Lares que atravessam o tempo
O que acontece com as famílias quando o tempo passa? Entramos em algumas casas de Farroupilha para descobrir o que as estatísticas não conseguem contar sobre o envelhecimento da cidade

CLAUDIA IEMBO
claudia@ofarroupilha.com.br
Farroupilha costuma ser evidenciada pelos números que a projetam como cidade pujante, que prosperou com o trabalho, que se orgulha da terra fértil, do kiwi, do moscatel, da moda de inverno e dos empreendedores que ajudaram a construir sua identidade. Mas há uma transformação acontecendo longe das vitrines, das lavouras e das indústrias. Ela aparece dentro dos lares, onde as mudanças demográficas alteram rotinas.
Lares que guardam histórias diferentes, atravessadas pelo tempo. “Farroupilha está envelhecendo em um ritmo muito mais acelerado do que cresce. Segundo o Censo de 2022, o Município tinha 12.634 pessoas com 60 anos ou mais, cerca de 18% da população. Em 2010, eram aproximadamente 6.875 idosos. Em apenas 12 anos, a população idosa cresceu cerca de 84%, enquanto a população total aumentou em torno de 10%, de 63.635 para 69.885 pessoas”, destaca Melissa Pessato Cornutti, presidente do Conselho Municipal da Pessoa Idosa (COMPID).
A geriatra Ana Paula Zamboni explica as mudanças do envelhecimento. “Envelhecer hoje é um processo marcado por maior longevidade e autonomia. A medicina avançou, a prevenção ganhou espaço e a tecnologia permite monitorar a saúde, aprender, manter vínculos e participar mais ativamente da sociedade. Mas também surgem novos desafios, como a vulnerabilidade a golpes e notícias falsas. Um envelhecimento bem-sucedido passa por alimentação saudável, atividade física, sono de qualidade, conexões sociais e propósito”.
No município, a rede de apoio à população idosa reúne iniciativas de convivência, cuidado e defesa de direitos. É formada por espaços como o Centro de Convivência Idosos São José, o Centro-Dia do Idoso (CDI), pelas ações do COMPID, pela Comissão Especial dos Direitos da Pessoa Idosa (CEDPI) da OAB Subseção Farroupilha e também pela Associação de Aposentados de Farroupilha (Apopenfar), que tem cerca de 250 associados ativos.
“Temos convênios com médicos, clínicas e parcerias com o comércio. Oferecemos orientação jurídica e previdenciária, auxílio-funeral, apoio na aquisição de medicamentos e emissão da carteira de viagem. Também participamos de entidades estaduais e nacionais para fortalecer a defesa dos direitos dos aposentados”, explica o tesoureiro da Associação Bolivar Pasqual. São estruturas que ajudam a manter vínculos, oferecer suporte e garantir autonomia aos idosos, mas o envelhecimento da população coloca uma questão que vai além dos serviços disponíveis: quem cuida de quem quando o tempo passa?
“São cada vez mais comuns situações de idosos que vivem sozinhos, de um idoso cuidando de outro idoso e de filhos adultos que precisam conciliar trabalho, filhos e os cuidados com pais ou avós. Além disso, o município conta atualmente com 11 Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), sendo dez na rede privada e uma instituição conveniada localizada em Caxias do Sul”, esclarece a presidente do COMPID.
Para ela, não é difícil enxergar os desafios na cidade.
“Talvez o maior seja fazer com que as políticas públicas e a estrutura da cidade acompanhem a velocidade com que a população está envelhecendo, construindo uma rede de cuidado que permita às pessoas envelhecerem de forma digna, com autonomia, segurança, participação social e qualidade de vida. Isso envolve planejamento e implementação de ações voltadas à Política da Pessoa Idosa em todas as secretarias”, defende.
“Uma cidade que envelhece precisa se reorganizar, com acessibilidade, mobilidade e uma rede de cuidados que também apoie as famílias. Com filhos cada vez menos disponíveis para o cuidado, estruturas como as Instituições de Longa Permanência e os Centros-Dia são importantes para garantir assistência sem romper os vínculos familiares”, complementa a geriatra.
Dentro dos lares, as transformações são reveladas. A ausência de um companheiro muda a rotina de quem fica; o cuidado que um dia partiu dos avós para filhos e netos pode fazer o caminho de volta e morar sozinho já não significa viver isolado. Cruzamos a porta de três residências e, em cada uma delas, encontramos uma história sobre como a sociedade está aprendendo a envelhecer.
A saudade
Aos 97 anos de idade ele fecha os olhos pare acessar as recordações que chegam aos seus lábios e preenchem o espaço da sala, cuja parede ostenta o retrato da família toda. Há três anos, Dino Dorigon perdeu seu grande amor, dona Aloysia. Três meses depois, enfrentou a morte do filho André. “Difícil a vida sem eles. Quando Aloysia se foi, escrevi: ‘agora tu voltaste para onde sempre estivestes, no céu’”, conta.
Inconformado por ter perdido a aliança de casamento está pedindo à filha Marlene que lhe empreste a aliança da esposa para ver se cabe no dedo mínimo. “Foram 64 anos de casamento!”, orgulha-se o homem que ajudou a prosperar Farroupilha com a Estofados Dorigon, fundada em 1961 e fechada em maio de 2026.
Cheio de histórias para contar, cercado por suas orquídeas e pela saudade dos amores que partiram, senhor Dino tem ao seu lado a filha Marlene e o genro Martinho. O filho Henrique não mora com eles. Aos sábados, uma cuidadora vai até ele para barbeá-lo. “Isso não consigo mais fazer sozinho”, diz. A única neta, Vivian, filha de André, visita o avô para cuidar da agenda dele e escrever o que ele lhe dita. “Estou em uma nova missão: escrevendo mais um livro e quero viver até que ele esteja pronto”, encerra sorridente o empresário premiado da cidade e o jovem do passado que, no começo de carreira na fábrica de altares Bartelle, ajudou a entalhar o altar da igreja matriz.
- No endereço do senhor Dino, o envelhecimento aparece como ausência e a família precisou se reorganizar diante das perdas.

