesmo período, reformamos outras 156 filiais e modernizamos o layout de 75% delas. Estamos fazendo o tema de casa para tornar atraentes os nossos pontos de venda.

Na estrutura logística temos dois Centros de Distribuição, sendo o de Nova Santa Rita, no Rio Grande do Sul, com 30 mil metros quadrados e outro em Curitiba, no Paraná, com 22 mil metros quadrados. Contamos também com oito entrepostos para garantir os estoques em diferentes regiões e uma frota própria de mais de 180 caminhões. A terceirização do frete ocorre hoje apenas das lojas para a casa do cliente, para tornar ágil a entrega depois da compra. Estamos sempre pensando em como otimizar a estrutura para atender com rapidez.

A Colombo chega ao ano 66. Quais os desafios de manter a empresa competitiva e viável num cenário de muita concorrência o que fica evidenciado quando se percebe que a maior parte das grandes redes concorrentes que atuavam no período em que sr. Adelino liderou a empresa já não existem mais, trocaram dono ou fizeram fusões? E mais a presença agressiva dos chineses no comércio eletrônico.

Um dos grandes ensinamentos do sr. Adelino sempre foi o de olhar para dentro da empresa. Ao ficarmos olhando para fora e nos comparando com os concorrentes deixamos de olhar para o que mais importa: para o nosso negócio. A Colombo tem os seus problemas, as suas falhas. Então, precisamos focar e trabalhar em cima delas, ver onde podemos melhorar. Se olharmos para dentro de casa, veremos muitas oportunidades.

Os concorrentes possuem uma estratégia, a Colombo possui outra e preciso acreditar nela. Tenho que acreditar na força da minha equipe, na minha loja e na minha empresa. A Colombo cresceu oferecendo o melhor atendimento, experiências e oportunidades de realização de sonhos.

Sobre a presença do mercado chinês, temos que encontrar uma forma de sobreviver a isso, entender como surfar nessa onda. Não vamos mudar o sistema. A China é uma das maiores potências do mundo e consegue colocar produto em todos os níveis de qualidade, em todos os mercados mundiais, em diferentes faixas de preço. Como concorrentes diretos, atualmente, não são uma preocupação. O cliente da Colombo não é quem consome os preços baixos dos sites chineses; ele entende que, muitas vezes, o comprar barato sai caro. O nosso cliente quer a experiência de olhar o produto, a explicação do vendedor e, principalmente, a garantia de uma boa qualidade.

Vocês realizaram no final do primeiro semestre o tradicional reconhecimento aos “Pratas da Casa”. Como manter uma boa equipe tanto na gestão quanto em cada uma das lojas em diferentes culturas e cidades?

No Pratas da Casa celebramos a história dos funcionários junto a Colombo. São pessoas que estão conosco há 10, 15, 20, 40, 50 anos. Mas, há uma mudança cultural acontecendo. Há uma nova geração entrando no mercado de trabalho com um pensamento muito diferente da minha geração, da sua e da do seu Adelino. Não podemos ser uma resistência, temos que ser apoiadores. Porque essa geração, além de serem os colaboradores entrantes hoje, serão os clientes de amanhã. Se você não souber lidar com eles, entender as suas expectativas, você também não vai conseguir vender para eles. Então temos que aprender a nos relacionar com eles e revisitar o modelo de trabalho em que estamos acostumados. Nós formamos no ano passado mais de duzentos trainees. Essa turma nova vê além do plano de carreira, ela precisa enxergar valor na empresa, precisam querer ficar.

Então, esse é o grande desafio. Como lidar com diferentes gerações dentro da empresa e fazer gestão de pessoas. Isso é um desafio gigante! E não há fórmula mágica: temos que trabalhar para reter as pessoas na nossa empresa e para que elas se tornem sempre melhores naquilo que fazem. É da nossa filosofia investir muito em treinamento. Nós temos a Unicolombo, que é a Universidade Colombo. Fazemos treinamentos para todos os colaboradores de loja, trainees, vendedores. Muitos deles vem para o nosso centro administrativo, em Farroupilha, onde temos salas de aula e ficam uma semana em imersão, estudando. Também estamos montando uma loja modelo, para os funcionários treinarem com produtos, operarem o sistema e simularem o atendimento ao cliente na prática.

O senhor segue uma tradição que seu avô Adelino protagonizou de forma permanente. Presença nas entidades de classe, clubes de serviço, vida comunitária. Como conciliar as pressões de comandar uma grande rede de lojas e conciliar com família, amigos, atuação nas entidades, atualização profissional?

