Farroupilha também está – mesmo que de forma indireta – na Copa do Mundo de futebol
Por Italir Gonçalves
Jornalista ABJ nº 3.872

Se não tem nenhum atleta farroupilhense na Seleção Brasileira que disputa a Copa do Mundo de 2026, não quer dizer que a cidade de Farroupilha não esteja representada neste mundial. Rodrigo Caetano, o maior ídolo da história do Brasil de Farroupilha ocupa o cargo mais importante na direção da equipe canarinho. Ele é o gerente executivo de futebol do time brasileiro. Rodrigo nasceu em Santo Antônio da Patrulha, mas costuma brincar que tem dupla cidadania, pois foi aqui nas castanheiras onde viveu a melhor fase da sua carreira de atleta nos anos de 1994, 1995 e 1997.
Para ter noção de sua responsabilidade no cargo que ocupa, foi ele quem fez contato com o técnico Carlo Ancelotti e, na época, declarou que “todo mundo falava que o Brasil tem os melhores jogadores do mundo, mas falta um treinador. Então contratamos o melhor treinador do mundo para comandar a seleção”. Além de Ancelotti, são mais 14 profissionais somente na comissão técnica, todos escolhidos a dedo pelo executivo. A Seleção conta também com departamento médico, fisioterapia, psicologia, nutrição, analistas táticos e de desempenho, todos coordenados pelo ídolo farroupilhense.
Sobre a equipe brasileira na Copa de 2026, Caetano lamenta o pouco tempo que o técnico Ancelotti teve para observar atletas e o número de lesões que tiraram alguns selecionáveis da convocação final. Rodrigo explica que um ano na seleção “não é como em um clube que você trabalha todos os dias com um mesmo grupo. Na seleção, foram apenas cinco convocações para as eliminatórias e datas Fifa até anunciar os 26 jogadores para o Mundial”, destaca ele.
Sobre o primeiro jogo da Seleção na Copa considerou o resultado normal já que o Marrocos é uma seleção de primeira linha do futebol mundial. Diz que não gostou do desempenho da equipe brasileira que foi abaixo do esperado, mas credita o baixo rendimento ao estagio de preparação que a equipe se encontra. Explica que são jogadores que atuam em diversos países, uns em meio de temporada, outros em final de temporada, além do nível de preparação de cada país.

Além disso, a equipe física e técnica está fazendo trabalhos diferenciados, para deixar todos os atletas com a mesma condição e isso demanda tempo e jogos. O diretor afirma que a equipe vai melhorar muito o nível de atuação, que a intenção é classificar em primeiro lugar do grupo. O planejamento é buscar a equipe ideal e equilíbrio físico, técnico e tático para entrar com tudo na fase de mata-matas. Ele acredita muito no hexacampeonato e que a torcida farroupilhense pode acreditar que todos estão dando o máximo para que o título venha para o Brasil.
A história no nosso Brasil
Rodrigo Caetano e Brasil de Farroupilha fizeram um casamento que resultou nos três melhores anos da história da equipe das Castanheiras. A estreia foi dia 30 de março de 1994, no Estádio Santa Rosa, em Novo Hamburgo, contra o Grêmio, clube onde Rodrigo iniciou sua carreira, apenas três dias após desembarcar em Farroupilha. 0x0 foi o placar. Nova partida fora, em Cruz Alta, contra o Guarani, e chegou o dia do primeiro jogo em casa, onde iria marcar sua trajetória.
Diante da torcida farroupilhense, bastaram dois minutos de jogo para ele ganhar a simpatia do público. Foi contra o Grêmio Santanense, de Santana do Livramento. Vitória de 2×0, com o primeiro gol marcado por ele, logo aos dois minutos do primeiro tempo. Ele fez as principais jogadas, dando assistência para o segundo gol. Ao final do jogo ele não foi nada modesto, mas tinha convicção e lucidez em suas afirmações. “Vim para disputar o título gaúcho, fazer história nesse clube e voltar a ter oportunidade em grandes clubes do Brasil ou exterior”, afirmou como se estivesse profetizando o que iria acontecer. Até aquele momento, nunca alguém tinha ousado falar em título, apenas não ser rebaixado de divisão.