O cuidado
Na casa simples do bairro Alvorada quem recebe é o gatinho preto de estimação. Ao cruzar a soleira da porta, dona Maria Kotrowiski, 85 anos, acompanha a televisão em volume alto. O aparelho faz companhia às horas silenciosas da casa. Mãe de sete filhos, ainda divide a rotina com um deles, de 45 anos, que possui deficiência intelectual. Com ela, agora está o neto Michel Kubiak, que voltou de Balneário Camboriú para cuidar da avó.
- “Trabalhei muito e não tive tempo de ir para a escola. Tive meus filhos, mas cada um tem sua vida. Hoje, o neto Michel cuida de tudo para mim”, compartilha ao mesmo tempo que o moço chega para acompanhar a conversa.
“Voltei por causa dela. Ela cuidou de mim e agora eu cuido dela com todo meu amor”, diz Michel, 33 anos.
Juntos, compartilham o gosto por cozinhar. Ele diz que está aprendendo as receitas da avó, a quem chama de mãe. Ela esclarece: “faço de tudo: pão, tortéi com massa caseira, corto até lenha para fazer fogo”. Os filhos estão na mesma cidade, mas é o neto quem auxilia nas necessidades.
“Organizo os remédios dela, exames, acompanho em consultas médicas, faço compras do dia a dia. Espero que ela viva até os 100 anos, quando faremos uma grande festa”, divide Michel, que vai ser pai e “trazer ainda mais alegria” para perto da avó. No lar de dona Maria, que nunca aprendeu a ler porque o trabalho veio antes da escola, o envelhecimento trouxe o neto de volta e a família encontrou outra forma de união. Por lá, quem sempre cuidou, agora é cuidada.

O movimento
As escadarias que levam à porta de entrada da casa onde dona Dilva Brambilla mora há 64 anos, bem no centro de Farroupilha, não são desafios a serem vencidos aos 95 anos da proprietária. Ela sai para a rua, com a bengala, que usa por causa de um “incômodo” no joelho, praticamente todos os dias para as atividades do Programa Maturidade Ativa, do Sesc da cidade. “Minha rotina me mantém ativa”, assegura contando sobre os trabalhos manuais, o Pilates, o coral, as aulas de memória e artes cênicas e os encontros de autoconhecimento dos quais participa na instituição.
“Estou na fase da vida de mais convivência com as pessoas”, pontua a senhora que há 38 anos ficou viúva do marido Vacilly. Ela mora sozinha e, na sala organizada, conta que ela mesma toma conta de tudo. A filha Fernanda, que reside perto, é quem tem a chave de sua casa; a mais velha, Viviane, mudou de cidade. “Não tenho medo de ficar na casa sozinha. Tenho duas gatinhas, a natureza e Deus está sempre comigo”, garante a mulher que reza o terço todas as noites antes de dormir e vai às missas com a irmã Dionila, de 82 anos, que também mora sozinha.
- Para ela, a vida social faz toda a diferença. “Não gosto de isolamento, não faz bem”, ensina a senhora que nos recebeu arrumada, com batom nos lábios e laquê nos cabelos.
Na casa de dona Dilva, o envelhecimento não significou recolhimento, ao contrário: fez com que a convivência ganhasse ainda mais espaço. Passamos pelos lares onde as ausências deixaram saudade, onde o cuidado mudou de mãos e onde envelhecer não representou parar. Em cada um deles, o tempo deixou marcas diferentes e mostrou que quando uma cidade envelhece, não são apenas os números que mudam, mas também os vínculos, os papéis e as formas de cuidar.

