“Com melhor oportunidade de renda, o jovem rural vai permanecer no campo”

A frase é do Coordenador da Juventude Rural da Regional Serra, Alessandro Mateus De Cezaro, que expandiu o assunto em uma entrevista exclusiva ao jornal O Farroupilha

Claudia Iembo
claudia@ofarroupilha.com.br

O país celebra o “Mês da Juventude Rural”, destacando o papel dos jovens no campo e sua importância para a agricultura familiar. Neste contexto, a Câmara de Vereadores de Farroupilha recebeu, no dia 04/08, Alessandro Mateus De Cezaro, morador da comunidade de Rio Caçador, membro do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Farroupilha, Sintrafar, e Coordenador da Juventude Rural da Regional Serra, vinculada à Fetag-RS que atentou os parlamentares sobre o êxodo rural existente na região sul do país.

Segundo ele, nos últimos 10 anos, cerca de 25% dos jovens migraram do campo para a cidade e diante disso, ele busca construir políticas públicas de permanência do jovem no campo.
Citando que o meio rural gera laços comunitários, vínculos com a natureza e com o alimento, De Cezaro ressaltou a valorização das escolas no interior, serviços de saúde e segurança como formas de manter a pujança da agricultura familiar.

Conversamos mais com ele para aprofundar o assunto, seguindo a visão de quem, aos 29 anos, conhece e vivencia a realidade dos jovens no campo, especialmente por transitar em sindicatos e realizar visitas a propriedades.

JF – Quais são os
principais motivos que
levam os jovens a deixarem
o campo? E, por outro lado,
o que atrai os jovens
a permanecerem e
a construírem seu futuro
no meio rural?
DC – Um dos principais motivos que leva o jovem a sair do campo é a falta de diálogo com os pais ou com os avós. Quando não há essa abertura para o jovem poder ser também o protagonista, há muita dificuldade. A falta de renda também é responsável pela saída do campo. Em contrapartida, uma boa renda, uma boa infraestrutura da comunidade, uma boa infraestrutura da propriedade faz que o jovem ou retorne ou fique no campo.

JF – Tecnologia e inovação estão sendo
incorporadas para tornar o campo mais
atrativo e produtivo para a juventude?
Que exemplos
práticos você pode compartilhar?
DC – Sim, as tecnologias estão vindo! Hoje, temos tratores mais modernos, pulverizadores mais modernos, muitas pessoas têm drones para tratamento, tesouras que cortam sozinhas, máquinas de amarrar parreiras… Recentemente, visitei uma propriedade em que um robô tirava leite sozinho das vacas, fazendo com que a pessoa não precise acordar de madrugada. Tudo isso ajuda muito para o jovem permanecer na propriedade, já que o trabalho braçal e o trabalho no tempo, a grande maioria não quer.

JF – Além da agricultura tradicional,
quais outras atividades econômicas
ou de empreendedorismo no meio rural
têm potencial para engajar e gerar renda
para os jovens?
DC – Hoje nós temos a agricultura convencional, que é a produção de frutas e verduras no modo tradicional. Temos a produção orgânica, que é uma outra linha. Temos também agroindústrias familiares, as pousadas, lugares de lazer, trilhas ecológicas, parques de aventura. Todas opções de arrecadar dinheiro, tanto para as pessoas de mais idade quanto para a juventude.

JF – Qual é a sua visão para
o futuro da juventude rural no Brasil?
DC – Vejo que o Brasil, e a juventude em si, com o auxílio dos governos, com uma melhor oportunidade de renda, o jovem rural vai permanecer no campo. Futuramente haverá maior demanda para a alimentação, então o jovem que ficar, ou aquele que voltar, vai ter muito sucesso na agricultura.

JF – Como a participação
e o protagonismo da juventude
podem influenciar a criação
e o aprimoramento
das políticas públicas?
DC – Não é fácil responder. Só o jovem sabe o que ele precisa na agricultura. Os vereadores querem fazer um projeto de lei, mas sem ter a opinião da juventude é mais difícil porque hoje a juventude pede algumas situações, futuramente vai pedir outras. É importante que os jovens participem na elaboração das políticas públicas, porque elas têm o conhecimento do que realmente é preciso, do que falta ou do que vai precisar futuramente.

JF – Qual seria a ação ou política mais
urgente e impactante que você defenderia
para garantir um futuro próspero
para os jovens no campo?
DC – Uma coisa muito boa é o Pronaf, Programa Nacional de Agricultura Familiar, mas acho que quanto mais tu der oportunidade para o jovem comprar uma terra mais barata, para o jovem comprar um trator mais barato, uma infraestrutura para propriedade, para a comunidade, alimentação escolar… é um caminho muito bom. O jovem conseguindo ter uma propriedade estabilizada, moderna, com uma comunidade próspera em função de internet, de telefonia, de luz, asfaltamento, água, tudo isso faz com que ele permaneça no campo. Lembrando que tem que visar a renda, porque tem que ter o amor à propriedade, mas tem que ter renda também.

Com um amigo do Sintrafar, em Brasília