Passou-se a viver um clima diferente na cidade. O estádio passou a ficar lotado. Seu carisma conquistava as pessoas, que passaram a ter orgulho do seu time. A cada partida jogada em casa e a torcida repetia: “ario, ario, ario, quem tem Rodrigo não precisa de Romário”, em alusão ao tetracampeão mundial Romário, que fazia sucesso no Flamengo. Adepto do sistema tático do time que vinha jogando, o Mogi Mirim-SP, que ficou conhecido como o “Carrossel Caipira”, Rodrigo aparecia muito em campo. Corria por todo o gramado, estava em excelente forma física. Orientava os companheiros e fazia o time jogar.

Naquele time, não se dava balão. Era bola de pé em pé. Futebol verdadeiramente jogado. Terminado o ano e as previsões do baixinho não se concretizaram. O Brasil acabou em oitavo lugar entre os 23 participantes da competição. Estava garantido na elite, no ano seguinte. Muito mais do que os diretores queriam. Rodrigo já era ídolo entre os torcedores. Mas a oportunidade de um grande clube não veio.
O jogador estava valorizado e todos queriam sua permanência. Os padrões de salário eram baixos para mantê-lo no clube. Além disso, o Mogi Mirim era dono do passe do jogador e queria sua volta. O patrocinador do clube das castanheiras na época era uma potência nacional e internacional. A Grendene S/A entrou na jogada. Ajudou Rodrigo a comprar seu passe e fez um contrato de direito de imagem, pagando um salário extra ao jogador.
- Em troca, ele teria que usar camisetas e bonés com propaganda dos tênis Pony, uma marca fabricada pela empresa na época.
No Campeonato Gaúcho de 1995 foram apenas 10 partidas disputadas com a camisa do Brasil. Foi o melhor início de temporada de Rodrigo, com 14 gols marcados. Logo uma proposta irrecusável do Sport Clube do Recife levou o atleta para o Nordeste. Naquela competição, com a grande arrancada inicial, o Brasil terminou em quinto lugar. O objetivo mais uma vez foi alcançado, a permanência na elite.
Ao final da competição daquele ano, o goleador foi Ailton, ex-companheiro de Rodrigo no Mogi, agora pelo Ipiranga de Erechim, com 16 gols. Rodrigo, em apenas 10 jogos, por muito pouco não alcançou a artilharia. O jogador, camisa 10, ainda voltaria a vestir o uniforme rubro-verde, em 1997. Foi o ano da consagração como maior ídolo da história do clube da Serra, e foi também o ano da sua maior derrota, a lesão. O Brasil de Farroupilha ainda viveu seus anos de glória nessa época. Caiu para a Série B do Campeonato Gaúcho, em 1999, e não conseguiu subir mais, até hoje.
Com a lesão sofrida, o sonho de jogar na Europa também caiu por terra. Rodrigo havia assinado um pré-contrato com o Compostela, da Espanha, para jogar em “lá Liga” espanhola e também as competições europeias de clubes. O contrato era de 30 mil dólares por mês, casa, carro, passagens aéreas e outras regalias. O atleta sequer viajou para a Espanha pois teria que passar por exames médicos para a assinatura do contato de três anos, acordado com os dirigentes espanhóis.
No mesmo ano, ainda sem ter jogado a fase final devido à lesão, Rodrigo foi escolhido o melhor Jogador do interior. Uma promoção do Grupo RBS (Rede Brasil Sul de Comunicações), os jornalistas e torcedores escolheram o melhor jogador da dupla Gre-Nal, e o melhor entre os clubes do interior do Estado. A torcida votava por cupons publicados no Jornal Zero Hora. Como prêmio recebeu um carro Ford K.
Por essa trajetória gloriosa, de três anos jogando no clube, foi que rendeu a ele a indicação para a “Calçada da Fama” da Federação Gaúcha de Futebol. A indicação foi aprovada por unanimidade no conselho do clube das Castanheiras. “Eu nunca falei com ele, mas era criança naquele tempo, e enquanto os outros meninos tinham como ídolo o Romário, Paulo Nunes, Jardel, o meu ídolo era Rodrigo Caetano, e continua até hoje”, diz o diretor do Brasil na época, Gabriel Marchet.
- No dia 18 de maio de 2018, Federação Gaúcha completou 100 anos de história. Nas comemorações alusivas ao aniversário, foi criada a “Calçada da Fama” do futebol gaúcho.