Esse foi um grande ensinamento do meu avô, que sempre procurou e incentivou essa participação. Não só das entidades de comércio, mas das beneficentes. Meu avô participava do Rotary, eu integro a entidade desde os anos 2000. Ele foi presidente na CDL Caxias, e eu fui também recentemente. Então, meu recado para os comerciantes e para os empresários é: participem das suas entidades, principalmente daquelas nos seus ramos de atividade. É uma escola poder conviver no meio de outros empresários, de outros comerciantes. Na entidade você fala com pessoas de diferentes idades e vê que, ali, não importa o tamanho do negócio, os problemas são os mesmos. É uma oportunidade de troca; alguém já passou em algum momento pelo que nós estamos passando hoje, e a gente aprende. Essa relação com entidades é importante também para fortalecer o segmento. E a relação entre entidades também é necessária para estimular e consolidar o segmento.

Mas, a gente precisa ser honesto que não tem tempo para tudo. Às vezes, viajo, fico 15 dias fora. Quando estou aqui também estudo, faço Pós-MBA e cursos de formação empresarial. E as entidades, CDL, CICS… de vez em quando, ainda me convidam para palestrar em uma entidade ou evento. No meu caso, quem paga este preço é a família. Gostaria de estar mais com os meus filhos e com a minha esposa e não consigo. Então, para a família aperta um pouco. Mas há o entendimento do seguinte: não é a minha família, não é só com os meus dois filhos e com a minha esposa. A minha responsabilidade é com 4 mil famílias. Então, isso traz um peso e uma necessidade de aprimoramento constante. De buscar o melhor para a empresa, sempre. A prioridade sempre foi o negócio, o trabalho. Mas temos isso muito bem resolvido entre nós. Como diz a minha esposa,” nós somos uma equipe”. Se o negócio vai bem, todo mundo vai bem.

O dia 16 de julho, registrou o Dia do Comerciante. Dos aprendizados que o senhor teve com Adelino Colombo e a sua própria caminhada em vários funções do comércio o que senhor poderia dizer aos comerciantes ou quem pensa em empreender neste segmento?

Em resumo seria, você tem que ter a resiliência e acreditar em você. O comércio ficou um pouco desassistido no que tange a macroeconomia, o cenário político, econômico. Mas, temos que ressaltar que a força do Brasil, a força da nossa nação, vem muito do comércio, do serviço. O Brasil não vai colapsar porque tem a força do trabalho. Veja os números recentes, neste primeiro semestre o Rio Grande do Sul registrou o maior número de abertura de novos negócios em 22 anos! Muitos desses negócios não vão dar certo na primeira tentativa, mas vão dar certo na segunda. Nós temos que continuar acreditando. Acreditar que vai dar certo, mas acreditar e fazer as coisas acontecerem. Como dizia o meu avô, precisamos sempre ser otimistas.

Então, o primeiro ponto é: acreditar no seu negócio, no seu potencial. Escutar os outros, aprender, mas decidir acreditando naquilo que você tem como propósito. Tem que ter muita persistência. Persistência e resiliência. E no comércio é fundamental gostar de gente. Para atuar no comércio tem que gostar de pessoas, tem que gostar de relações humanas. É ter a barriga no balcão. Tem que atender bem o cliente, independente se é um restaurante, uma loja, um hotel. As empresas onde a gente se relaciona como consumidor, a gente volta. Nessa semana, por exemplo, fui muito mal tratado em uma oficina mecânica da cidade. Vira uma experiência traumática, naquele estabelecimento não volto e não indico mais para amigos ou familiares. Comércio é sobre isso: é sobre relacionamento. Seja o segmento que for, é preciso atender bem o cliente. No comércio, enquanto tiver cliente, tem comércio.

Muitos me perguntam se a inteligência artificial vai mudar o comércio. Claro! Esse negócio vem para ficar, e vem para mudar. Mas inteligência artificial não vai melhorar o seu negócio se você não fizer o básico, se você não trabalhar, se você não fizer sempre um pouquinho melhor. Fez hoje, amanhã tem que fazer um pouquinho melhor. Escutei uma frase do ex-presidente americano Lyndon B. Johnson que gostei muito. “O ontem não é nosso para recuperar. Mas o amanhã é nosso para ganhar ou perder”. Empreender é sobre isso, muito trabalho e muita dedicação. Não tem outra forma.