- Na rampa de acesso ao prédio, na fileira dois, o terceiro homenageado, à direita, está o nome de Rodrigo Caetano e o símbolo do Brasil de Farroupilha, entre 70 nomes.
A lesão que mudou sua vida
Era uma daquelas tardes de domingo, onde dois times disputavam mais um jogo pelo Campeonato Gaúcho. Dia 1º de junho de 1997. Estádio Beira Rio, em Porto Alegre. Segundo turno do Gauchão daquele ano. Internacional e SERC Brasil de Farroupilha estavam em campo apenas para cumprir tabela. A partida não valia mais nada. O Brasil, sem chances de classificação, teria mais duas partidas, após, para sua despedida da competição.
O Inter já estava classificado para a semifinal. Eram jogados oito minutos do primeiro tempo. Rodrigo recebe a bola na intermediária, pelo lado direito do campo. Domina e parte para o ataque, em diagonal para o lado esquerdo. O volante Fernando, do Internacional, com uma entrada lateral “carrinho” atinge o camisa 10 do Brasil. Aí, começa o pesadelo. Ele fica caído no gramado, se contorcendo em dores.
O árbitro da partida, César Pastro, imediatamente, chama atendimento. Entra em campo o massagista do Brasil, Vilson Sousa. “Fui o primeiro a chegar, quando vi a lesão, parecia que o Beira Rio havia caído na minha cabeça”, afirmou Souza, anos depois. O médico do clube farroupilhense era José Henrique Spinelli, não tinha viajado a Porto Alegre naquela tarde. Clube do Interior, poucos recursos, questão de economia.
Ao ver que se tratava de um caso muito grave, o médico do Inter também correu para prestar socorro. Sem poder fazer nada, trataram de encaminhar o jogador ao pronto socorro, onde recebeu uma tala de gesso. Depois, foi transferido para o Hospital Moinhos de Vento, onde ocorreu a cirurgia. O médico do Grêmio, Márcio Bolzoni, foi quem fez o procedimento. Ele afirmou na época que Rodrigo era um patrimônio do clube porto-alegrense, já que tinha sido criado lá, onde ficou por 12 anos.
Após a cirurgia, Rodrigo permaneceu 10 meses em recuperação até voltar a bater na bola. Jogou por mais cinco anos, em clubes do interior do Rio Grande do Sul. Ainda como “grande estrela”, para os padrões do futebol do Estado. Mas não tinha aquele brilho tradicional, que encantou a todos, principalmente os farroupilhenses que ainda tem Caetano como seu maior ídolo.
- A carreira de atleta acabou em 2002, para iniciar no ano seguinte como gerente Executivo de Futebol, no pequeno clube-empresa RS Futebol Clube, na cidade de Alvorada.
O primeiro e melhor gestor de futebol do Brasil nascia em 2003, no pequeno RS. Em 2005 foi para o Grêmio onde tirou o clube da série B de 2005 na famosa “batalha dos Aflitos”, até 2009 quando levou os azuis à final da Libertadores da América. Após foi para o Vasco da Gama-RJ onde também tirou o clube da série B e levou ao título da Copa do Brasil em 2012.
Foi Campeão Brasileiro de 2013 pelo Fluminense e voltou ao Vasco em 2014 para levá-lo novamente à Série A do Brasileiro, após nova queda do time de São Januário. Em 2015 foi para o Flamengo onde ficou por três anos e fez seu melhor trabalho de gestão, considerado até hoje. Pegou um clube mergulhado em dividas, sem campo para treinar e jogar e onde ao final das partidas a Justiça penhorava a renda para pagar dívidas do clube.
Saiu em 2018 com todas as contas pagas e com a construção do “Ninho do Urubu” um dos melhores centros de treinamentos do País. Estrutura montada que deu ao Flamengo a condição de melhor time do Brasil, colecionando títulos até hoje. Em 2018 veio para o Inter onde levou o clube ao segundo lugar no brasileiro daquele ano. Foi para o Atletico Mineiro em 2019, onde ganhou muitos títulos, entre eles um Campeonato Brasileiro e uma Copa do Brasil.

- Em 2024 chegou à Seleção Brasileira – foto acima – onde tenta buscar o hexa-campeonato mundial para os brasileiros.
